Não foi tempo perdido

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imagem: Cassiano Rodka

por Clarice Casado

“Todos os dias quando acordo
Não tenho mais o tempo que passou
Mas tenho muito tempo
Tenho todo o tempo do mundo.”

“Tempo Perdido”, Legião Urbana

Hoje peço licença ao Cassiano Rodka, responsável pela coluna de música do PáginaDois, para me intrometer no território dele. Cassi, querido mano, estou entrando…!

Diz-se que no momento em que o sujeito começa a achar as músicas atuais “um lixo”, é porque está ficando velho. Se isso for verdade, estou me sentindo velha há um bom tempo.

Mas o que me deu um certo alento foi uma pergunta do meu filho Vito, de treze anos, dia desses: “Mamãe, me diz, como é ter sido adolescente numa época que só tinha música boa?”. A indagação do guri me fez ficar numa felicidade gigante, por dois motivos: primeiro, ele está reconhecendo que a música da época dele é uma porcaria, e, segundo, porque ele tem extremo bom gosto musical! Que ele tinha ótimo gosto musical eu já sabia, porque começou a estudar música cedo e, assim, aprendeu a diferenciar coisas de qualidade de arranjos musicais feitos “nas coxas”. Muito ele me ensina sobre música, pois sou apenas uma apreciadora. Uma grande apreciadora, sim, mas não entendo nada da linguagem musical e de seus mistérios. E há muitos, acreditem, leitores! A técnica, os arranjos, as notas bem trabalhadas, isto é coisa que só músicos entendem e sabem identificar em uma canção. Só músicos sabem dizer se a voz de um cara tem “ajuda” de afinadores de voz, por exemplo. E meu filho sabe direitinho que a maior parte dos músicos de sua geração utiliza-se de tais afinadores e afins, artifícios para quem não consegue fazer boa música de verdade. Fazer música de verdade é para poucos.

Assim, meu filho sempre apreciou rock clássico (Paul McCartney, Elvis, Beatles, Eric Clapton, Jimmy Hendrix, Pink Floyd, Creedence), rock das décadas de 90 (Guns ‘n’ Roses, Bon Jovi, Red Hot Chilli Peppers, Nirvana), jazzistas modernos como Jamie Cullum e Diana Krall; e agora anda numa fissura pela Legião Urbana, o que deixa a mamãe dele aqui mega feliz e orgulhosa, já que a banda brasileira marcou de maneira importante a minha adolescência, e é, em minha humilde opinião, a melhor banda brasileira de todos os tempos.

Voltando ao assunto que originou esta crônica, a pergunta do meu filho me fez mesmo pensar, por alguns dias, como foi ter sido adolescente em uma época de extrema criatividade e riqueza musical. Filho, te respondo, mais uma vez: foi sensacional! Ter crescido ouvindo Legião Urbana (que me foi apresentado pelo meu pai, em 1986), Engenheiros do Hawaii, Paralamas do Sucesso, Cazuza, Barão Vermelho, Guns ‘n’ Roses, The Cure, The Police, The Smiths, Dire Straits, Bon Jovi, Madonna, Talking Heads, Red Hot Chilli Peppers, Nirvana, Pearl Jam, Faith No More, foi simplesmente uma experiência sem igual! Na época, provavelmente eu não tinha ideia exata da dimensão do que estava vivendo e presenciando. Assim, foi naquele dia da interessante pergunta do meu filho que percebi que fui privilegiada musicalmente, bem como a minha geração inteira.

Fico muito feliz por meu filho curtir música de qualidade, e, principalmente, por saber escolher o que quer ouvir, independendo se está “na moda”, ou não. Porém, preciso fazer justiça e ressaltar que há bandas do início dos anos 2000 que aprecio e respeito, como Blur, The Strokes, The Killers, Oasis, Coldplay, Green Day, Foo Fighters, Eels. Mas essas são exceções atualmente, onde impera, de fato, uma gigante montanha de lixo musical. E tenho dito!

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