O Tempo e o Vento

por Pedro Cunha

Em 1993 eu tinha 15 anos e estava ingressando no Ensino Médio (na época a gente ainda chamava de Segundo Grau…). Era um momento de muitas mudanças, ainda mais para mim que estava também trocando de escola. Uma das novidades que o Ensino Médio apresenta para os estudantes são as aulas de Literatura. Lia-se, no Fundamental, mas era na aula de Português. Literatura mesmo, só no Ensino Médio. E dentre as felicidades que eu tive nessa vida, uma delas foi ter uma sensacional professora de Literatura. A professora Hilda, que recitava os poemas enquanto olhava para o teto da sala, colocava emoção em cada aula e quando descrevia um livro parecia descrever um prato de comida, me deixando sempre com água na boca e morrendo de vontade. A professora Hilda pediu como primeira leitura obrigatória do ano “O Continente”, de Erico Verissimo. Quando eu tinha 15 anos, caro leitor, não existia a internet (e sequer a TV a cabo, pelo menos na minha casa) e tínhamos tempo, muito tempo. Eu devorei O Continente. Pedro Missioneiro, Ana Terra, Capitão Rodrigo, Luzia Cambará, Dr Carl Winter, Bibiana Terra-Cambará… todos esses personagens tornaram-se figuras vivas para mim. Sem obrigatoriedade nenhuma, segui na leitura e encarei “O Retrato” e “O Arquipélago”, a sequência de O Tempo e o Vento. E segui me emocionando com Toríbio, Licurgo, Maria Valéria, Doutor Rodrigo, Floriano e os outros personagens de Erico, que fizeram o meu 1993 um ano de conhecer melhor a história do Rio Grande do Sul.

E eu contei tudo isso para quê? Calma, eu não esqueci que esse espaço é sobre cinema…  Eu escrevi tudo isso para que vocês soubessem o tamanho do respeito e do carinho que eu tenho por essa obra. Quando foi anunciada a adaptação para o cinema de “O Tempo e o Vento” eu fiquei cético. E fiquei cético já de início porque “O Tempo e o Vento” não cabe num filme. Sequer, acho, “O Continente” cabe num filme. Meu ceticismo aumentou quando Jayme Monjardim foi anunciado como diretor do longa. Monjardim é diretor de um único filme (Olga, 2004) e de diversas novelas (destacando-se Terra Nostra e Pantanal) e séries (Chiquinha Gonzaga, A Casa das Sete Mulheres, Maysa…) para a TV. Quando Monjardim apareceu para o mundo, em 1990, Pantanal chocou pelas belas e longas tomadas da natureza, usando-a como elemento narrativo, muito além de uma moldura. A “preguiça” da câmera tornou-se uma marca registrada do diretor, assim como a habilidade de transformar toda e qualquer história em um melodrama de amor. Olga Benário que o diga, enfim.

tempo-e-o-vento-01
Monjardim usa e abusa de tomadas abertas onde a natureza é maior do que as pessoas. Enfim, é lindo. 

O que eu posso dizer sobre o filme? Bom, que ele não me surpreendeu. O filme é belíssimo. Monjardim usou e abusou das paisagens do pampa gaúcho para embelezar seu filme. Usar a tomada bem aberta com a natureza em primeiro plano e os personagens pequenininhos, ao fundo, é recurso que o diretor usa em vários momentos do filme. Visualmente o filme é um espetáculo, lindíssimo de se ver. Não só pela escolha das locações mas também pela produção caprichadíssima, começando pelas roupas e indo até a reconstrução de Santa Fé exatamente como descrita nos livros de Erico Verissimo. Destaque-se ainda algumas escolhas felizes para o elenco. Thiago Lacerda é a melhor delas. Seu Capitão Rodrigo é claramente inspirado no de Tarcísio Meira (que fez o papel na série de TV em 1985), mas consegue ser ainda melhor que o dele. Sorrindo e debochando o tempo inteiro, Rodrigo Cambará nos cativa e ganha o filme. A cena do duelo de adagas com Bento Amaral (onde ficou faltando “a perninha do érre!”) é a síntese do personagem: correndo perigo de vida ele não deixa de estar sorrindo o tempo todo. É muito difícil não gostar de Rodrigo Cambará e Thiago Lacerda colabora para isso, definitivamente. Um pouco abaixo dele Cléo Pires como Ana Terra, uma personagem introspectiva e difícil, também foi muito bem. Se o personagem de Lacerda lembra o da série de 1985 é impossível não dizer o mesmo de Ana Terra, que em 1985 foi interpretada por Glória Pires, com quem Cléo está cada vez mais parecida. Quem dispensa comentários, sempre, é Fernanda Montenegro. O recurso de usar a sua Bibiana já idosa como fio condutor da trama foi muito esperto por parte do diretor. Os diálogos dela com o falecido Capitão Rodrigo, uma liberdade poética, poderia ter sido mais utilizado para costurar melhor o filme.

