Toda nuvem tem seu contorno prateado

Toda nuvem tem seu contorno prateado_P2.jpg
imagem: Cassiano Rodka

por Clarice Casado

“The world will break your heart ten ways to Sunday, that’s guaranteed.”
(parte do monólogo final do filme “Silver Linings Playbook”)

Hoje vou fazer o que não faço há um tempão: escrever sobre cinema. Ou melhor, sobre um filme. Já pedi licença em outras oportunidades ao Fabiano Liporoni e ao Moisés Westphalen, que foram colunistas de cinema do PáginaDois, e hoje peço a vênia ao Pedro Cunha, que é o responsável pela coluna atualmente.

Pedro, me concede então a “benção” para falar um pouco de “Silver Linings Playbook” (em português, “O Lado Bom da Vida”). Fazia um tempão que eu não via um filme tão tocante e tão diferente. Um filme que mexeu comigo de um jeito diferente. Durante todo o desenrolar do enredo, baseado em um romance de Matthew Quick, eu fiquei na dúvida sobre o que aquela história estava provocando em mim. Eu geralmente faço isso quando assisto a filmes, de modo inconsciente. Desta vez, porém, eu de fato me perguntei o tempo todo o que aquilo tudo queria me dizer.

O filme conta uma história de amor envolta por uma atmosfera densa e indecifrável, de um amor indeciso e improvável; tímido, mas intenso, entre pessoas metalmente atormentadas; um amor que cria raízes aos pouquinhos, e quando se instala, é arrebatador. O enredo causou-me uma interessante sensação de estranhamento, aquela sensação que só boa arte causa, e penso que é exatamente neste sentimento que provoca no espectador que reside a beleza da narrativa dirigida por David O. Russell.

O que primeiramente me chamou a atenção no filme foi o título. De modo geral, escolho livros e filmes pelo título. Os títulos são os olhos dos livros e filmes. Te convidam a entrar, ou não. Quando eu estava na faculdade de Letras, no início dos anos 2000, certa vez uma de minhas professoras da disciplina de Tradução nos passou uma tarefa em que tive que traduzir um texto que trazia a seguinte expressão: “every cloud has a silver lining”. Basicamente, ela significa que toda situação difícil ou triste tem sempre seu lado bom. E é exatamente esse o eixo central desse belíssimo drama: a busca incansável pelo lado positivo dos acontecimentos ruins de nossas vidas. A origem da expressão “every cloud has a silver lining”, lembro-me bem, porque pesquisei, baseia-se em uma imagem: após as tempestades, é comum ver-se raios de luz do sol que surgem por detrás das nuvens, deixando-as com cores bonitas, de prata e ouro. Significa que a tempestade acalmou, o tempo melhorou, a vida segue seu curso. A imagem é linda, a ideia é linda, é pura poesia! A expressão, assim, é também carregada de pura poesia, e só poderia inspirar um bom artista. Inspirou Matthew Quick, e inspirou David O.Russell, e, bem, inspirou esta modesta escritora que ora vos fala…!

A sensível narrativa fala das famosas “segundas chances”, das possibilidades boas e restauradoras que podem surgir em nossas vidas após as quedas inevitáveis pelas quais todos nós infelizmente temos (e teremos) de passar ao longo do caminho. Isto me faz lembrar uma frase que ouvi em outro filme (infelizmente não lembro qual), algo como “a vida ainda vai te nocautear muitas vezes, mas é preciso saber se erguer após o tombo”. E é isto mesmo: vamos tomar vários socos da nossa vida, isso não dá para evitar. Não dá para fugir. O que dá é para tentar encarar com coragem a queda e o problema, se levantar rapidinho, e buscar um caminho melhor. Tudo isto parece óbvio. E é. Porém, em “Silver Linings”, vemos que o levantar depois da queda pode parecer horrível no início, mas o “contorno prateado” de sua nuvem negra vai surgir, e é justo na possibilidade desta luz especial que precisamos nos apoiar. A tormenta, de regra, é arrebatadora. A arte da reconstrução está em confiar que ela vai acontecer, e seguir. Confiar que uma poderosa mão amiga e um concurso de dança – coisas singelas, aparentemente banais – como acontece no filme, podem salvar a sua vida, mudar seu rumo, reescrever a sua história. É só saber conduzir. Nesta sinfonia, caro leitor, o maestro sempre vai ser você. Vamos lá, é só pegar a batuta. É sempre possível.

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