Duas mãos e uma boca: 40 anos do Sparks

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por Cassiano Rodka

Poucas bandas tem o privilégio de chegar aos 40 anos de carreira. Mais difícil ainda é atingir esse número sem ter um nome conhecido pelo grande público. Mas é exatamente isso que o Sparks conquistou. A dupla de irmãos Ron e Russell Mael toca há mais de quatro décadas e já lançou 22 álbums. Para celebrar esse tempo todo de carreira, o Sparks lançou o seu primeiro disco ao vivo, intitulado “Two Hands One Mouth”, que revisita diversas fases da banda em versões de piano e voz. Pode parecer um clichê fazer um show acústico de apanhado da carreira, mas para o Sparks é um formato bem inusitado, pois a banda sempre contou com muitos instrumentos, arranjos complexos e recursos visuais, tanto em seus discos quanto ao vivo.

A presença de palco da dupla, aliás, é difícil de passar batida. O vocalista Russel Mael canta em falsetto e faz caras e gestos que ficam entre o dramático e o cômico. Em contraponto, o tecladista Ron Mael permanece quase 100% imóvel tocando seu instrumento e encarando as pessoas com seus óculos redondos e uma expressão indefinida. E aquele bigodinho, é claro! A primeira vez que vi eles foi no programa White Room e lembro de virar para o meu amigo Camilo Mércio e perguntar: “Que diabos é isso? Ballet rock?”. As composições de Ron Mael de fato têm uma perceptível influência de musicais e óperas. Mas, ao mesmo tempo, trazem referências do pop, do rock e da música eletrônica.

Apesar de nunca ter sido um grande frequentador das paradas de sucessos, o grupo conquistou um fiel séquito de fãs sempre disposto a embarcar nos seus experimentos musicais, incluindo grandes artistas como Morrissey e Paul McCartney. O ex-vocalista do Smiths chegou a ganhar uma divertida homenagem em uma música do Sparks chamada “Lighten Up, Morrissey”. Já Sir McCartney fez ele mesmo uma reverência ao Sparks, imitando Ron no clipe de “Coming Up”.

A banda iniciou a carreira com discos que agradaram a galera do glam rock. O lançamento do single “This Town Ain’t Big Enough for Both of Us” garantiu o espaço do Sparks entre os roqueiros da época. Mas os álbuns seguintes foram deixando claro que a banda não ficaria apenas na onda do glam. Aos poucos, os novos singles da banda foram confundindo o grande público e causando desinteresse.

Em 1978, os irmãos Mael cansaram do formato de banda de rock e resolveram aventurar-se pelo mundo da música eletrônica. Fascinado pelos sintetizadores que surgiam na época, Ron decidiu juntar forças com o produtor italiano Giorgio Moroder, conhecido por gravar os hits disco de Donna Summer “Love to Love You Baby” e “I Feel Love”. O resultado foi o álbum “Nº1 in Heaven”, que mostrou uma faceta completamente diferente da banda e agradou o público europeu, onde estouraram os singles “The Number One Song in Heaven” e “Beat the Clock”.

O sucesso das faixas eletrônicas não fez a banda estacionar nesse gênero. Nos anos seguintes, a banda seguiu lançando discos com uma gama de referências cada vez maior: explorou o pop rock em “In Outer Space”, criou uma versão cabeça do eurodance em “Gratuitous Sax & Senseless Violins”, modernizou a música clássica em “Lil’ Beethoven” e apostou em guitarras pesadas em “Hello Young Lovers”. O disco de estúdio mais recente da banda chama-se “The Seduction of Ingmar Bergman” e é a trilha de um musical que a banda criou contando a história de uma visita imaginária do diretor sueco Ingmar Bergman à Hollywood nos anos 50.

Quem não conhece a banda e ficou curioso, recomendo o álbum “Kimono My House”. Quem já conhece, dá uma conferida nesse belo disco ao vivo recém lançado e divirta-se com as deliciosas incursões musicais dessa dupla tão singular.

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