Versão Brasileira…

versa%cc%83o-brasileira

por Pedro Cunha

É sempre complicado dizer isso, mas faço parte do grupo dos vencidos. Somos uma minoria de teimosos que não dão o braço a torcer. Somos marginais, periféricos. Expulsos do convívio das maiorias, resistimos fora dos eixos centrais, em guetos de resistência para onde são atraídos os párias da sociedade, como nós.

Oquei, talvez “párias da sociedade” seja forte, mas definitivamente fomos vencidos. Os filmes legendados, tradição brasileira, estão desaparecendo dos cinemas. A dublagem, antes quase que restrita aos filmes infantis e às animações, impera. Numa pesquisa rápida pelos dois cinemas da minha cidade (são dois multiplex, um da rede Cinépolis e outro da rede Cinemark, ambos em shoppings) contei 88 sessões de cinema previstas para essa semana. Dentre essas, 22 são de filmes nacionais (um filme só, o “Vai que Dá Certo”). 17 são legendadas. E 48 são dubladas. Há cinco ou seis anos esse quadro seria inimaginável. Quando “Django Livre” (Django Unchained, Tarantino, 2012) estreou por aqui só havia UMA sessão legendada dentre todas. Assistir “Batman: O Cavaleiro das Trevas Ressurge” (Batman: The Dark Knight Rises, Nolan, 2012) legendado também foi tarefa difícil. Quem ainda prefere o legendado está passando por tempos complicados.

Assista esse.

E agora esse. E me diga que é a mesma coisa.

Eu sei, ninguém precisa me explicar, que há uma série de questões sociais envolvidas aí. Nos últimos anos a distribuição de renda no país melhorou, ainda bem. A Classe C cresceu e passamos a ter nos cinemas um volume maior de espectadores. Essas pessoas cresceram acostumadas com a TV aberta e os filmes dublados, o que faz com que tenham essa preferência nos cinemas também. E não são só os cinemas: a TV fechada começa também a sentir esses impactos. Em muitos canais de filme a opção “default” de áudio já é o português, com o áudio original só podendo ser acionado via opção no controle remoto. E as legendas… bom, sumiram. Vários canais já não dão a opção de legendas em português. Complicado, complicado mesmo.

“Mas Pedro”, você pode argumentar, “No mundo inteiro é assim”. Eu sei. Em países como Espanha, Itália ou França você dificilmente encontra filmes legendados em cartaz. Nos EUA também. Nos EUA, aliás, chegam a dublar filmes australianos ou britânicos, porque os norte-americanos não gostam do sotaque. Mas isso é algo RUIM nesses países. “Mas Pedro”, você continua, “Lendo as legendas eu perco os detalhes do filme! Com som dublado, eu posso prestar mais atenção no filme!”. Isso é uma meia-verdade. O som original é parte da obra. Como pensar em filmes como “O Poderoso Chefão” (The Godfather, Coppola, 1972), “Uma Babá Quase Perfeita” (Mrs. Doubtfire, Chris Columbus, 1993) ou Star Wars (George Lucas, 1977) sem as vozes originais? Alguém consegue levar a sério o Darth Vader falando em português “Luke, eu sou seu pai”? Isso sem falar nos musicais, onde os atores teriam duas vozes, uma, em português, para quando falassem e outra, a original, para quando cantassem. Fica bizarro. Fora as “coincidências” como Al Pacino e Richard Gere (dois atores cujas vozes NÃO SÃO parecidas) terem a mesma voz em português. A coisa fica ainda pior quando os bons dubladores brasileiros ainda são preteridos em detrimento de “famosos” como Luciano Huck ou Ivete Sangalo, para alavancar ainda mais as bilheterias. Sobre questões técnicas de por que razão o filme legendado é melhor que o dublado, o genial Pablo Vilaça escreveu melhor do que eu poderia escrever aqui: http://www3.cinemaemcena.com.br/pv/BlogPablo/post/2012/01/19/Os-maleficios-da-dublagem.aspx. Dá um desconto na ênfase que ele dá aos argumentos, mas a essência é essa mesmo.

Vai, me diz que o original não é melhor…

Antes que tochas e ancinhos se levantem contra mim, deixa eu dizer que não sou contra a dublagem. Eu sou contra é a falta de opção. Já deixei de ver alguns filmes no cinema por falta da opção legendada e, poxa, eu gosto de ir ver os filmes no cinema. Sei que há pessoas com problemas de leitura, que há crianças e que há idosos que tem o direito de ir ao cinema e que só conseguem assistir dublado. E há simplesmente quem GOSTE de filme dublado. Cada um tem o direito de gostar do que quiser, enfim. Mas esse público, hoje, está contemplado. Para quem prefere o legendado estão sobrando as pequenas salas fora dos eixos centrais, os cinemas “malditos” e “culturais”. São os guetos onde nós, os vencidos, nos reunimos para o nosso estranho culto ao áudio original. Vencidos, sim. Convencidos… não.

PS: não posso deixar de agradecer à Clarice pela carinhosa menção no seu texto aqui no PáginaDois. E enquanto ela segue procurando alguém que a entenda, a gente segue se deliciando com a sensibilidade e a capacidade de perceber as sutilezas da vida e do dia a dia que só ela tem. Ler a Clarice é sempre encontrar uma nuance do cotidiano e detalhes das pessoas que eu ainda não tinha percebido…

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s