Holy shit! What the fuck is wrong with you?

por Pedro Cunha

Holy shit! What the fuck is wrong with you, people? (ou “Nossa mãe! Que diabos está errado com vocês?”, numa versão das distribuidoras de cinema brasileiras)

Várias vezes eu já briguei aqui por causa dos títulos dos filmes colocados pelas distribuidoras brasileiras. Em que planeta alguém pensa que “Noivo Neurótico, Noiva Nervosa” poderia ser um bom título para um filme chamado “Annie Hall”?? Quem foi o jênio (sic) que achou que “Amor, Sublime Amor” era uma tradução adequada para “West Side Story”? Pode ter sido a mesma pessoa que teve a brilhante ideia de chamar “Inception” de “A Origem”, entregando boa parte do filme, como também fizeram com “Vertigo” (que se tornou “Um Corpo que Cai”) ou “Cloverfield” (rebatizado em terras brasileiras como “Cloverfield: Monstro”). E antes que alguém argumente, todos os casos citados são de facílima tradução sem prejuízo do contexto do filme. Ou alguém acha que “A Inserção” ou “Vertigem” seriam nomes ruins? “Uma História do West Side” funcionaria, eu acho. Sem falar em “Annie Hall” ou “Cloverfield”, que poderiam ser traduzidos como… hm… “Annie Hall” e “Cloverfield”. (Cloverfield, aliás, junta-se a longa lista de filmes que as distribuidoras acham melhor explicar para que o público “burro” entenda, como “Pulp Fiction” (Tempo de Violência) ou “Forrest Gump” (O Contador de Histórias). ).

Voltei a esse assunto porque dois dos filmes que concorrem ao Oscar de Melhor Filme semana que vem “padecem” desse mal. Um é “Beasts of the Southern Wild” (Behn Zeitlin, 2012), que acharam por bem no Brasil chamar de “Indomável Sonhadora”. “Monstros do Sul Selvagem”, pensando rápido, seria um título melhor e que se relaciona com parte importante da trama. “Ah”, alguém poderia dizer, “Mas aí remeteria a um filme de terror, o que ele não é”. Se eu fosse aceitar esse argumento o primeiro título que eu teria que riscar da minha lista seria… “Indomável Sonhadora”, sem dúvida. Já que esse título não diz NADA sobre o que é o filme e ainda engana. O que também é o caso, aliás, de “O Lado Bom da Vida” (David Russel, 2012), o outro filme do qual falei no início. Esse, admito, uma tradução mais difícil. O título em inglês, “The Silver Linings Playbook” usa uma expressão idiomática difícil de traduzir. Eu, depois de ter visto o filme, usaria algo como “O Fio de Esperança”, “Buscando o Fio de Esperança”, ou algo assim. Mas, reconheço, essa é difícil. O problema, nesse filme, é mais grave. Não só usou-se um título leve como também venderam o filme, através de cartazes e resenhas, como se fosse uma comédia romântica. O que ele passa longe de ser.

Problemas de tradução a parte, vamos falar um pouco dos filmes:

O Lado Bom da Vida (The Silver Linings Playbook, David O. Russell, 2012)
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Oito indicações: Melhor Filme, Melhor Diretor (David O. Russell), Melhor Edição, Melhor Roteiro Adaptado, Melhor Ator (Bradley Cooper), Melhor Atriz (Jeniffer Lawrence), Melhor Atriz Coadjuvante (Jacki Weaver), Melhor Ator Coadjuvante (Robert de Niro).

Já ganhou: 1 BAFTA (Roteiro Adaptado), 1 Globo de Ouro (Melhor Atriz, Jeniffer Lawrence), 1 SAG Awards (Melhor Atriz, Jeniffer Lawrence).

David Russell já havia aparecido como um excelente diretor em “O Vencedor” (The Fighter, 2010) (e o paginadois falou sobre o filme aqui: http://bit.ly/fVaPZs ) com o drama real da família de boxeadores, sendo um o desajustado que pena para encaixar-se na sociedade. “O Lado Bom da Vida”, nesse sentido, conversa muito com “O Lutador”. O personagem de Bradley Cooper, Pat, é um ex-professor que sofre de bipolaridade e em função de uma separação tumultuada acabou passando alguns meses numa instituição psiquiátrica. Quando sai da instituição e volta a morar com os pais (Robert de Niro e Jacki Weaver, ambos ótimos) Pat quer reconstruir a sua vida e, sobretudo, reconquistar sua ex-esposa, de quem não pode sequer se aproximar em função da existência de uma ordem de restrição judicial. Dentro da lógica dele Pat entende que a ex-mulher está esperando que ele melhore para então se aproximar, e resolve então se jogar com todas as forças nesse processo de recuperação. É nesse processo que ele acaba cruzando com Tiffany (Jeniffer Lawrence), irmã da esposa de um amigo, que também passa por um processo de recuperação: apesar de muito jovem ficou viúva de maneira trágica e também tem sérios problemas psiquiátricos. A possibilidade de um ajudar o outro nos seus processos de recuperação marca o filme e faz com que nos simpatizemos com os protagonistas.

