O costume

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imagem: Ana Nitzan

por Marcella Marx

Ao final do primeiro dia de batalha, o padioleiro olha as mãos tingidas. Quando as abre em palma, vê as linhas desenhadas em sangue. Os respingos descem até o cotovelo. Quando ele se olha no espelho, vê que o líquido vermelho está também em partes de seu rosto e cabelo. Por alguns minutos, ele pisca e confere se não é ele o morto. De volta à sua base, mergulha as mãos na água gelada, e com uma bucha esfrega, sem parar, querendo se livrar daquele sangue que não o pertence.
Nunca era o suficiente.
O padioleiro se sentou à mesa e logo sentiu o cheiro da carne mal passada sendo colocada a sua frente. Naquele dia, ele achou que nunca mais comeria.
Muitos outros dias se passaram, mas nenhum foi melhor que o outro. Ele nem reparava mais no encardido azul avermelhado embaixo das unhas. Se deitava com respingos por todo o corpo. Dormia no aconchego morno e úmido do pelo das ratazanas. Ao lado da pilha de cadáveres sonhava com a comida da mãe e com a família reunida aos domingos.
Ele se acostumou a tudo.

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