Que Pena

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por Pedro Cunha

“Kick-Ass – Quebrando Tudo” (Kick-Ass, Matthew Vaughn, 2010) foi uma das gratas surpresas de 2010. A HQ maravilhosa e insana do escocês Mark Millar, um dos mais elogiados quadrinistas da nova (já nem tão nova) geração, misturava em doses cavalares violência e humor, muitas vezes politicamente incorreto (o de verdade, não a babaquice travestida de humor que anda se fazendo no Brasil) e a escolha de Vaughn não poderia ter sido mais acertada. Vaughn tornou-se conhecido pelo seu trabalho como produtor em filmes como “Jogos, Trapaças e Dois Canos Fumegantes” (Lock, Stock and Two Smoking Barrels, Guy Ritchie, 2998) e “Snatch – Porcos e Diamantes” (Snatch, Guy Ritchie, 2000), nos quais essas duas características – violência e sarcasmo – também apareciam em doses generosas. Vaughn foi um dos responsáveis pela adaptação do roteiro a partir dos quadrinhos de Millar e teve uma feliz decisão de se manter o mais fiel possível à HQ. Uma HQ, a princípio, já é um storyboard. Se a história tem ritmo, se está bem contada, é só seguir dali e dificilmente erraremos. E Vaughn não errou. A escolha de elenco também foi acertada: Nicholas Cage, o cara que mais quer no mundo ser um super-herói é o próprio Big Daddy. Aaron Johnson como Dave Lizewski/Kick Ass foi outro acerto, apesar da falta de semelhança física com o personagem dos quadrinhos. E o golaço foi Chloë Grace Moretz como Mindy/Hit Girl. A menina, atriz mirim desde criancinha, tinha feito uma ponta bacana em (500) Dias Com Ela ((500) Days of Summer, Marc Webb, 2009) e explodiria depois de “Kick-Ass”, “Deixe-me Entrar” (Let Me In, Matt Reeves, 2010) e “A Invenção de Hugo Cabret” (Hugo, Martin Scorsese, 2011). A menina é extremamente talentosa e vai tomar conta de Hollywood nos próximos anos, mas foi com 13 anos que ela se tornou a Hit Girl e praticamente roubou o filme. A trama corre leve, os personagens nos cativam. Torcemos por eles, ficamos felizes com suas vitórias e apreensivos com seus problemas. Enfim, “Kick-Ass – Quebrando Tudo” (Ah, o infame “subtítulo” brasileiro…) é um filme divertidíssimo e que acerta o tom de filme de quadrinhos. Então, querido leitor, você se pergunta: “Por que o título da coluna é ‘que pena’, afinal?”.

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Pois é. Tudo isso para chegar em “Kick-Ass 2” (Jeff Wadlow, 2013). Vaughn deixou a direção e assumiu o cargo de produtor, nomeando Jeff Wadlow como diretor. Wadlow antes de “Kick-Ass 2” havia dirigido apenas dois filmes, nenhum deles digno de grande atenção. Além da direção Wadlow também foi o responsável por adaptar o roteiro, mais uma vez a partir da obra de Millar, que já publicou “Kick-Ass 2” faz algum tempo. Fazer “Kick-Ass 2”, na verdade, era uma das coisas mais fáceis dos últimos tempos: era só repetir o que Vaughn havia feito e transpor os quadrinhos de Millar para a telona. Simples, né? Pois então, Wadlow conseguiu estragar tudo.

O roteiro de “Kick-Ass 2” vai do nada ao lugar algum. Pior do que isso, ele tira dos personagens justamente aquelas características que nos faziam simpatizar por eles. A maior das transformações de Wadlow foi a mudança no tom da relação entre Dave/Kick-Ass e Mindy/Hit Girl. Absolutamente desnecessário, a não ser para dar a Grace Moretz uma participação maior. Dave tinha, do outro filme, uma relação bem forte com Katie Deauxma, que Wadlow trata de tornar absolutamente sem importância acabando com ela em uma única cena. Uma das subtramas da HQ, o drama de Mindy enfrentando as patricinhas no Colégio, é resolvido de forma abrupta e ridícula, descaracterizando a personagem. A jornada de Chris D’Amico para se tornar o Mother Fucker, antagonista do filme, também é simplificada ao extremo e perde boa parte das sacadas bacanas da HQ. A formação da superequipe “Justice Forever” também acaba ficando forçada. O envolvimento de Kick-Ass com Night Bitch também é completamente injustificado, a não ser para tentar justificar certo ciúmes por parte de Hit Girl. Salva-se o Coronel Estrelas e Listras, vivido por Jim Carrey que sabe ser genial quando quer.

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O humor sarcástico sumiu. Ficaram meia dúzia de piadinhas. A violência foi aliviada, claramente com a intenção de diminuir a recomendação de faixa etária e aumentar o público. A recomendação “16” já é alta, mas se subisse para “18” certamente o filme teria muito menos público, apesar de poder ficar melhor. Enfim, Wadlow erra a mão e nos entrega um filme que não tem a diversão e o envolvimento do primeiro. Voltando ao meu título, portanto: que pena. Que pena.

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