A maneira como Russell opta por contar a história, não entregando toda a situação tanto de Pat quanto de Tiffany no início, revela-se uma excelente estratégia narrativa. Ficamos curiosos para saber o que aconteceu com aqueles personagens e o que os levou ao fundo do poço. Ao mesmo tempo torcemos por eles e ficamos chocados com as recaídas de ambos. Pat passa a maior parte do filme na fase maníaca. Em compensação, quando “vira o fio”… é assustador de ver. E o trabalho de Bradley Cooper aparece bastante nessa hora. Assim como as recaídas de Tiffany, essas bem mais discretas, também são parte de um belo trabalho de Lawrence, que hoje é a franca favorita para o Oscar de Melhor Atriz. Aqui, aliás, aparece o maior mérito de David Russell, que é a direção de Ator. Nesses dois últimos filmes Russell teve SETE atores indicados (em “O Lutador” Amy Adams foi indicada como coadjuvante e Melissa Leo e Christian Bale venceram como atriz e ator coadjuvantes). “O Lado Bom da Vida” tem, além dos dois protagonistas, um Robert de Niro atuando como a muito não se via. Os pequenos transtornos obsessivos-compulsivos do seu personagem, tratados como superstição e não doença, e os pequenos maneirismos na atuação de de Niro nos lembram o grande ator que ele é. A atuação de Weaver é marcada por olhares e pequenos gestos de uma mãe apreensiva. Ela consegue ser surpreendentemente expressiva mesmo com poucas falas. Falando em trabalho de ator é realmente uma pena que a participação de Chris Tucker tenha sido tão limitada. Suas cenas sempre são boas e são o alívio cômico de um filme que, por mais que tenha sido vendido como comédia, passa LONGE de ser uma comédia.

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Jeniffer Lawrence. E eu escolhi colocar essa foto porque… porque… enfim, porque é a Jeniffer Lawrence. Precisa mais? 

A direção de ator é o que o filme tem de melhor, e se destaca nos dois primeiros atos do filme. É uma pena, mesmo, o escorregão que o filme toma no seu terço final. O que era um drama, um bom drama, vai a um fim preguiçoso e previsível que mergulha de cabeça em todos os clichês das comédias românticas. O que acaba acontecendo é que o filme promete e não entrega. Ou melhor, se entrega. A solução dos conflitos, apesar de previsível, era altamente improvável em função de tudo que tinha sido apresentado no início do filme. E a cena quase final, com o mocinho perseguindo a mocinha na rua (sempre deserta, nessas cenas) e enfim o beijo redentor promete uma solução muito simples para problemas que foram apresentados como sendo muito, mas muito complexos. Pena mesmo.

 

Indomável Sonhadora (Beasts of the Southern Wild, Benh Zeitlin, 2012)
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Quatro indicações: Melhor Filme, Melhor Diretor, Melhor Roteiro Adaptado, Melhor Atriz (Quvenzhané Wallis)

Já ganhou: Quatro prêmios em Cannes.

O filme de estreia de Benh Zeitlin é daqueles que, mais do que para serem entendidos, é para serem sentidos. O filme nos apresenta uma comunidade marginal em Nova Orleans, “A Banheira”, que vive em um conjunto de ilhas na foz do Mississippi, próximo a Nova Orleans. A comunidade pode ser classificada como “marginal” em função de viver de acordo com as suas próprias regras e longe de toda a estrutura do estado americano. Uma das coisas bacanas do filme é justamente mostrar uma comunidade norte-americana imersa na absoluta pobreza. Não são muitos os filmes que mostram a face pobre dos EUA, que não é muito diferente, enfim, da face pobre de qualquer país do planeta.

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Hushppupy e o pai locomovendo-se pela Banheira… 

O dia a dia na Banheira é mostrado pelo ponto de vista de uma criança de seis anos, “Hushpuppy”, encarnada pela surpreendentemente indicada ao Oscar Quvenzhané Wallis. O filme, contado pela menina, torna-se extremamente subjetivo e lindo. Os monstros aos quais ela faz referência seriam os “Auroques”, que estariam sendo libertados pelo derretimento das calotas polares, fato que ameaça, em função da elevação do nível dos mares, a própria existência da Banheira. Hushpuppy (quase que “filhote”, em português) é criada por um pai que se preocupa em endurecê-la para enfrentar as adversidades do mundo. A criança cresce quase como um animal e o pai preocupa-se com a provável proximidade da sua ausência, uma vez que tem uma doença que parece terminal. O pai, também endurecido, é encarnado por Dwight Henry, que também estreia no cinema nesse longa.

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A pequena Hushpuppy encara seus monstros imaginários 

A escolha narrativa de colocar Hushpuppy como narradora mostra tudo pelo ponto de vista de uma criança, que consegue ser muito simples sem ser simplista. As ameaças à Banheira, tanto reais quanto irreais, materializam-se na forma dos monstros gigantes para uma criança que sente falta da mãe e quer demonstrações de carinho do pai. Um filme para ser visto e sentido. Com a intensidade dos monstros que vem do sul selvagem.

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O dia a dia cru e endurecedor da Banheira, onde o pai prepara Hushpuppy para sobreviver.

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