Oscar 2013 – depois da cerimônia

por Pedro Cunha

Depois de anos, surpresas! E boas surpresas, pelo menos na minha opinião… “Lincoln” perdeu força na reta final das premiações e deixou de ganhar os prêmios que, quando das indicações, ninguém duvidava que seriam seus. Bom para “Argo”, que na mesma reta final abocanhou todos os prêmios dos sindicatos, o Globo de Ouro e, por fim, o Oscar de Melhor Filme (e mais os prêmios de Roteiro Adaptado e Montagem). Foi uma daquelas cerimônias em que não há um grande vencedor colecionando estatuetas. “Lincoln” tinha 12 indicações e se alguém fosse empilhar seria ele, mas levou apenas os prêmios de Design de Produção (antigamente chamado Direção de Arte) e de Melhor Ator para Daniel Day-Lewis. O filme com mais estatuetas foi “As Aventuras de Pi”, que previsivelmente e merecidamente levou os prêmios técnicos (Melhor Fotografia e Melhores Efeitos Visuais), Melhor Trilha Sonora e deu a Ang Lee a sua segunda vitória na categoria Melhor Diretor. Coincidentemente a outra vitória de Lee, em 2006 por “O Segredo de Brokeback Mountain”, havia sido a última vez em que a Academia tinha separado os prêmios de Filme e Diretor. Sobre Melhor Diretor, fica ainda mais ridícula a não indicação de Ben Affleck pela Academia uma vez que seu filme ganhou o grande prêmio da noite.

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Ben Affleck e seu Oscar (como produtor de Argo) mandando todo mundo ARGOFUCK YOURSELF!

A noite começou com o tradicional desfile no tapete vermelho, onde as atrizes da noite mostravam seus dotes e seus vestidos. A maioria fica deslumbrante, algumas erram. Algumas têm uma noite infeliz. E, bem, há Helena Bonham-Carter, que erra SEMPRE. Anne Hathaway, uma das favoritas da noite, apareceu com um vestido no mínimo duvidoso em que uma costura aparente dava a impressão de que ela estava, enfim, com os “farois acesos”.

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Anne Hathaway e a costura da polêmica. Melissa McCarty jura que foi ao cabelereiro. E Helena Bonham-Carter não consegue abandonar o look Bellatrix Lestrange

O host da festa, Seth MacFarlane, foi ele mesmo. A crítica norte-americana de certa forma surpreendeu-se com o humor afiado e politicamente bem incorreto do comediante, mas o que poderia se esperar do criador de Family Guy e do ursinho Ted? Alguns dos números musicais do comediante foram inspirados (em especial “We Saw Your Boobs”), mas piadas com Rihanna e Chris Brown já passam um pouco dos limites, segundo a crítica de Hollywood. Acho que MacFarlane não volta no ano que vem.

A festa em si foi, como sempre, uma grande celebração do que Hollywood tem de melhor. Duas grandes homenagens na noite: uma delas aos musicais dos últimos 10 anos, com apresentações de números de “Chicago” (por Catherine Zeta-Jones), “Dreamgirls” (por Jennifer Hudson) e “Os Miseráveis” (pelo elenco inteiro). Zeta-Jones provou (e mostrou) que ainda está em grande forma e que “All That Jazz” ainda é uma canção maravilhosa. Jennifer Hudson meio que chocou todo mundo com uma apresentação em que mais gritou do que cantou (eram visíveis as caras de espanto na plateia) e o elenco de “Os Miseráveis” inteiro no palco cantando “One Day More” mostrou o poder das canções, que é o que o filme tem de melhor. Hugh Jackman e Anne Hathawey reafirmaram que são as melhores coisas de “Os Miseráveis”. Amanda Seyfried e Eddie Redmaine (como canta esse rapaz, não? Dá a impressão de ser artista lírico.) também estiveram muito bem. Samantha Barks fez mais uma vez eu desejar que seu personagem, Éponine, aparecesse mais no filme. E Sacha Baron-Cohen, Helena Bonham-Carter e Russel Crowe completando o palco com todo o resto do elenco. Me arrepiei com a apresentação de “One Day More” e me arrepiei todas as vezes em que a vi novamente.

