Gravidade

por Pedro Cunha

Existem filmes que são sensacionais em função de um ator. Quem já assistiu “K-Pax: O Caminho da Luz” (K-PAX, Iain Softley, 2001), sabe do que eu estou falando: o filme é maravilhoso única e exclusivamente em função do que Kevin Spacey faz. Outros filmes marcam em função de um roteiro. “O Poderoso Chefão” (The Godfather, Francis Ford Coppola, 1972), com adaptação de Coppola para o livro de Mario Puzo, tem uma trama que nos envolve e faz querermos saber o que vai acontecer, independente do sensacional elenco. E existe um terceiro tipo de filme: aqueles onde nem o elenco e nem o roteiro são tão sensacionais assim, mas a mão do diretor faz a diferença. É nessa categoria que podemos colocar “Gravidade” (Gravity, Alfonso Cuarón, 2013).

O mexicano Alfonso Cuarón é bom diretor, e disso não se duvida. Tinha 40 anos quando ficou conhecido em função de “E Sua Mãe Também” (Y Tu Mamá Tambien, 2001), um interessante road movie que se passa no México e trata de temas como vida, amizade e sexo. Em 2004 Cuarón dirigiu o terceiro filme da série Harry Potter, “Harry Potter e o Prisioneiro de Azkaban” (Harry Potter and The Prisioner of Azkaban), sendo o responsável por uma mudança de rota do tom mais infantil dos dois primeiros filmes, ditado pelo diretor Chris Columbus, para uma batida bem mais sombria. Os fãs da série Harry Potter gostaram tanto do trabalho do mexicano que incomodaram muito os produtores para que Cuarón assumisse os filmes restantes do bruxinho (que foram dirigidos por Mike Newell (“O Cálice de Fogo”, 2005) e David Yates (“A Ordem da Fênix”, 2007; “O Enigma do Príncipe”, 2009, “As Relíquias da Morte Parte 1”, 2010; e  “As Relíquias da Morte Parte 2”, 2011). Cuarón abraçou a ficção científica no ótimo “Filhos da Esperança” (Children of Men, 2006), no qual a humanidade luta para sobreviver num futuro distópico. O filme não foi um grande sucesso de bilheteria, mas teve críticas bastante positivas.

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Buzz Lightyear, quer dizer, George Clooney, muito correto no papel de “velho caubói espacial” 

“Gravidade” é um atestado de maioridade de Cuarón como diretor. Numa superprodução de orçamento de nove dígitos estrelada por Sandra Bullock (a queridinha da América) e George Clooney (o queridão da América) e cheia de efeitos visuais a mão do diretor poderia desaparecer. Poderia não haver diretor. Ou pior, o diretor poderia ser Michael Bay ou Roland Emmerich. E ainda assim “Gravidade” ia faturar milhões e milhões de dólares. Mas o filme consegue transcender, um pouco, sua dimensão Bullock-Blockbuster-Clooney. O roteiro (de Cuarón e de seu filho, Jonas) é linear e, a princípio, não oferece grandes surpresas. O filme destaca-se pela maneira como o mexicano decidiu conduzir a trama. Tenso do início ao fim, é daqueles filmes que nos fazem sair do cinema com o pescoço doendo. Há referências e homenagens lógicas a “2001: Uma Odisseia no Espaço”(2001: A Space Odissey, 1968), em especial no início do filme.  Os giros dos personagens e das máquinas no espaço lembram muito o balé espacial de Stanley Kubrick. Os ângulos de câmera escolhidos pelo diretor nos jogam para dentro da tela e por vezes conseguimos enxergar o reflexo dos capacetes, como se estivéssemos dentro deles, em órbita, com Clooney e Bullock. Os dois, aliás, estão muito bem. É quase impossível ouvir o vozeirão de George Clooney e olhar para aquela covinha no queixo e não lembrar do maior astronauta da história do cinema (que é, obviamente, Buzz Lightyear), mas o personagem dele é exatamente aquilo que deveria ser: o velho astronauta terminando uma carreira e tentando minimizar, desde já, a falta que ele sabe que vai sentir da imensidão do cosmo. Um homem solitário cheio de histórias de festas mas sem nenhuma grande ligação pessoal e que tem como meta de vida bater um recorde para o qual o resto do mundo não dá muita importância. Uma vida vazia que, em seu final, ganha uma motivação extra: usar todas as suas forças para salvar a vida de Ryan Stone, a personagem de Sandra Bullock. A atriz não consegue, como em toda a sua carreira, ser mais do que esforçada. Ainda assim ela se sai bem no papel de protagonista e deve, provavelmente, ser indicada ao Oscar, mesmo que só pela cena da conversa com o radioamador Aningaaq.

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Um dos cartazes que passa a sensação de agonia que temos tantas vezes durante o filme 

Cuarón fez de “Gravidade” um filme que consegue ser tenso e bonito ao mesmo tempo. Há uma quantidade bastante grande de conteúdos simbólicos. A solidão do vácuo espacial é quase uma metáfora perto da solidão existencial pela qual passa a protagonista do filme. Após o acidente que encerra a primeira parte do filme a personagem de Bullock fica, por alguns instantes, perdida no espaço. O diretor consegue passar, em silêncio, a ideia de solidão e do pânico de perder-se na vastidão. A escolha, aliás, do silêncio para as cenas espaciais foi ousada e merece ser aplaudida, já que vivemos em tempos onde tudo precisa ser minimamente explicado para uma audiência com uma preguiça mental cada vez maior. Quando entra na Estação Espacial Internacional, quase sufocando, a Dra Ryan se dá conta, talvez pela primeira vez em muito tempo, de que quer viver. A sua luta pela vida é retratada por Cuarón quase que como um parto ao contrário: a luta para se livrar do traje espacial termina com a doutora flutuando em posição fetal, com direito inclusive a um cordão umbilical. A Dra Ryan Stone acabara de nascer de novo. A história de “Gravidade” passa a ser uma história de luta irracional pela sobrevivência: nas condições mais absurdas a Dra Ryan renasceu e ganhou uma segunda chance. Ela TEM que viver, mesmo que não consiga entender o PORQUÊ de ter que viver. A jornada de Ryan Stone em busca do sentido da existência tem seus momentos de dúvida, mas a solução deles vem no terceiro ato do filme, num pequeno deslize piegas da história, que retoma depois seu ritmo.

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Sandra Bullock simbolicamente renascendo, depois de passar pela quase morte: daí para frente foram dois desafios: viver e encontrar um sentido para a vida 

Cuarón conta essa história de busca de significância para a vida de uma maneira eletrizante. “Gravidade” não deixa de ser um thriller de ficção científica, e consegue sê-lo sem etezinhos verdes, sem monstros e sem espaçonaves de outros lugares. É um drama pessoal com tensão a cada momento e com um visual deslumbrante. Se você tiver a chance, não deixe de assistir “Gravidade” em alguma sala IMAX. O filme foi todo rodado em IMAX e feito para ser percebido em IMAX e em 3D. Claro que o filme não é “fisicamente perfeito”, mas há um esforço do diretor para torná-lo absolutamente crível. Impossível não citar, mais uma vez, “2001: Uma Odisseia no Espaço”, de Stanley Kubrick. Confesso que fiquei com uma pontinha de curiosidade para saber como seria o filme se o velho Kubrick tivesse, lá em 1968, a tecnologia cinematográfica que temos hoje em dia. “Gravidade”, além de um lindo filme, é uma bela homenagem a Stanley e sua obra-prima. Veja. Necessariamente em 3D, de preferência em IMAX.

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