Ana (parte I)

ana_P2.jpg
imagem: Ana Nitzan

por Marcella Marx

Ana era bibliotecária. Organizava sua vida em ordem alfabética inversa. O trabalho vinha muitas consoantes antes da vogal “A”. Ela poderia ter os olhos de Capitú, a beleza de Dulcinea ou ser ousada como Yentl. Achava-se porém, muito velha para qualquer uma delas. Era apenas Ana.

Naquela manhã, Ana saiu de casa, passou reto pelo jornaleiro, atravessou a rua na faixa e tropeçou ao subir na calçada. Depois de dois quarteirões, parou no ponto de ônibus e esperou. Era domingo, mas Ana relaxava na mesma rotina de todos os dias. No 732, sentava na terceira fileira do lado esquerdo, na janela. Ia com ele pelo bairro, olhando as lojas fechadas, reparando nos novos grafites dos muros. Naquele dia, leu:”Olhe para o lado!”.

– Se fosse eu, teria escrito: “Olhe pra frente!”

Desde criança, Ana era constante. Seus pais diziam que ela havia nascido pronta, e quando ouviam outros pais reclamando de seus filhos, ficavam até sem graça. Nada tinham a dizer sobre Ana.

Ela era esguia, não muito alta. Havia cortado o cabelo ainda mais curto. Gostava de se vestir bem. Suas cores favoritas eram o azul e o vermelho.

No ônibus quase vazio, sentou-se ao seu lado um homem de cabelos brancos que pediu licença e sorriu.

– Muito prazer, sou Lorenzo.

Ana respondeu com a ponta dos lábios.

– Ana.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s