A outra grande celebração da noite foi o aniversário de 50 anos da série 007. Conforme já estava programado, a cantora Adele apresentou-se com a bela “Skyfall”, tema do último filme do agente secreto britânico, e venceu a estatueta de Melhor Canção. Adele passa a ser uma das poucas pessoas no planeta que tem na prateleira o Grammy, o Globo de Ouro e, agora, o Oscar. A apresentação de Adele era esperada e, por isso, não foi tão surpreendente. O que surpreendeu a todos foi Shirley Bassey apresentando-se maravilhosa e cantando “Goldfinger”. A escolha foi homenager Mr. Bond a partir de suas trilhas sonoras que, aliás, já podiam ter sido reconhecidas pela Academia a mais tempo. Estamos falando de Carly Simon (“Nobody Does it Better”), Madonna (“Die Another Day”), Tina Turner (“Goldeneye”), Duran Duran (“A View to a Kill”), A-Ha (“The Living Daylights”), a própria Shirley Bassey (“Goldfinger”, “Moonraker”, “Diamonds Are Forever”) e Sir Paul McCartney (“Live and Let Die”) entre outros. O que eu senti falta e achei que seria relativamente simples de fazer na cerimônia foi da reunião no palco de Sean Connery, Roger Moore, Thimoty Dalton, George Lazemby, Pierce Brosnan e Daniel Craig. Seria bacana ver todos os Bonds juntos e essa seria uma justa oportunidade para isso, mas essa a Academia ficou nos devendo.

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Shirley Bassey e Adele: o ontem e o hoje em 007

Dentre os sempre presentes micos da cerimônia três foram os que mais se destacaram: o primeiro foi o tombo da Jeniffer Lawrence quando foi ao palco para receber a sua (merecida) estatueta de Melhor Atriz. A menina de 22 anos, que já havia sido indicada por “Inverno da Alma” (Winter’s Soul, Debra Granik, 2009) estava visivelmente nervosa, conforme pudemos notar quando ela foi ler uma das homenagens da noite. Eu também estaria, no lugar dela. Concorria com Naomi Watts (por “Impossível”) e Jessica Chastain (“A Hora Mais Escura”), ambas elogiadíssimas. Um dos xodós da noite, Quvenzhané Wallis, também estava na categoria. E ainda estava lá Emmanuelle Riva, maravilhosa, que provavelmente teria ganho se “Amor” fosse falado em inglês. Mas enfim, Lawrence ganhou e, ao subir a escada para o palco, emboletou-se na barra do seu Dior Haute Couture e foi ao chão. Já virou meme: “se for cair, caia de Dior”. Outro meme da noite foi protagonizado por Sandra Bullock, que foi a única pessoa na história, acho, a ter EXTREMA dificuldade para abrir o envelope do Oscar. Mas NADA supera, na minha opinião, a CARINHA que a Renée Zellweger estava quando subiu ao palco com o restante do elenco de “Chicago”. Bridget Jones não conseguia parar em pé. Não conseguiu sequer segurar o envelope, quanto mais ler um dos nomes. Foi socorrida, ora por Richard “Billy Flint” Gere, ora por Queen “Mama Morton” Latifah. Tá certo que a Zellweger tradicionalmente tem os olhinhos pequenininhos, mas até onde eu sei ela ainda é ocidental… o povo nas redes sociais não conseguiu unanimidade, se era um porre ou uma overdose de botox mesmo.

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Jennifer Lawrence cai, coitadinha. E Sandra Bullock apanha do envelope.

