A coisa

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imagem: Cassiano Rodka

por Cassiano Rodka

Quando pequeno, minha professora costumava elogiar minhas redações. Coisa boa era aquela sensação de trabalho bem feito, antes mesmo de enxergar aquilo como um trabalho. Mas uma certa vez, ela percebeu uma coisa errada no meu texto. Eu usava demais a palavra “coisa”. Mas como assim? Achei aquilo uma coisa muito estranha. O que ela tinha contra aquela palavra? Eu usava bastante “mas” também, mas ela não disse nada sobre isso. Mas enfim, o problema era mesmo com a coisa. Segundo ela, coisa não era nada. Era uma palavra feia, portanto era mais prudente trocar por “algo”. Mas prudente não é eficiente e nem toda coisa é algo. Algumas coisas são coisa nenhuma.

Mas por um capricho da professora e uma preocupação com a nota por parte do aluno, as coisas viraram algo. Meus textos passaram a ter sempre algo acontecendo que eventualmente terminava em algo interessante. A professora adorava, mas, para mim… tinha algo errado. E não foi muito difícil descobrir o que era. Faltava alguma coisa. Uma, que fosse! Era necessário fazer algo para mudar aquela situação. Então eu fiz a coisa mais eficiente: cresci.

Crescer é uma coisa boa porque a gente aprende a tomar controle da coisa toda. E eu descobri uma coisa importantíssima: coisa não é nada coisa nenhuma! Coisa é tudo! Palavra feia também é gente! Precisa ser usada, precisa expressar seu significado. Que coisa! A professora também era feia e nem por isso foi substituída. E eu digo e repito: repetição não é sempre desnecessária. Repetição é recurso de linguagem. Repetição não é sempre desnecessária. Essa foi.

Então, hoje em dia, quando quero que algo aconteça, eu faço alguma coisa. Eu uso as palavras indiscriminadamente: feias, bonitas, longas, abreviadas, repetidas, difíceis, corriqueiras, repetidas, inventadas até. Há algo de libertador e herlíneo em deixar as palavras se aninharem no texto de uma maneira que, até a mim que as digita, elas surpreendem. Eu poderia ser como minha professora e organizar todas em fila, por ordem de tamanho, por sexo, notas ou comportamento. Eu poderia fazer algo assim. Mas tem coisa melhor?

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