Azul é a cor mais delicada

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por Pedro Cunha

A adolescência é um período de descobertas, de coisas novas. A grande questão com as coisas novas é que elas, bem, são novas. Em função disso, muitas vezes temos dificuldades em entendê-las e, mais ainda, em aceitá-las. Durante a adolescência, os sentimentos, catalisados pelos hormônios, vêm aos milhões: tudo é muito forte, para o bem e para o mal. Experimentamos, portanto, sensações novas e intensas. É uma fase da nossa vida durante a qual, muitas vezes, não conseguimos explicar o que estamos sentindo simplesmente porque não sabemos. Ou não entendemos. Então choramos. Erramos. Tentamos. Descobrimos. Maravilhamo-nos com a mesma intensidade com que nos frustramos. Não só nossas sensações estão mudando como também o nosso corpo muda e, muitas vezes, é complicado entender o que o corpo quer, quanto mais aceitar. Outra grande mudança é a relação com a família. Nossos pais deixam de ser os heróis infalíveis de nossa infância e tornam-se pessoas reais, de quem enxergamos os defeitos e com quem temos que redefinir uma relação, se será de amizade, de admiração, de respeito ou de qualquer outra coisa, quando muitas vezes o que nós queríamos mesmo era o bom e velho colo de mãe, no qual não cabemos mais.

Enfim, “Azul É a Cor Mais Quente” (La vie d’Adèle – Chapitres 1 et 2, Abdellatif Kechiche, 2013) é sobre tudo isso e mais um pouco. O fato da principal trama do filme tratar da relação entre duas mulheres acaba sendo um detalhe, mesmo que acabe sendo um detalhe fundamental. “Azul É a Cor Mais Quente” é a adaptação da Graphic Novel (nome chique para história em quadrinhos, enfim) de mesmo nome da francesa Julie Maroh. A HQ ganhou vários prêmios e foi transformada em roteiro pelo diretor tunisiano Abdellatif Kechiche. O roteiro inspira-se na trama dos quadrinhos mas tem um ponto de vista claramente diferente, como a própria Julie Maroh faz questão de deixar bem claro em seu blog. A visão de Kechiche explora (e muito) os corpos de suas protagonistas e as cenas de sexo entre Adèle Exarchopoulos e Léa Seydoux foram, muitas vezes, o assunto dominante nos debates sobre o filme que levou a Palma de Ouro em Cannes. Muita gente acusa Kechiche de abusar e explorar suas atrizes, com o que parece concordar a praticamente estreante Adèle Exarchopoulos. A jovem atriz tinha 19 anos quando as filmagens começaram e Kechiche foi bastante exigente. As cenas de sexo, ao que parece, foram as primeiras a serem gravadas e foram repetidas à exaustão. Exarchopoulos participou apenas do início da divulgação do filme, que vem sendo feita em escala mundial pelo diretor e por Lea Seydoux, a outra atriz do filme.

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Lea Seydoux, Abdellatif Kechiche e Adéle Exarchopoulos recebendo a Palma de Ouro, em Cannes. Aí todo mundo ainda era amigo. 

As acusações de espetaculização e exploração do corpo feminino não são novidade para Kechiche. Seu filme anterior “Vênus Negra” (Vénus Noire, 2010. Falei dele aqui), que também é muito bom, sofreu as mesmas acusações. Nos dois casos, o uso do corpo se justifica dentro de uma proposta: em “Vênus Negra”, o filme era EXATAMENTE sobre isso, sobre exploração e abuso. E, em “Azul É a Cor Mais Quente”, a ideia do diretor, me parece, é propositalmente causar um desconforto na plateia. Há também a questão da maneira como estamos acostumados a ver o corpo, na maioria das vezes sob um viés hollywoodiano. A própria Exarchopoulos falou sobre isso: “O público americano não está acostumado com isso. É uma escolha do diretor. Todos fazemos sexo, é como uma droga, todo mundo adora. Nós tínhamos que mostrar o quanto fazer amor com alguém é visceral. A gente tinha que transmitir o quanto você se dá. Então nós escolhemos mostrar para todo mundo a emoção da descoberta da sexualidade”. As cenas de sexo são longas e muito mais explícitas do que estamos acostumados no cinema tradicional. A maneira de mostrar os corpos também: há imperfeições como espinhas, feridas ou estrias, o que acaba tornando os corpos ainda mais bonitos, na minha opinião, porque mais reais também. É muito diferente dos supercorpos que costumamos ver nos cinemas.

O diretor optou por contar sua história em dois atos (o que fica muito claro no título original do longa). Há, inclusive, um corte cronológico entre o primeiro e o segundo ato, que embora não seja explícito é facilmente perceptível. A primeira parte do filme trata das descobertas, como comentei no primeiro parágrafo. A segunda é sobre a desilusão e a crise de um relacionamento. As diferenças entre elas aparecem inclusive na fotografia, mais clara na primeira parte e mais escura na segunda. A fotografia, aliás, é muito linda na sua delicadeza e nos destaques sutis nos diversos azuis que aparecem como fios condutores do filme. Tudo é muito delicado, o que é importante para contrabalançar as cenas mais explícitas.

“Azul É a Cor Mais Quente” é um filme lindo, sensível e delicado. E triste também. Para quem já viu o filme, eu recomendo que complemente a experiência e leia a Graphic Novel. É uma outra visão, igualmente linda, sobre a mesma história. As duas mídias se completam e se explicam, em muitas coisas. Além de ser também uma bela HQ.

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