Minha mãe em mim

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imagem: Cassiano Rodka

por Clarice Casado

Que minha mãe habita em mim, eu já sabia. Se fosse diferente, eu não seria eu mesma. Hoje, porém, olhei-me no espelho, um olhar bem olhado, daqueles demorados, e em meus olhos e em meu semblante quem eu vi foi muito ela, escrita, igualzinha a quando ela tinha exatamente a minha idade… Foi uma sensação muito estranha, mas extremamente confortante. Aqueles olhos azuis dela sempre foram seu resumo mais que perfeito. Eu só não tenho a mesma cor de olhos – os meus são de um “verde azeitona”, como ela mesma sempre descreveu, aliás. E eu amo azeitonas, portanto, achava (e ainda acho) o máximo aquela descrição! Mas independentemente da cor diferente, até meus olhos achei parecidos com os dela hoje, e os olhos, penso eu (e a grande maioria dos poetas!), dizem tudo sobre alguém.

Ah, eu e os espelhos… Sempre gostei deles. Muito. Sobre espelhos, meu Padrinho (o beatlemaníaco, responsável por meu amor pelos Beatles, já falei dele mais de uma vez por aqui) conta uma história engraçada. Estava ele certa vez se olhando no retrovisor do carro (ele também é um grande amigo de seu próprio reflexo!), e me pegou fazendo a mesma coisa, ao mesmo tempo: o detalhe é que eu tinha uns dois ou três anos de idade…! Pequena “Narcisa”, sem vergonha alguma…!

Tenho com os espelhos uma relação de amor e ódio, claro. Há os dias em que quero quebrá-los, os indiscretos, porque ficam querendo me revelar coisas que não quero ver… Os deixo imediatamente (medida sábia nos momentos mais difíceis). Há as vezes, porém, em que eles me recebem amáveis, cheios de sorrisos, me mostrando – também indiscretamente – como é bom ser eu! Estes são, sem dúvidas, os melhores dias da nossa relação, apesar de que os dias ruins também me ensinam um milhão de lições. Ainda bem, já que o amor a si mesmo, apesar de ser maravilhoso, precisa ter seus limites, para que o “si mesmo” saiba como é esquecer-se, às vezes, um pouco de “si”…

“Narcisa”, sim, mas também desastrada por excelência: quebrei dois espelhos na minha adolescência. Dizem que quebrar espelhos é sinal de mau agouro, e que a pessoa que o faz terá sete anos de azar. Pois se eu de fato levasse isso em consideração, teria ficado em “estado de azar” por quatorze anos consecutivos, dos meus dezesseis aos meus trinta anos: é muito azar pra um vivente só…! Não acredito nem em azar, e nem em sorte, aliás: sou uma fiel seguidora da teoria do acaso, e é o acaso que me move a escrever. Que graça teria acreditar que “por sorte” tive uma ideia para uma crônica ou poema? Adoro crer que o acaso, hoje, me levou a me olhar no espelho de um elevador qualquer da cidade, me fez achar que eu estava igualzinha a minha mãe, e que esta simples ideia me levou a escrever esta crônica que neste exato momento termino, leitores! Obrigada pela atenção, mais uma vez.

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