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Renée Zellweger, minha filha, o que você tomou?? Reparem que não consegue nem abrir o envelope e nem sequer ler o cartão…

As premiações por atuação da noite foram previsíveis e emocionantes. Daniel Day-Lewis se torna o ator mais vencedor da história ao levar para casa a terceira estatueta de Melhor Ator, feito até ontem inédito. Ele já havia sido premiado por “Meu Pé Esquerdo” (1989) e “Sangue Negro” (2007). É um ator que seleciona seus trabalhos: desde “Meu Pé Esquerdo” Day-Lewis fez apenas 10 filmes, contando “Lincoln”. É muito pouco para mais de 20 anos de atuação. O prêmio é uma recompensa a um ator que seleciona os seus trabalhos e é, sem dúvidas, um dos grandes de sua geração e de todos os tempos. Ninguém duvidava que ele ganharia, mesmo com “Lincoln”, no fim das contas, tendo sido desprezado pela Academia como foi. Jeniffer Lawrence é um prêmio para o talanto de uma moça que pode ser uma das grandes da próxima geração de Hollywood. Um Oscar em duas indicações aos 22 anos não é pouca coisa. Anne Hathaway ganhou o Oscar de coadjuvante em uma cena, na brilhante interpretação de “I Dreamed a Dream” em “Os Miseráveis”. O filme de Tom Hooper, aliás, foi, no fim das contas, um dos grandes vitoriosos da noite. Com sete indicações, incluindo Melhor Filme, foi para casa com três estatuetas (Atriz Coadjuvante, Maquiagem e Cabelo e Mixagem de Som). Ainda falando nos atores, Christoph Waltz venceu a disputa mais encarniçada da noite, ao ganhar seu segundo Oscar em quatro anos superando Phillip Seymour-Hoffman, Tommy Lee Jones, Robert De Niro e Alan Arkin.

O Oscar 2013 será lembrado como o Oscar de “Argo” e como o ano em que o diretor sequer foi indicado, apesar de ter feito um emocionante discurso quando recebeu o prêmio de Melhor Filme como produtor de Argo. E também será lembrado como o ano de Richard Parker e “As Aventuras Pi”. O impressionante tigre digital que acompanha a jornada do jovem Pi Patel no filme de Ang Lee já tem lugar garantido na galeria das grandes criaturas do cinema, junto com o Gollum de “O Senhor dos Aneis”, Yoda da primeira trilogia “Star Wars” e tantos outros. A justa premiação de Efeitos Visutais para “As Aventuras de Pi” escancarou um dos grandes problemas atuais de Hollywood: a questão das empresas de efeitos visuais. O custo de criar algo como Richard Parker é imensamente grande e já existe uma grande parte desse trabalho sendo terceirizado para estúdios chineses, com as conhecidas condições de trabalho da China. A concorrência com a China faz com que os salários desses trabalhadores fiquem achatados, uma vez que seus altos custos materiais não podem ser rebaixados. A empresa R+H, responsável pelo magnífico tigre, decretou falência no ano passado. O discurso dos vencedores, que estava se tornando um protesto, foi cortado pelos acordes de “Tubarão”, numa piada sem graça da Academia. Mais detalhes sobre a questão dos efeitos visuais você encontra aqui: http://www.nimbocg.com.br/oscarvfx/ (agradecimentos ao sempre ligado @ghuyer).

Algumas premiações foram esperadas, como Michael Haneke recebendo justamente o Oscar de Melhor Filme Estrangeiro por “Amor”. Outras foram injustas, como “Valente”, talvez a pior animação da história da Pixar, levando o prêmio que podia ser de “Detona Ralph” ou de “Frankenweenie”. Tarantino levou sua segunda estatueta de Roteiro Original. A Academia, paradoxalmente, parece adorá-lo, mas nega-se a dar a ele o reconhecimento de Melhor Filme/Diretor. Polêmico. Mas, se não fosse assim, não seria o Oscar… Enfim, com saudades, nos despedimos e já começamos a espera para ver quais surpresas nos serão reservadas pelo Oscar 2014. Me despeço deixando vocês com o elenco de “Os Miseráveis”. Abram o link, coloquem em tela cheia e aumentem o volume. Espero que se emocionem, como eu.

http://bempequena.tumblr.com/post/44028536977/the-cast-of-les-miserables-performing-one-day

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