O Grande Gatsby

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por Pedro Cunha

Scott Fitzgerald disputa com Ernest Hemingway o título de maior escritor americano do século XX (que me perdoem os fãs de Sidney Sheldon ou Stephen King…). Tanto o primeiro quanto o segundo já tiveram ótimas adaptações de suas obras para o cinema: a animação de Aleksandr Petrov de 1999 para “O Velho e o Mar”, de Hemingway, é lindíssima, enquanto “O Curioso Caso de Benjamin Button”, de Fitzgerald, foi transformado num lindo filme por David Fincher em 2008 que fez justiça ao conto que foi originalmente publicado em “Histórias da Era do Jazz”.

“O Grande Gatsby”,  romance mais conhecido de Fitzgerald, é considerado o retrato de uma época nos EUA. Foi adaptado para o cinema mais de uma vez, sendo a primeira em 1926, por Herbert Brenon. A versão de 1974, dirigida por Jack Clayton, era considerada por muitos como definitiva. Com um roteiro de Francis Ford Coppola e atuações dos jovens promissores Robert Redford e Mia Farrow nos papeis centrais, o filme ganhou dois Oscars (Melhor Figurino e Melhor Trilha Sonora Original). Há boatos que o próprio Coppola não gostava muito das mexidas que deram no seu roteiro, mas o fato é que essa versão foi, durante muito tempo, o “Gatsby” do cinema.

Quando Baz Luhrmann anunciou estar a frente do projeto de fazer o Gatsby do século XXI, muita gente já sabia o que esperar. Os pais do diretor australiano eram competidores de dança de salão e ele cresceu no meio da música, dos paetês e do exagero, universo que não cansa de colocar em seus longas. Numa estreia ousada Luhrmann adaptou uma das histórias mais contadas da história do cinema, o drama de amor do casal jovem do bardo bretão. “Romeo + Julieta” (1996) ganhou elogios de público e crítica e ajudou a catapultar um jovem ator de Hollywood ao posto de galã: ninguém menos que Leonardo DiCaprio, com quem ele se reencontraria em “O Grande Gatsby” (2013). A adaptação de Luhrmann foi ousada e conservadora: ousada na montagem, na trilha sonora, na edição, no figurino. Conservadora onde deveria: no texto, mantido 100% fiel a Shakespeare. O resultado foi um filme que manteve a profundidade da peça original renovando a força de uma história que se provou, uma vez mais, universal. Os cortes rápidos, as cores berrantes saturadas e a linguagem de videoclip não destoaram de um texto do século XVI, mas sim chamaram a atenção para ele e apresentando um texto e um autor clássicos a uma nova geração.

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Um jovem Leo DiCaprio foi Romeu e começou a tornar-se galã 

“Moulin Rouge: Amor em Vermelho” (Moulin Rouge!, 2001), o próximo longa do diretor, manteve a fórmula. Um conto de amor na Paris da belle époque estrelado por Nicole Kidman, que era talvez a maior estrela do cinema hollywoodiano naquele momento. O ótimo Ewan McGregor fez o par romântico com ela e ambos cantaram em uma série de números musicais que revisitam canções pops das décadas de 80 e 90. O resultado foi, mais uma vez, aclamado pelo público.

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O kitsch, o burlesco e até o carnaval são referências das quais Luhrmann abusou em Moulin Rouge 

Kidman volta a trabalhar com Luhrman em 2008, juntamente com Hugh Jackman, no ambicioso “Australia”, que apesar de ter custado 78 milhões de dólares e arrecadado 211 milhões, foi considerado um fracasso de público e achincalhado pela crítica.

