Hoje Eu Quero Voltar Sozinho

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por Pedro Cunha

Lançado em 2010, o curta-metragem “Eu Não Quero Voltar Sozinho”, escrito e dirigido por Daniel Ribeiro, arrebatou uma série de prêmios em festivais no Brasil e no exterior. O sucesso do curta fez com que, ainda em 2010, começasse a captação de recursos para tentar torná-lo um longa. Em 2012 foi atingida a meta financeira e começou a produção do filme que nascia como “Todas as Coisas Mais Simples” e se tornaria “Hoje Eu Quero Voltar Sozinho”.

O longa tornou-se uma história sobre descoberta, sobre amor adolescente e sobre amizade. O interessante é que ele consegue ser tudo isso e não “o filme do garoto cego e gay”. A cegueira de Leo (Ghilherme Lobo), o protagonista, é tratada desde o início do filme de maneira muito natural. Somos apresentados a um deficiente visual já incluído no mundo, dentro das possibilidades de uma família de classe média alta. O garoto frequenta a escola regular, estuda, lê, escreve e tem os mesmos sonhos e frustrações de todo adolescente: a vontade de fugir dos pais, o sentimento de inadequação no mundo e até a pressão para dar o seu primeiro beijo. Ele lida com uma mãe superprotetora, um pai mais companheiro, uma avó próxima e Giovana (Tess Amorim), sua amiga de infância, companheira de escola e, como fica bem à mostra desde a primeira cena, completamente apaixonada pelo menino, que (com o perdão do trocadilho) não enxerga.

Nem o bullying sofrido na escola por Leo, que tem colegas que não conseguem conviver com a diferença, afeta a sua vida. A impressão que temos é que as brincadeiras dos colegas não o afetam e não são um grande problema para ele. A dinâmica da relação entre Leo e Gio vai mudar com a chegada de um aluno novo, Gabriel. Gabriel senta-se perto de Leo e logo eles tornam-se amigos. Há, no início, um princípio de interesse de Giovana por ele, mas logo o que acontece é ela sentir-se escanteada pela proximidade dos dois meninos, até que ela (e eles, principalmente) entenda o que está acontecendo de fato.

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Leo e Gio, sempre amigos desde a infância

Eu, professor, não posso deixar de chamar a atenção para uma pequena escorregada no roteiro: em determinado momento há um acampamento organizado pela escola e com a presença de professores. Até aí, tudo bem. No tal acampamento, durante a noite, há total liberdade para os alunos beberem álcool, usarem a piscina e passarem a noite nas barracas uns dos outros. O meu lado professor ficava vendo aquilo e imaginando qual escola, em sã consciência, permitiria aquilo e qual professor teria a demência de responsabilizar-se por aqueles meninos e meninas. Não estou dizendo, vejam bem, que é um absurdo que os jovens façam isso ou que eles não fazem, mas sim que fazer isso NUM EVENTO PROMOVIDO PELA ESCOLA é que é o problema. Problema, repito, para mim. Não estraga a história e nem desmerece o filme.

A direção de Daniel Ribeiro é leve e organizada. Não há grandes ousadias e pirotecnias (que não se encaixariam no roteiro, diga-se). O filme é linear e o diretor, desde o início, sabe qual história quer contar. Um filme que poderia ser facilmente transformado em um panfleto militante (ou dois, na verdade) tem muito sucesso em fugir disso tratando tudo, mas tudo mesmo, com muita naturalidade. Esse, aliás, é o recado do filme: tratando-se as coisas com naturalidade, sem muito espanto, elas tendem a resolver-se.

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Gabriel, que chega para mudar a dinâmica das relações

O trio de jovens atores (Ghilherme Lobo, Tess Amorim e Fábio Audi) sustenta muito bem o filme. Há que se destacar, é claro, o trabalho do protagonista, já que viver um personagem cego com naturalidade (sem usar óculos escuros o tempo inteiro, por exemplo) exige um trabalho de ator significativo, no qual Lobo e o diretor foram muito felizes. A fotografia de Pierre de Kerchove, com as imagens levemente borradas, tem por objetivo nos passar um pouco da sensação de falta de visão do cego, mas não há um exagero. Os tons claros escolhidos por ele combinam com a trilha sonora, capitaneada pela banda escocesa Belle and Sebastian. Tudo no filme é muito leve e delicado, mas sem ser frágil.

“Hoje eu Quero Voltar Sozinho” é, em última instância, um filme sobre descoberta. E é um lindo filme sobre descoberta. O tom delicado escolhido pelo diretor casa com a história que ele conta e com os atores que escolheu para vivê-la. Fiquei bastante curioso e estou no aguardo dos próximos trabalhos de Daniel Ribeiro.

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