Crônicas de uma ponte aérea: Perna de pau

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imagem: Ana Nitzan

por Marcella Marx

Sempre soube da importância do conhecimento, aprendi com minha mãe, com meus avós e na escola. Também me considero uma pessoa curiosa, porém nunca pensei que pudesse possuir um tipo diferente de ignorância; mais um grande aprendizado dos tempos de ponte aérea! Vamos chamá-la de ignorância televisiva, ou ignorância do mundo da fama. Pois é, esse mesmo mundo que passava tão longe de mim, naquele ano começou a cruzar minha visão diariamente. A cada dia, minha falta de conhecimento a respeito daquele mundo se tornaria mais e mais gritante até que, em um sábado à noite, ela literalmente gritaria comigo. E foi assim que aconteceu…
– Bom dia, senhor. Gostaria de informá-lo que este guichê é reservado para pessoas portadoras de necessidades especiais, idosos e gestantes.
– Sim, eu gostaria de um assento na primeira fileira, no corredor.
– Senhor, conforme lhe informei não poderei atendê-lo. A primeira fileira é reservada para pessoas com necessidades especiais, gestantes e idosos. O senhor precisará entrar na fila ao lado.
– Menina, me arrume um lugar na primeira fileira, pode ser janela.
– Senhor, posso abrir uma exceção e atendê-lo aqui, porém infelizmente as primeiras fileiras já estão todas ocupadas.
– Ok, mas se eu chegar dentro do avião e a primeira fileira não estiver ocupada, vou mandar te chamar a bordo.
– Como quiser, senhor.
Entreguei a ele o bilhete de embarque e ele partiu. Nesse mesmo momento minhas companheiras de check-in me cercaram, e eu percebi que havia feito algo muito errado.
– Você está louca? Não sabe quem ele é? Ele trabalha na TV, naquele programa super famoso e ele tem uma perna de pau!!
– Ops… pensei, perna de pau, configura… tarde demais. Então, percebi que provavelmente ele tinha ficado muito mais nervoso comigo porque eu não o reconheci e porque não sabia de sua história trágica do que porque não lhe dei um assento na primeira fileira.
Primeiro, sai desesperadamente procurando um senhorzinho para ocupar a último lugar vago na primeira fileira: um corredor! E o mais engraçado é que não foi fácil achar, pois os velhinhos não são fãs desse lugar, têm medo do avião cair e serem os primeiros a morrer. Só depois de umas quatros tentativas em que tive que descrever os benefícios daquele assento, é que uma senhorinha tomou coragem e me salvou.
Depois, comecei a rir sozinha de minha ignorância e me transformei numa analfabeta da TV orgulhosa!
Até hoje não sei o nome do cidadão e muito menos do programa que ele fazia, faz ou fará.

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