“O Grande Gatsby” (2013) é o quinto longa do diretor (o primeiro foi “Vem Dançar Comigo!” (Strictly Ballroom, 1992), que fala – supresa! – sobre dança de salão) e não desapontou os fãs do australiano. Todos os elementos que caracterizam o trabalho de Luhrmann estão lá: a música pop, as coreografias, as corres berrantes, os cortes rápidos, a linguagem de videoclip e as muitas referências de apelo visual. A curiosidade era se isso tudo casaria com uma obra de Fitzgerald sobre os EUA nos anos 1920. E casou. Como já havia casado com um texto de Shakespeare do século XVI, enfim. A narrativa é rápida mas não se perde. Há um fio condutor, que é o eficiente Tobey Maguire fazendo o papel de Nick Carraway, o narrador. O fato dele ser um “estranho” naquele mundo que o filme retrata ajuda a situar também o telespectador lá. Carey Mulligan (“Educação” (2009), “Wall Street: O Dinheiro Nunca Dorme” (2010), “Drive” (2011) ) é uma das novas caras queridinhas (e promissoras) de Hollywood e tem a responsabilidade de encarnar Daisy, papel que foi de Mia Farrow no filme dos anos 70. Foi uma escolha acertadíssima de Luhrmann para um papel que é denso e tem de parecer, na maior parte do filme, leve. Falando em acertos do diretor, mais um foi demorar a mostrar o protagonista do filme, Jay Gatsby. Mesmo antes de aparecer Gatsby é o centro do filme, sendo o assunto do qual todos os personagens falam e sobre o qual especulam. Leonardo DiCaprio é um dos maiores atores de sua geração e quem foi ao cinema inevitavelmente já sabia que ele era Gatsby, mas ainda assim há uma aura de mistério e espectativa em torno da chegada dele em cena. Luhrmann entrega o que promete nesse sentido, fazendo com que a entrada de Gatsby em cena seja apoteótica, como também as festas na mansão do milionário. Sobre as festas, aliás, ali o diretor se esbaldou: as famosas festas de Gatsby foram onde as tendências do australiano ao exagero visual foram bem aproveitadas.

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Carey Mulligan, lindinha e talentosa 

O contraponto visual que o filme estabelece entre o lindo e claro mundo dos novos-ricos de Long Island e o escuro e fumacento mundo dos miseráveis é caricaturalmente exagerado, o que não é um problema, já que encaixa-se na proposta visual exagerada do filme. Falando em exageros, uma das marcas registradas de Luhrmann, como eu já disse, eles aparecem em muitos momentos. As coreografias que envolvem serviçais e até cortinas nas mansões dos ricos-muito-ricos, os tocadores de jazz que estão (ou não estão?) em janelas pelo caminho, a ação ritmada dos mineradores de carvão na parte pobre do mundo (por onde os ricos só passam de carro, quando deixam seu mundo onírico e dirigem-se para Nova Iorque, a cidade “de verdade”) são elementos visuais que ajudam a dar ao filme todo um ar fabulesco sem que a história perca sua força ou sua credibilidade.

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A parte pobre do mundo é cinza e escura em contraponto às famosas festas na mansão de Gatsby em Long Island…
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… onde você encontra, se procurar com atenção, até uma ZEBRA NA PISCINA!!! 

“O Grande Gatsby” fecha o que eu considero uma trilogia de Luhrmann sobre amor, pureza e corrupção. Em “Romeu + Julieta” os dois jovens tinham um amor puríssimo. A corrupção aparece nas famílias de ambos, que não conseguem realizar aquele amor sem passar por cima dos problemas familiares, levando à fatídica conclusão. Em “Moulin Rouge: Amor em Vermelho” o amor do personagem de McGregor é suficientemente puro para sensibilizar Satine, mas ainda assim ela paga pela própria corrupção. Já Gatsby é um personagem que se corrompe em todos os aspectos, menos o amor. O seu amor é puro, e é em nome dele que o personagem se corrompe. O resultado não podia ser outro: a corrupção não é perdoada, como não o é em nenhum dos filmes do diretor. A pureza do amor (e não vou falar sobre Daisy e seu amor para não incorrer em spoiler) nunca é suficiente para a felicidade dos personagens, bem pelo contrário: acaba levando-os sempre ao mesmo resultado.

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Referência constante durante o filme, os “olhos que tudo veem” são a nossa própria consciência, que é testemunha de todos os nossos pecados

O filme de Luhrmann é um encanto visual enquanto a trilha sonora, deixada ao encargo de Jay Z, é vibrante, atual e encaixa-se com o sonho feérico que Luhrmann tenta nos mostrar ao recontar a triste história do pobre menino rico Jay Gatsby.

Deixe-se você também seduzir pelo Grande Gatsby…

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