Oscar 2014

por Pedro Cunha

Aproxima-se a noite de gala de Hollywood… e, é claro, tenho que dar meus palpites. Minhas avaliações foram prejudicadas por mudanças (ótimas) na minha vida: uma viagem de lua de mel e uma mudança de estado, que tumultuaram um pouco as coisas, mas não impediram que eu continuasse assistindo os filmes. Hoje vou falar sobre quatro dos indicados a melhor filme.

Capitão Phillips (Captain Phillips, Paul Greengrass, 2013)

Paul Greengrass é um britânico reconhecido por seus filmes de ação, como “A Supremacia Bourne” (The Bourne Supremacy, 2002), “O Ultimato Bourne” (The Bourne Ultimate, 2004) e “Zona Verde” (Green Zone, 2010), este último um excelente (e subvalorizado) filme sobre a ocupação americana no Iraque. Em todos esses filmes Greengrass dá mostras de que sabe criar situações de tensão muito fortes, daquelas que nos fazem sair do cinema com dor no pescoço. “Capitão Phillips” não é diferente. O filme é baseado numa história real sobre o sequestro de um navio mercante norte-americano por piratas na costa da Somália, um problema que surpreende e choca o mundo do século XXI. O diretor, juntamente com o roteirista Billy Ray (que baseou-se no livro autobiográfico do Capitão Richard Phillips), consegue construir uma tensão crescente e constante durante todo o filme. Desde o início há um desconforto, mesmo quando ainda não sabemos o que vai acontecer. Grenngrass calcula cada cena e faz com que a próxima seja ainda mais tensa que a anterior. Quando achamos que a coisa já estava difícil, ela torna-se ainda mais difícil, o que vai fazendo com que o grau de tensão aumente. O filme inteiro evolui “da frigideira para o fogo”, até o desfecho.

A direção do britânico é segura, mas certamente não teria alcançado o mesmo resultado sem as sólidas atuações de seus dois protagonistas. Tom Hanks vive o Capitão que dá título ao filme em uma atuação que talvez seja a melhor de toda sua carreira. A Academia adora Tom Hanks. Não é por nada que ele é um dos maiores ganhadores da história do Oscar: venceu em 94 por “Philadelphia” (Jonathan Demme, 1993) e em 95 por “Forrest Gump” (Robert Zemeckis, 1994), além de ter sido indicado em 89 por “Quero Ser Grande” (Big, Penny Marshall, 1988), em 99 por “O Resgate do Soldado Ryan” (Saving Private Ryan, Steven Spielberg, 1998) e em 2001 por “Náufrago” (Cast Away, Robert Zemeckis, 2000). Meio inexplicável, então, que a Academia não tenha sequer indicado Hanks por “Capitão Phillips”. O filme é todo centrado nele e o ator dá show, conseguindo nos convencer da realidade dos temores, dos medos e por fim dos terrores de seu personagem. Se Tom Hanks é algo garantido e que já conhecemos, o mesmo não pode ser dito do estreante Barkhad Abdi. Abdi é um somali cuja família se fugiu para o Iêmen quando ele tinha sete anos, fugindo da guerra civil que destroçou (e destroça) a Somália. Quando ele tinha 14 anos sua família se mudou para os EUA, onde ele cresceu e se formou. A atuação dele como Muse, o líder dos piratas somalis, é impressionante. Ele faz com que sintamos ao mesmo tempo pena e raiva do personagem. A indicação ao prêmio da Academia como Melhor Ator Coadjuvante é plenamente justa, ainda mais se levarmos em consideração que Barkhad não tem nenhuma formação de ator e trabalhava como chofer quando recebeu o convite para o filme.

“Capitão Phillips” obteve seis indicações. Além da de Melhor Ator Coadjuvante para Barkhad Abdi, o filme também foi indicado a Melhor Filme, Melhor Roteiro Adaptado e aos prêmios técnicos (Edição, Edição de Som e Mixagem de Som). Tradicionalmente não se deve apostar em filmes cujo diretor não foi indicado ao prêmio de Melhor Diretor, mas às vezes acontece uma pulverização de votos que faz com que um desses ganhe, como ocorreu ano passado com “Argo”. Essa é a chance de “Capitão Phillips”.

