Pequena lista de paradoxos de uma certa bruxa boa do Sul

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imagem: Ana Nitzan

por Clarice Casado

Eu não saio do carro antes que a música que estiver tocando termine. Pode estar caindo o mundo, mas considero qualquer interrupção da melodia um imenso desrespeito com o momento.

Nunca bebo meu café até o final: deixo sempre um restinho. Bebo, porém, várias doses de vodca ou tequila até que me inspirem a escrever alguma coisa que preste.

Sempre coloco o volume da TV, do rádio ou do som num número par. Neurose inexplicável, como a maior parte das neuroses.

Roubo beijos dos meus filhos quando estão dormindo. Afinal, não sei até quando terei este privilégio.

Falo sozinha, sempre que posso. Conversas infinitas e complexas, na maioria das vezes.

Escrevo poemas nos lugares e momentos mais estranhos, porque inspiração é inesperada e indiscreta, sempre.

Admiro enormemente as pessoas, conversas, situações, músicas, textos, filmes e lugares que me inspiram, mas guardo essa admiração só pra mim.

Me acho meio bruxa, porque tenho um sexto sentido que às vezes me mete medo. Uma bruxa boa, porém: no melhor estilo “O Mágico de Oz”.

Levanto pesos super pesados com a mesma paixão com a qual escrevo poemas, por mais paradoxal que isto possa parecer.

Detesto chimarrão, mas tenho um amor pela minha pátria rio-grandense que não cabe em um só coração. Infelizmente, este é o único que tenho.

Começo a ler revistas e jornais sempre pelo final, porque a ordem natural das coisas me chateia.

Amo comer, mas odeio cozinhar. Provo de tudo e não tolero preconceitos gastronômicos.

Adoro ouvir comentários elogiosos aos meus escritos. Considero-os como carinhos na alma.

Uso roupas novas no mesmo dia em que as compro, pois penso que o amanhã é teoricamente improvável.

Tenho medo de insetos tanto quanto da morte. A diferença é que dizem que a morte nos leva para um lugar melhor, enquanto os insetos apenas me deixam mais louca do que normalmente sou.

Leio quatro ou cinco livros ao mesmo tempo, e só termino os que de fato me furtam o coração. Nada mais insuportável que a auto-obrigação literária.

Sou extremamente organizada com meu trabalho e excessivamente preocupada com minha aparência, mas minha mente é um caos absoluto que só se acalma quando me ponho a escrever.

Não sou muito curiosa. Mas me satisfaço discretamente com a curiosidade alheia. Nada mais saudável.

Tenho em mim diversas forças que não se opõem, mas se contrapõem, numa dança insana que me tira constantemente do sério.

Temo tudo que sai minimamente da minha rotina e do meu controle, porém me deleito com todas as pequenas surpresas que a vida me oferece.

Sou escrava das minhas próprias regras e teorias, mas adoro discuti-las com quem se mostra interessado em ouvi-las.

Quando me apaixono por um poema ou por uma música, o leio ou a escuto até minha mente ficar bêbada de ideias. Gosto de colher os frutos depois.

Sou capaz de dizer um milhão de coisas, mesmo sem dizer nada. Basta saber me ler.

Morro de medo que descubram que sou tímida, super tímida, mesmo sendo capaz de me mostrar assim, tão completamente, sob os olhos de um poema.

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