Sobre pedras e caminhos

Sobre pedras e caminhos_P2.jpg
imagem: Cassiano Rodka

por Clarice Casado

No meio do caminho

No meio do caminho tinha uma pedra
tinha uma pedra no meio do caminho
tinha uma pedra
no meio do caminho tinha uma pedra.

Nunca me esquecerei desse acontecimento
na vida de minhas retinas tão fatigadas.
Nunca me esquecerei que no meio do caminho
tinha uma pedra
tinha uma pedra no meio do caminho
no meio do caminho tinha uma pedra.

(Carlos Drummond de Andrade)

O bom de viver na Era Digital é poder usufruir das fabulosas invenções que surgem a cada hora, minuto, segundo, sei lá. É rápido pra caramba. E ser rápido é a palavra de ordem deste século XXI. Estou certa, leitores?

Pensando em rapidez, óbvio, comecei a usar o Waze há poucos meses, e ele tem simplificado bastante meus caminhos, e, por consequência, minha vida. Para quem não conhece, é um aplicativo para o celular que oferece ao motorista o melhor e mais rápido caminho para qualquer destino desejado, e o programinha só funciona bem pela participação ativa dos outros wazers, que reportam acidentes, obras na pista, trânsito lento, policiais no caminho etc. Quanto mais usuários, mais efetivo é o inteligente e eficiente sistema!). Se você ainda não experimentou, baixe agora mesmo e experimente: vale muito a pena! Até gasolina eu ando economizando.

Pois recentemente ouvi de um amigo o seguinte: “Hoje em dia eu ando usando o Waze até dentro de casa, pra ver o melhor caminho pra desviar da minha mulher e chegar rapidinho ao banheiro!”. Essa afirmação dele me fez rir um monte, e me fez pensar: imagina se tivéssemos um Waze para a vida? Sim! Um aplicativo do celular que te oferecesse os melhores caminhos para solução de problemas, decisões importantes e delicadas, chatices e afins? Imagina poder colocar como problema para o “Waze do destino”: “desentendimento com o chefe”, e o danadinho do aplicativo te dar, passo a passo, o que fazer? Te guiar detalhadamente para agir bem, de modo a não perder a cabeça em um momento tão difícil? E assim seria para todas as grandes decisões da vida (“Qual profissão devo escolher?”, “Caso ou não caso?”, “Troco ou não de emprego?”, “Tenho filhos ou não?”, “Faço ou não um mestrado no exterior”?”, “Brigo ou não brigo pela trigésima vez com meu marido pelo mesmo motivo?”, “Deixo ou não minha filha adolescente viajar com o namorado?”, “Aconselho ou não minha amiga a tomar um rumo na vida?”, e assim por diante!).

E então, as decisões e os caminhos de sua vida seriam guiados pelo “Waze do destino”, e todos os wazers ao seu redor lhe dariam dicas úteis para que você conseguisse desviar das “intempéries” da longa jornada, assim como no Waze do tráfego. Em vez de “trânsito lento”, seus amigos “Wazers do destino” lhe reportariam, “Chefe mau-humorado hoje, cuidado!”, ou, em vez de “polícia à frente”, você ouviria um “mulher furiosa te esperando em casa, fuja!”, ou, em vez de “acidente na pista”, seus amiguinhos lhe avisariam, “período complicado para sua família, tente manter a calma!”, e, ainda, no lugar de “chuva reportada à frente”, “provas ou tarefas muito difíceis amanhã, prepare-se bem!”.

Em realidade, eu, que sou daquelas que pensa que “o que tiver que ser, será, porém, o acaso dá sempre uma boa ajudinha”, acho que na vida temos, de uma maneira ou de outra, uma espécie de “Waze interno” – uma espécie de guia, que ignoro como funciona, mas no qual acredito muito – que acaba nos levando no sentido dos melhores caminhos, de um modo geral. Há as curvas apertadas, há as tempestades e há as estradas de terra batida ou de pedras, entretanto, sempre dá-se um jeito de desviar, de passar por cima com dificuldade, e acaba-se por superar tudo. Minha avó dizia que para tudo na vida tem um jeitinho, e este jeitinho, leitor, é sempre muito nosso, muito particular, muito especial. Acredito também que nossos amigos e família, pessoas que realmente nos amam, acabam fazendo o papel destes “wazers do destino”, porque estão sempre perto de nós, de algum modo, aconselhando e alertando. Ao ouvir conselhos, ao trocar ideias e ao aceitar sugestões carinhosas das pessoas especiais que nos cercam, construímos, pouco a pouco, e passo a passo, aquilo que gostamos de chamar simplesmente de vida.

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