12 Anos de Escravidão (12 Years a Slave, Steve McQueen, 2013)

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Estamos acostumados a ver filmes sobre injustiças e dramas. Estamos acostumados a ver filmes sobre escravidão. Ainda assim “12 Anos de Escravidão” é um filme que choca. O roteiro foi baseado no livro de Solomon Northup sobre a experiência que marcou sua vida: nascido livre, no início do século XIX no estado de Nova Iorque, Solomon foi sequestrado aos 35 anos e entregue como se fosse um escravo fugido na Georgia, onde viveu durante doze anos em condições de escravidão. Steve McQueen aproveita-se da história de Northup e realiza um pungente filme antiescravidão que tem cenas fortíssimas de espancamento, estupro e violências diversas. A questão da escravidão por si só já é bastante chocante, mas nessa história ela se soma com a condição de um homem livre que foi “injustamente” tornado escravo (como se alguma escravidão fosse justa ou justificável, enfim). A cena na qual o protagonista é amarrado para ser enforcado e fica suspenso, equilibrando-se na ponta dos pés sobre o barro dura alguns minutos, mas para quem assiste a impressão é que são infindáveis horas. Essa cena é, disparado, a mais brutal do filme, ainda mais forte do que os (vários) espancamentos explícitos que o filme mostra.

Por mais que isso já tenha sido feito outras vezes o filme de McQueen tem um impacto muito forte e é cotado como franco favorito para levar a estatueta de Melhor Filme na noite de domingo. A produção de época é muito caprichada (concorre aos prêmios de figurino e design de produção) e é uma das coisas que a Academia gosta. Junte-se isso a uma história muito triste e a boas atuações e nós temos um filme pronto para levar prêmios. O protagonista Chiwetel Ejiofor (lembram dele na bomba “2012”?) foi justamente indicado ao Oscar de Melhor Ator. O sempre ótimo Michael Fassbender foi indicado a Melhor Ator Coadjuvante com muita justiça: o seu desempenho como Edwin Epps, o fazendeiro cruel, nos convence plenamente da psicopatia e nos faz odiá-lo como se deve odiar um vilão de filme. Lupita Nyong´o foi indicada a Melhor Atriz Coadjuvante e é quase injusto se ela não vencer, mesmo que seja uma categoria onde está concorrendo com gente de peso como Jennifer Lawrence e Sally Hawkins.

“12 Anos de Escravidão” concorre a Melhor Filme, Melhor Diretor (Steve McQueen), Melhor Roteiro Adaptado, Melhor Ator (Chiwetel Ejifor), Melhor Ator Coadjuvante (Michael Fassbender), Melhor Atriz Coadjuvante (Lupita Nyong´o), Melhor Firgurino e Melhor Edição. Já ganhou o Globo de Ouro de Melhor Filme (Drama) e o Bafta de Melhor Filme, o que faz dele o grande favorito da noite.

Philomena (Stephen Frears, 2013)

“Philomena” é mais um filme baseado em história real. Uma adolescente irlandesa engravida sem ter absolutamente nenhuma informação de como isso acontece e, a partir de então, sua vida vira um pequeno inferno. Ela é internada num convento para que tenha o filho sem chamar a atenção da sociedade. Não bastando a quantidade colossal de culpa que as sisudas freiras jogam em cima da menina, seu filho é tirado dela e dado para adoção. Philomena seguiu sua vida e escondeu essa história durante 50 anos, até decidir que queria encontrar o filho perdido. É nesse momento que sua história cruza com a do jornalista Martin Sixmith, que estava desempregado e a procura de um rumo na vida. A história de Philomena pode ser o que o jornalista precisa para alavancar sua carreira e o jornalista investigativo pode se o que a velha senora precisa para encontrar seu filho.

