Sobre sapatos

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imagem: Ana Nitzan

por Marcella Marx

Para falar de sapatos precisarei mencionar os pés. Chatos, finos, gorduchos, assimétricos, com calos, unha encravada, ou sem, inchados e cansados. Meu fascínio por pés começou ainda criança. Gostava de repará-los, encará-los, para que me traduzissem alguma coisa daquele dono. Quando não o conhecia, ali estava nosso primeiro encontro e tinha certeza de que já podia dizer uma meia dúzia de palavras sobre aquela personalidade. Para os que já conhecia, utilizava-os como minha maneira secreta de descobrir algo camuflado, impossível de atinar de outra maneira.
Na última semana, uma amiga me contou que doações de sapatos nos Estados Unidos não são bem aceitas. Fiquei intrigada. Depois me lembrei da sensação de calçar sapatos de um estranho, coisa que há muito não faço. Mas ela estava bem fresca em minha memória, e eu imediatamente entendi porque aquele povo não aceita sapatos usados. Nada melhor que pisar num sapato que não é o seu para adentrar um mundo novo, cheio de dores e delícias que não são suas, mas que te fazem refletir sobre sua própria existência. Pena, nem todos estarem preparados.

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