Com quantas angústias se faz um bom artista?

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imagem: Cassiano Rodka

por Clarice Casado

Para Ana, Belzinha, Bibi, Carla, Cassi, Ju, Livinha, Marcelo, Marx e Pedro, meus mais queridos colegas de ofício.

“Mas pra fazer um samba com beleza,
É preciso um bocado de tristeza
É preciso um bocado de tristeza
Senão não se faz um samba, não”.

(Samba da Bênção, Vinicius de Moraes)

“Arte boa não é feita por artista feliz”.

Estão vendo a segunda epígrafe que escolhi para este texto, leitores? A primeira é do nosso grande “poetinha”, Vinicius de Moraes. Mas e a segunda? Leram direitinho? Sabem de quem é? É minha. Eu digo isso há um tempão, para várias pessoas diferentes: meus familiares, meus amigos, e, principalmente, para meus colegas de ofício, ou seja, os que também são escritores, artistas plásticos, músicos, compositores, designers gráficos e de moda, artesãos, publicitários, enfim, gente que mexe com arte em geral. De regra, apenas esses últimos conseguem apreender a dimensão exata do que estou falando. A maioria concorda comigo. Uns poucos acham que estou louca. Porém, o mestre Vinicius já havia cantado a pedra, há décadas atrás: boa arte requer um bocado de tristeza, ou arte não é.

Sim, pois eu dizia que alguns acham que estou louca por fazer tal afirmação. Aí está o “ponto nevrálgico”, o core desta questão! Na minha opinião, um artista, para produzir coisas de qualidade, tem de ser um pouco ansioso, louco, perturbado, fora de si. O carinha que é muito são, muito contentinho, muito certinho, bem resolvidinho, não consegue fazer nada que preste. A arte precisa da angústia para ser arte. A angústia é sua mola propulsora, é sua catalisadora.

Basta dar uma olhadinha rápida nos maiores artistas do passado (as escolhas são minhas, assim, condizem com meu gosto, claro): Picasso era um doido egocêntrico que tinha certa fobia social e casou umas quinhentas vezes, despedaçando os corações de muitas mulheres; Van Gogh mutilou uma de suas orelhas; Modigliani tinha um sério problema com a bebida, assim como o genial Jackson Pollock. Na literatura, começo pela minha poeta preferida, a norte-americana Sylvia Plath, que sofria de síndrome bipolar e suicidou-se aos 30 anos. De escritores suicidas, esteve este mundo cheio: Hemingway e Virginia Woolf são exemplos clássicos – isso para citar apenas dois dos meus favoritos. Na música, exemplos bem recentes de suicidas depressivos foram o roqueiro Kurt Cobain, do Nirvana, e Amy Winehouse; sem falar nos que morreram de overdose de drogas ou álcool, como Elvis Presley, Janis Joplin, Jimmy Hendrix e Jim Morrison, do The Doors; e os artistas que, pela angústia e depressão oriundas das mazelas deste mundo doido, se viciam em drogas ou álcool. Aí, a lista é imensa! Beatles, Stones, Eric Clapton, Johnny Cash, Ray Charles. Não estou aqui, com isso, a defender uso de drogas ou álcool para se produzir arte de qualidade. Não! Estou apenas dando exemplos de artistas geniais que o foram por terem sido, também, pessoas mentalmente “assombradas”, de um modo ou de outro, e que transbordavam suas dores e angústias por meio da arte e de seus vícios (aliás, não seria a arte também um vício sensacional…?). Doidinhos de pedra, mas gente muito boa, uns sujeitos que conseguiram fazer arte excepcional e atemporal, exatamente porque eram doidinhos!

Assim, as aflições da vida, e também um certo desconforto com relação ao mundo e a quem o rodeia é o que, em minha modesta opinião, impulsiona o artista a fazer arte de qualidade.

Pensando sempre nisso, eu tenho hoje certeza absoluta de que os melhores textos que escrevi (e escrevo) foram aqueles produzidos em momentos em que alguma coisa me incomodava (e incomoda), mexia (e mexe) comigo nas profundezas de meu ser, e o modo que tive (e tenho) para resolver esse conflito interno foi (e é) escrevendo.

Sei direitinho, por exemplo, apenas lendo seus escritos ou apreciando suas belas ilustrações e fotografias, o que meus queridos colegas de PáginaDois estão sentindo, a cada semana.

Conheço com profundidade os lamentos delicados da Ana, as dores internas avassaladoras da Bianca, as angústias questionadoras da Belzinha, os silêncios discretos da Carla, os sofrimentos sutis do Cassi, as palavras contidas da Ju, os choros sem lágrimas da Livinha, os medos disfarçados em sorrisos infantis do Marcelo, as aflições refinadas da Marx, e a indignação inteligente do Pedro.

E eu? Eu sigo escrevendo, escrevendo, e escrevendo, até que algum dia alguém me entenda. Isso, leitores, é fazer arte.

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