Tempo e o Vento 02.jpg
Tarcisio Meira e Thiago Lacerda como Capitão Rodrigo: gostei mais do segundo 

Tempo e o Vento 03.jpg
Cleo Pires e Glória Pires como Ana Terra

Se falamos no que o filme tem de bom… é inevitável conversar sobre o que ele tem de ruim. A escolha de Monjardim por um tom melodramático e romântico para uma história que é épica e pede para ser épica diminui muito do que o filme poderia ser. Ele se torna um filme de história(s) de amor. Ana Terra e Pedro Missioneiro, num primeiro ato, Bibiana e Capitão Rodrigo, no segundo (e melhor). Eu sou um defensor de que adaptações cinematográficas não devem nada para suas versões literárias e que podem (e devem) fazer modificações na trama para que ela fique melhor na linguagem do cinema, que é diferente da linguagem literária. A questão é que Monjardim e seus roteiristas (Letícia Wierzchowschi e Tabajara Ruas) ficaram no meio do caminho. Limaram quase que completamente “A Fonte”, o capítulo sobre os Sete Povos e que explica o personagem Pedro Missioneiro, e atropelaram “A Teiniaguá” com um desnecessário resumo de 5 minutos de uma das melhores tramas do livro. Se era para contar daquele jeito, não precisava, esse é o meu ponto. Além disso o filme se fez refém de uma história que é clássica e cheia de passagens conhecidas. A narrativa é que sofreu: alguém que não tenha lido O Continente terá uma dificuldade grande para encontrar o fio da meada, já que o que temos não é uma história propriamente dita mas quase um videoclipe com as melhores e mais clássicas cenas do livro, mas sem o “liame”, sem o elo de ligação entre elas. A exclamação “Rosa Mística” de Pedro Missioneiro, assim como o “muy lindo”, tem uma explicação na história, que não foi abordada no filme, o que deixa as frases do personagem soltas no espaço, sem sentido nenhum. A ideia de usar “O Sobrado” como elo de ligação entre as várias partes do filme, como faz Erico no livro, foi mal aproveitada. Se tivéssemos um pouco mais de “O Sobrado” durante o filme poderíamos ter uma linha mestra mais sólida (sem contar que poderíamos ter mais Maria Valéria, sua te(n)são com Licurgo, a pequena Aurora enterrada na caixa de marmelada…). Fico quase com pena de criticar, também, Marjorie Estiano, como a jovem Bibiana. O roteiro comeu toda e qualquer representatividade que seu personagem pudesse ter, tirando inclusive a maioria de suas falas. A Bibiana jovem é boba, a Bibiana idosa é quase senil. Perdemos, assim, uma das melhores personagens da trama, já que a parte em que a Bibiana adulta toma as rédeas da família foi transformada num resuminho de 5 minutos.

Tempo e o Vento 04.jpg
Bento Amaral (Leonardo Medeiros) e o Capitão Rodrigo (Thiago Lacerda) duelam por Bibiana

                “O Tempo e o Vento”, portanto, tem problemas. Mas ainda assim é um filme lindo. Tem um primor visual e um capricho como pouco se vê no cinema nacional. Monjardim continua sendo muito bom em lidar com a natureza e integrá-la à sua obra. Sem sombra de dúvida que é um entretenimento bacana, mas tem esses problemas dos quais falei. Se não consegui me apaixonar pelo filme é porque sei que essa história é muito, mas muito maior do que o que o Monjardim conseguiu colocar nas telas. Culpa, no fim das contas, da Professora Hilda. Beijo grande, professora, e obrigado por abrir esse (e tantos outros) mundo(s) para mim.

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s