Quando um aborto completa 20 anos

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por Cassiano Rodka

Era 1993 e a maior banda do mundo estava preparada para gravar seu novo álbum. A expectativa em torno do sucessor de “Nevermind” era enorme então, para fugir de qualquer pressão, o Nirvana se trancou em um estúdio com o produtor Steve Albini e deu à luz uma obra prima que nomearam “In Utero”.

Rejeitando a atenção exacerbada em torno de sua pessoa e sua música, Kurt Cobain decidiu fazer um álbum mais cru e experimental, mas ao mesmo tempo doce e aconchegante. Um álbum sobre vida e morte, segundo ele, e sobre encarar uma vida saudável com sua família versus uma vida enfrentando doenças e vícios.

“In Utero” foi um disco polêmico antes mesmo de seu lançamento, pois corriam boatos de que a gravadora havia detestado o álbum e não queria lançá-lo. De fato, o produtor Scott Litt foi chamado para dar uma polida na produção suja de Steve Albini. Mas, no fim, poucas mudanças foram feitas, sendo as mais significativas nas músicas “Heart-Shaped Box” e “All Apologies”, que seriam singles. A produção conseguiu captar bem o caos de um show do Nirvana e as nuances ora sombrias, ora oníricas das composições de Cobain.

Eu lembro perfeitamente do dia em que comprei o CD e o coloquei para escutar em meu quarto pela primeira vez. Eu estava ansioso para ouvir as músicas que a mente de Kurt Cobain tinha gestado como uma resposta ao sucesso de “Nevermind” – pois é isso que esse disco seria. Ao soar o primeiro acorde dissonante que introduz o álbum, eu já tinha certeza de que aquela seria uma audição peculiar. Mas o monstruoso acorde parecia servir mais como um susto no ouvinte, pois em seguida entrava o riff melodioso, porém pesado de “Serve the Servants” com a melhor frase possível para dar início àquela nova fase do Nirvana: “Teenage angst has paid off well, now I’m bored and old” (A rebeldia juvenil me pagou bem, mas agora estou velho e de saco cheio).

Em “In Utero”, Kurt Cobain é o maestro do caos. Ele coordena uma sinfonia de guitarras e berros costurados por belas melodias e riffs mau humorados. Uma coleção de hits abortados e solos concebidos pela metade. Um aborto que se recusou a morrer, o filme B do Nirvana.

As músicas pesadas são barulhentas e experimentais, como a gritaria de “Scentless Apprentice”, os efeitos estonteantes de “Radio Friendly Unit Shifter” e o solo pra lá de “vai assim mesmo” de “Milk It”. O lado mais melodioso do Nirvana surge em faixas como o single “Heart-Shaped Box” e as baladas “Dumb” e “All Apologies”, que contam até com um cello. A faixa que mais se aproxima da sonoridade de “Nevermind” é “Rape Me”. Construída com os mesmos acordes de “Smells Like Teen Spirit” reordenados e em outro tom, a música foi anunciada pelo compositor como uma canção antiestupro. Mas a letra soa como se o próprio cantor estivesse sentindo-se estuprado pela mídia e pela exacerbada intromissão em sua vida pessoal.

O disco é também a despedida de Kurt Cobain, com um grande dedo médio em riste. Doença, maldade, machismo, tristeza, inadequação, sucesso, casamento, paternidade… Tudo isso desfila pela visão de mundo que Cobain nos apresenta até ele nos deixar de vez ao som do mantra final de “In Utero”: “All in all is all we all are” (No fim das contas, é tudo que nós todos somos).

Celebrando os 20 anos do álbum, uma edição deluxe com três CDs e um DVD foi lançada neste mês de outubro. O primeiro CD conta com uma versão remasterizada de “In Utero”, além de outras músicas gravadas na época: a viajante faixa bônus “Gallons of Rubbing Alcohol Flow Through the Strip”, os excelentes lados B de single “Marigold” (composta e cantada pelo baterista Dave Grohl) e “Moist Vagina”, a faixa secreta gravada para a coletânea “No Alternative” conhecida como “Sappy” (uma das melhores do Nirvana, certo?) e a música incluída na trilha do filme do Beavis and Butt-head, “I Hate Myself and Want to Die”. Alguns lados B ganharam novas mixagens, que funcionaram mais como remasterizações do que novas versões, o que é ótimo, pois ainda soam como as músicas que conhecemos, apenas ganharam uma verniz.

