Temos nosso próprio tempo

por Pedro Cunha

Em maio de 1994 eu tinha 16 anos e um coração bem mais puro do que tenho hoje. Um coração ainda inocente e que tinha uma vida inteira pela frente. Foi com esse coração à frente que eu vivi uma das noites mágicas da minha vida no Gigantinho, ginásio de Porto Alegre onde, apesar da acústica sofrível, diversos shows são realizados. Naquela noite a Legião Urbana se apresentou em Porto Alegre pela última vez. Ninguém sabia que seria a última, é claro. Mas as apresentações e turnês da Legião eram poucas, em função principalmente do temperamento de Renato Russo, o líder da Legião. Aquela noite de maio foi especial para mim. Era a turnê do disco “O Descobrimento do Brasil”, o primeiro que eu comprei da Legião e um disco muito importante para mim. Estavam comigo, naquele momento, os meus amigos para o resto da vida, embora naquele momento eu não soubesse disso ainda.

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Ingresso do show que eu fui… 

Foi pensando em tudo isso que eu fui assistir “Somos Tão Jovens”. Tentei, como sempre, permanecer meio alheio a tudo que se dizia antes do filme e sabia tão somente que era uma cinebiografia do Renato Russo ou da Legião, não sabia direito. Entrei no cinema para ser encantado, era o meu objetivo (e geralmente é esse, quando entro numa sala de cinema…). O roteiro de Marcelo Bernstein ajuda nesse sentido. Dentre as possíveis histórias, o roteirista (que teve como consultor Carlos Marcelo, autor do livro “Renato Russo – O Filho da Revolução”) escolheu contar a história do início, da adolescência do cantor e compositor. Vamos conhecendo aquele menino introspectivo e inteligente da classe média alta de Brasília que acaba, em função da fragilidade física, mergulhando na intelectualidade ao ponto de se tornar, muitas vezes, um tanto pedante e pretensioso. A vida de Renato entra em parafuso quando ele tem os primeiros contatos com o movimento punk, através de fitas demo, revistas importadas e lojas de discos underground (PARÊNTESES: ah, a idade… nessa hora a gente lembra do tempo em que trocava fitas K7 e que, para ter as letras das músicas, tinha que ficar ouvindo e parando a fita para “tirar” a letra de ouvido. Lembra de garimpar atrás de uma banda de maneira enlouquecida e daquela ansiedade para chegar em casa e ouvir o disco novo… enfim, coisas da minha geração. FECHA PARÊNTESES). Começando a ouvir punk e a se vestir como punk, Renato resolve que quer fazer música punk também. A partir daí temos a formação e a conturbada existência da primeira banda de Renato, o Aborto Elétrico, que foi também embrião do Capital Inicial. Junto com Renato acompanhamos a efervescência da cena jovem do rock de Brasília, que no início dos anos 80 era o que acontecia no Brasil. Uma classe média entediada e endinheirada sem ter muita coisa para fazer e sem saber direito como protestar. O filme mostra, junto com as dúvidas, encontros e desencontros pessoais de Renato, a formação de boa parte do que vai ser o rock brasileiro dos anos 80. O filme termina com um Renato, depois de alguns choques, mais maduro e já (bem) menos punk, com a “descoberta” da cena da Capital Federal pelo jornalista Hermano Vianna, que fez uma famosa reportagem sobre as bandas de Brasília e oportunizou à Legião Urbana seu primeiro show no Rio de Janeiro. Quando a Legião enfim engrena, o filme termina. E termina bem porque, afinal, o resto é história.

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A direção de Antonio Carlos da Fontoura faz um filme leve, apesar de tratar de um personagem que tem momentos muito pesados. Ele centra a narrativa em Renato, que era uma pessoa muito carismática e é um personagem que acaba absorvendo o filme também. A escolha do diretor foi fazer sua narrativa em função da relação entre Renato e sua amiga Aninha (Laila Zaid), que é a maior interlocutora dele no filme que ajuda a tratar da questão da sexualidade de Renato de uma maneira bastante natural e não panfletária, nem escandalosa. A narrativa centrada no personagem funciona em função da figura do ator, Thiago Mendonça. Thiago conseguiu se transmutar no personagem, ao ponto de muitas vezes tornar-se chato, como dizem que o próprio Renato era. Thiago incorporou gestos e maneirismos do cantor e em determinados momentos chegamos a pensar que é o próprio que está na tela.