Frears é um bom diretor – “Ligações Perigosas” (Dangerous Liaisons, 1988), “Alta Fidelidade” (High Fidelity, 2000), “A Rainha” (The Queen, 2006) – que sabe contar histórias sobre pessoas. Em “Philomena” isso fica potencializado pelo fato de ele ter encontrado a atriz certa para o papel certo, que é Judi Dench como a protagonista que dá nome ao filme. A sensacional atriz britânica chega a sua sétima indicação ao Oscar (venceu o de Melhor Atriz Coadjuvante em 1999, pela sua performance como a rainha Elizabeth I em “Shakespeare Apaixonado (Shakespeare in Love, John Madden, 1998). A impressão que dá é que Dench está no melhor da sua carreira agora, já mais madura, diferente de outras colegas de profissão onde o talento às vezes apoia-se no frescor da juventude. Para o azar dela está num páreo bastante forte e não é a favorita, já que o prêmio de Melhor Atriz deve parar na prateleira de Cate Blanchet mesmo.

“Philomena” concorre aos prêmios de Melhor Filme, Melhor Atriz (Judi Dench), Melhor Trilha Sonora Original (Alexandre Desplat) e Melhor Roteiro Adaptado. Tem chances no roteiro adaptado se “12 Anos de Escravidão” não sair levando tudo na noite e é franco azarão na premiação principal.

Trapaça (American Hustle, David O. Russell, 2013)

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Christian Bale talvez seja o melhor ator de sua geração. Talvez não, ele é. A talentosíssima Amy Adams foi indicada pela quarta vez em seis anos a um Oscar de atuação. Jennifer Lawrence levou o prêmio de Melhor Atriz ano passado. Bradley Cooper foi indicado para o de Melhor Ator. Esses quatro, mais o bom Jeremy Renner (“Guerra ao Terror” (The Hurt Locker, Katheryn Bigelow, 2009)) sustentam “Trapaça”. O longa ainda é dirigido por David O. Russel, que é um dos novos queridinhos da Academia. Russell é um baita diretor de atores. Em 2010 dirigiu Melissa Leo, que venceu o de Melhor Atriz Coadjuvante, Amy Adams, indicada a Melhor Atriz Coadjuvante e Christian Bale que venceu o de Melhor Ator Coadjuvante por “O Vencedor” (The Fighter, 2010). Ano passado dirigiu Jennifer Lawrence, que venceu o de Melhor Atriz, Bradley Cooper, indicado a melhor ator, Jacki Weaver, indicado a Melhor Atriz Coadjuvante e Robert de Niro, numa boa atuação depois de anos de fiascos, indicado a melhor ator coadjuvante, todos no superestimado “O Lado Bom da Vida” (The Silver Lining Playbook, 2012).

A trama do filme é sobre trapaças, golpistas e trapaceiros e é claro, uns tentando passar a perna nos outros. Quando um agente do FBI (Cooper) consegue pegar um casal de estelionatários (Bale e Adams) e quer utilizá-los como isca para pegar peixes maiores, aproveitando-se da expertise deles em golpes e trapaças. A coisa toda começa a crescer e envolver gente realmente poderosa, como deputados, senadores e mafiosos, saindo um pouco do controle de todos os envolvidos. Em “Trapaça” nós temos, mais uma vez, grandes atuações. A ambientação do filme, em algum lugar entre os anos 70 e os 80, também é primorosa. A fotografia acerta os tons para colocar o filme no lugar. O problema de “Trapaça” é ritmo. O filme não acelera quando deveria e acaba se tornando um tanto lento. Não há um momento de empolgação, apesar de termos um roteiro interessante, uma ambientação bacana e excelentes atores trabalhando muito bem.

“Trapaça” está indicado a Melhor Filme, Melhor Diretor (David O. Russell), Melhor Ator (Christian Bale), Melhor Atriz (Amy Adams), Melhor Ator Coadjuvante (Bradley Cooper), Melhor Atriz Coadjuvante (Jennifer Lawrence), Melhor Roteiro Original, Melhor Edição, Melhor Figurino e Melhor Direção de Arte. O filme venceu o Globo de Ouro de Melhor Filme (Comédia/Musical) e Amy Adams e Jennifer Lawrence levaram os de Melhor Atriz e Melhor Atriz coadjuvante (ambos em Comédia/Musical). Lawrence tem alguma chance e Adams deve perder o prêmio para Cate Blanchet, se tudo seguir como parece seguir. “Trapaça” era um dos favoritos para melhor filme mas andou perdendo força nas últimas semanas. O filme não tornou-se um azarão, mas hoje dá para dizer que será surpresa se ganhar.

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