Fechando o CD, três versões alternativas de faixas do “In Utero”: a boa mixagem radiofônica do single póstumo de “Pennyroyal Tea” feita por Scott Litt, e as duas mixagens originais de “Heart-Shaped Box” e “All Apologies” feitas por Steve Albini, mais cruas e sem backing vocals ou efeitos de voz.

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O segundo CD é definitivamente o mais esquisito dessa edição deluxe. As 12 primeiras faixas são uma nova mixagem do disco, chamada de “2013 Mix”. Basicamente, as músicas apresentam o vocal mais alto, as guitarras mais claras e perde-se um bocado da dinâmica. Ou seja, bem estilo 2000, mixagem para ser ouvida no carro ou nos iPods.

Em “Serve the Servants”, o que mais chama atenção é a curiosa opção de dar destaque à segunda guitarra durante o solo, ou seja, a guitarra que na canção original faz um “backing solo” está mais em evidência que a outra.

Já “Scentless Apprentice”, “Radio Friendly Unit Shifter” e “Milk It” acabam perdendo muito pela mixagem clara, pois são faixas pesadas e caóticas, portanto tornaram-se mais barulhentas, mas no mal sentido. Elas perderam o caráter “ao vivo” e ficaram com total cara “de estúdio”.

Em “Heart-Shaped Box”, os backing vocals aparecem bem mais destacados e o refrão está bem limpo, tornando esse mix o mais pop de longe. Eu tenho a nítida impressão que o Kurt Cobain odiaria essa mixagem.

“Rape Me” inicia sem a contagem na guitarra e tem a bateria mais presente. A guitarra dos versos está bem mais alta, perdendo significativamente a dinâmica.

“Frances Farmer Will Have Her Revenge on Seattle”, surpreendentemente, ganha uma boa dinâmica entre as partes pesadas e calmas. O único erro parece ser a bateria exageradamente alta na parte do “solo”, mas, no geral, essa é uma das melhores novas mixagens.

“Dumb” aparece demasiadamente limpa e sem o cello nos versos, o que não faz a música ganhar em nada.

“Very Ape” surge com mais destaque nas guitarras solo do que nos acordes, em uma versão mais barulhenta que a original, mas menos pesada.

“Pennyroyal Tea” ficou parecida com a mixagem feita por Scott Litt para o single da música, mas perdeu ainda mais a dinâmica.

“tourette’s” parece ser a única faixa que não teve o volume do vocal aumentado, talvez por conter uma letra inventada na hora no maior estilo embromation. Bom pra ela.

Em “All Apologies”, eu realmente não entendi o que tentaram fazer. A guitarra principal aparece bem baixa em contraponto à bateria alta. O vocal exageradamente alto fica descolado da canção, chegando a soar como se Cobain estivesse em um karaokê. Ficou limpo e entediante, possivelmente o pior mix da coleção.

As faixas que seguem são demos do disco, que são interessantes mais pela curiosidade de escutar as canções em processo de criação do que pela qualidade em si. “Scentless Apprentice” e “All Apologies” são as duas mais “concluídas” e as únicas a possuir vocal, ainda que letras incompletas. Cinco outras faixas aparecem sem vocais: “Frances Farmer Will Have Her Revenge on Seattle”, “Dumb”, “Very Ape”, “Radio Friendly Unit Shifter” e “tourette’s”.

A grande curiosidade aqui é a canção “Forgotten Tune”, uma música em processo de criação que acabou não sendo concluída e ficou de fora do álbum. Mas, tanto ela quanto a última faixa, “Jam”, acabam sendo apenas curiosidades da época e não exatamente novas músicas.

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O terceiro CD, bem como o DVD, trazem um show gravado para a MTV na época do lançamento do disco. Pela primeira vez apresentado com todas as músicas tocadas, “Live and Loud” é um show bacana, mas com uma certa falta de pique por estar sendo gravado para a TV. Nisso, o CD acaba ganhando vantagem, pois as falas e os momentos de lenga-lenga entre as músicas foram cortados. De qualquer forma, o setlist é muito bom, passando por todas as fases da banda e uma apresentação do Nirvana é sempre digna de atenção.

All in all, a versão deluxe de “In Utero” é uma curiosa jornada pela criação de uma das obras primas mais subversivas da história do rock.

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