Nesse sentido a escolha do elenco teve a grande sacada de encontrar as pessoas certas. Quando Herbert Vianna aparece pela primeira vez, tocando a sua Gibson importada, é difícil não rir das bocas abertas e trejeitos de Edu Moraes, que ficaram iguais aos do futuro cantor dos Paralamas. Bruno Torres (Fê Lemos), Daniel Passi (Flávio Lemos), Conrado Godoy (Marcelo Bonfá) e Ibsen Perruci (Dinho Ouro-Preto) também são muito parecidos com os originais. É covardia, nesse sentido, falar de Nicolau Villa-Lobos, que interpreta o jovem Dado Villa-Lobos, de quem é filho. Aí fica fácil ser parecido… João Pedro Bonfá, filho de Marcelo, ia interpretar o pai, mas teve um problema de saúde pouco antes das filmagens iniciarem e teve que ser substituído.

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Renato na fase do “Trovador Solitário” 

Chama atenção a escolha deliberada da produção de deletar completamente Renato Rocha, que foi contrabaixista da Legião nos primeiros discos e sequer é citado no filme. Rocha foi notícia no ano passado em função dos seus problemas com drogas que o levaram a tornar-se um morador de rua. Apesar de não fazer parte da Legião no seu início (entrou para banda depois do contrato assinado com a gravadora quando Renato cortou os pulsos e não podia tocar o baixo por algum tempo), ele já fazia parte da turminha de Brasília, sendo amigo próximo de Renato. Podia estar lá, enfim.

Num filme que trata de uma banda, a trilha sonora é meio óbvia. No caso de “Somos Tão Jovens” optou-se por uma arriscada fuga do óbvio. Para uma plateia sedenta por Legião e Renato Russo foram negados Legião e Renato Russo. Quer dizer, as canções estão lá. Mas não Renato. A opção foi criar novos arranjos e colocar o próprio Thiago Mendonça cantando. Num primeiro momento eu estranhei, mas acabei acostumando. Achei adequado. A estratégia ajuda a fazer o Renato Russo de Thiago mais autêntico. As canções que aparecem em ensaios e apresentações durante o filme foram gravadas ao vivo: Química, Tédio (Com um T Bem Grande Para Você), Veraneio Vascaína, Fátima, Que País É Esse, Soldados, Geração Coca-Cola (essas do tempo do Aborto Elétrico), Eduardo e Mônica, Faroeste Caboclo, Eu Sei (do tempo de Renato como Trovador Solitário) e por fim Ainda é Cedo (já como a Legião Urbana). O único momento em que ouvimos o próprio Renato cantando é no fim do filme, nos relatos sobre o primeiro grande show da Legião, no Circo Voador. As imagens, nesse momento, não são de Thiago Mendonça e sim do próprio Renato. Já não estamos tratando de uma ficção baseada na vida de Renato Russo, mas da própria história dele. Os arranjos incidentais que servem de cortina, durante o filme, são lindíssimos. São obra de Carlos Trilha, um dos colaboradores mais fieis de Renato durante os anos 90 e tecladista e arranjador da Legião.

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Laila Zaid e Thiago Mendonça: Química que funciona 

Se a intenção é tocar, o filme funciona. Alguns diálogos soam artificiais, com tentativas de colocar neles palavras e trechos que poderiam ter influenciado na criação das músicas. O artificialismo de alguns diálogos, aliás, é o ponto fraco do filme. Que encanta. E encanta gerações, como a própria Legião. Encontrei duas alunas na fila do cinema, Gabriela e Mariana, e ambas estavam tão ansiosas quanto eu pelo filme. O detalhe é que Gabriela e Mariana tem a mesma idade que eu tinha lá naquela noite mágica no Gigantinho. Quando Renato Russo morreu elas sequer eram nascidas. E são capazes de se emocionar com o filme e com a Legião, tanto quanto eu. O que é bom fica, não adianta. Foi mais ou menos o que a Clarice escreveu para o Vito (http://www.paginadois.com.br/site/index.php?com=textos&pagina=detalhe&id=930) também. Temos nosso próprio tempo. E o tempo da Legião é eterno. Ainda bem.

(URBANA LEGIO OMNIA VINCIT – PARA OUVIR NO VOLUME MÁXIMO)

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