Escrito à mão

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imagem: Clarice Casado

por Clarice Casado

Para minha amiga Adriana Damus,
que outro dia me esreveu um bilhetinho.

Ah, as pequenas surpresas da vida…!

Cena: estacionamento do colégio dos meus filhos, manhã de uma terça-feira qualquer. Eu estou retornando de mais uma das reuniões para as quais eventualmente os professores convocam os pais em escolas. Olhando o relógio, apressada, como sempre, entro correndo no meu carro, dou a partida, e sigo em frente pelo caótico trânsito da cidade de São Paulo, fazendo mentalmente a lista do meu dia: “aula, depois outra aula, depois ainda outra aula, academia, almoço, passar na farmácia, outra aula, buscar as crianças na escola, levar no inglês e no ballet, ir para casa, tomar banho, dar jantar para as crianças, e, finalmente, última aula do dia, via Skype”. Pronto, check-list mental terminado, chego no meu primeiro destino do dia, aula. Ao entregar o carro ao manobrista, ele me fala, me entregando um pequeno papelzinho cor-de-rosa: “Moça, isto aqui estava no vidro do seu carro”. Eu olho o papelzinho, surpresa. E ele completa, “Incrível não ter voado com o vento!’. Eu concordo, e, curiosa, leio o bilhetinho, manuscrito, com bela letra feminina: “Beijos! Me liga. Dri”, acompanhado do desenho de um coração. Sorri, ali sozinha, em meio a pessoas passando, manobrista gritando, a vida fervilhando ao meu redor. Minha querida amiga Adriana, a Dri, havia visto meu carro estacionado na escola, e resolveu me deixar aquele simpático bilhetinho rosa, que me encheu de uma felicidade boba, uma alegria infantil de ter ganho um lindo presente…! Um simples gesto que mudou meu dia.

Um simples gesto que mudou meu dia e me fez pensar no quanto nos afastamos dos textos, cartas e bilhetes manuscritos. Onde foi parar nossa habilidade de usar a própria letra para a comunicação? Ah, leitores… Eu sei que a resposta é óbvia. Porém, a magia das palavras manuscritas é tão insusbtituível, que é duro pensar que ela acabou. Acabou, sufocada pelos e-mails e as imediatas mensagens via Facebook, SMS ou whatsapp, o atual “queridinho” da correspondência virtual.

O interessante foi que, naquela manhã, minha amiga poderia ter simplesmente pegado seu celular e me enviado mais um whatsapp rapidinho, aflito, parada dentro do carro. Mas, não. Ela se deu ao trabalho de pegar um pedacinho de papel, rasgá-lo cuidadosamente, escrever um carinhoso bilhete e deixar no vidro do meu carro. Um gesto de amor que não substitui, de modo nenhum, um e-mail ou uma mensagem de texto.

O bilhete da Dri também acendeu em mim alguns questionamentos, justamente sobre o modo pelo qual estamos enfrentando a avalanche de comunicações eletrônicas que temos que ler e responder diariamente – já falei um pouco disto em outra oportunidade aqui no P2, mas hoje quero abordar outro enfoque. Justamente pela rapidez e facilidade com as quais conseguimos enviar cartas, bilhetes e recados regularmente, todos os dias, diversas vezes por dia, tenho a impressão de que estamos, todos, aos poucos, enlouquecendo e ficando mais ansiosos, neuróticos e controladores! Ouço relatos de pessoas que não sossegam enquanto seu destinatário não responder suas mensagens. E a resposta precisa ser rápida, imediata, de preferência, em um período que não ultrapasse três horas! Pensam que, já que não tiveram resposta imediatíssima, não são amadas, foram esquecidas e que os pobres dos destinatários são uns mal-educados e sem um pingo de consideração…! E a situação se agrava quando o remetente descobre que o destinatário viu a mensagem e não a respondeu logo… Aí, a coisa é séria: o ódio ao destinatário é praticamente garantido, hehe…! Pergunto-me: será que estas pessoas não percebem que seus amigos, maridos, esposas, namorados, filhos, pais, mães e parentes em geral têm vidas ocupadas, trabalho, estudo, compromissos sociais, compromissos médicos, dirigem o dia todo pela cidade, enfim, que podem estar fazendo um milhão de outras coisas mais importantes do que responder imediatamente a sua bendita mensagem? Na maior parte das vezes, não é falta de educação, nem falta de amor, nem de carinho, nem de atenção e muito menos de preocupação, mas, isso sim, falta de tempo, apenas! Assim, eu digo sempre a todos os ansiosos remetentes de mensagens virtuais que relaxem e se acalmem, porque, por certo, a pessoa querida em breve irá lhe responder. A regra é básica, sempre foimesma, desde a época em que ainda não existia a correspondência virtual: se o seu interlocutor tem por você o mínimo de carinho, ele irá dar-lhe uma resposta. Melhor uma resposta que demore um pouco a vir, mas que venha com calma e amor, do que uma rápida e ríspida resposta no meio do trânsito, por exemplo, que, além de perigosa, pode ser mal interpretada.

E, enfim, ao sensível bilhetinho cor-de-rosa da minha querida amiga, eu respondi da melhor maneira possível: com uma demorada ligação telefônica (outra coisa rara hoje em dia!), em um momento bem tranquilo, em que eu tinha tempo para agradecer a ela, de todo o coração, a gentileza daquele gesto, que hoje me inspirou a escrever esta crônica.

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