Violeta Parra era chilena

 

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imagem: Cassiano Rodka

por Clarice Casado

“Life is what happens to you
while you’re busy making other plans.”

(“Beautiful Boy”, John Lennon)

Poucos são os momentos em que temos a oportunidade de dar graças à vida por todas as coisas boas que nos trouxe e traz. Agora, leitores, vocês devem estar pensando, “A Clarice enlouqueceu! Ficou religiosa a esta altura do campeonato…?”. Não, leitores! As “graças” das quais estou falando são um sonoro “muito obrigada” à vida mesmo, compreendem? Não é um “ah, graças a algum deus por ter me dado a vida”, mas graças à vida por ter me dado um corpo sadio, uma alma igualmente sã (no meu caso, não tanto, ou eu não seria escritora!), bons momentos e experiência. Graças às “pequenas grandes coisas da vida”, como a visão, a audição, o tato, o olfato e o paladar; a capacidade de ler, escrever, amar, sentir, rir, chorar, trabalhar, apreciar a arte e a música; a possibilidade de se locomover, e assim conhecer lugares novos e diferentes; enfim, a oportunidade de estar vivendo e tendo a experiência única de ser. Nunca paramos para pensar nisso, pois de regra estamos ocupados com outras coisas que, muitas vezes, não têm a menor importância.

Esta doideira toda me surgiu quando minha filha Angelina, sete anos, veio me cantar para a belíssima canção “Gracias a la vida”, da cantora e compositora chilena Violeta Parra. Ouvir e sentir as palavras de Violeta na voz da minha pequena foram uma das mais maravilhosas experiências que já tive na vida. Simples assim? Muito simples assim: são dez horas da noite, você está exausto, já leu três histórias para sua filha, e ela, boêmia por excelência, quer lhe cantar uma das novas canções que aprendeu na escola. Estuda em uma escola espanhola, assim, fala um espanhol impecável, e canta belamente nesta língua, pois é afinadíssima (e isso não é papo de mãe: todo mundo acha!). Mas então ela começa, com sua vozinha delicada e fininha, no meio da escuridão,

“Gracias a la vida que me ha dado tanto
Me dio dos luceros que cuando los abro
Perfecto distingo lo negro del blanco
Y en el alto cielo su fondo estrellado
Y en las multitudes el hombre que yo amo…”

E eu fico perplexa, ouvindo-a entoar aquela melodia triste, e ao mesmo tempo muito profunda e bela, que parece lhe cortar o coração em mil pedaços por dentro. E ela parece que sente aquela dor da Violeta Parra, ela cresce e de repente se torna uma mulher na minha frente, uma mulher em um minúsculo corpo de menina… Como ela faz isso? Não sei. Mas é fantástico.

E naquele instante, pensei, “Gracias a la vida”, sim, obrigada, minha querida vida, por me dar momentos como esse com minha filha, momentos que não se repetem, mas que ficam marcados para sempre, e criam conexões muito peculiares entre as pessoas. Obrigada, vida minha, por instantes como esse, e também por vários outros que já passaram, e por aqueles que ainda estão por vir.

“Gracias”, minha vida, por este ano de 2012, e por todos os outros que me aguardam neste meu rico, ainda que breve, passeio por este mundo.


*Violeta Parra era chilena, nasceu no ano de 1917 e suicidou-se aos 50 anos. Foi responsável pela reinvenção da música folk chilena e latinoamericana. Sua canção “Gracias a la vida”, que foi por muitos considerada uma carta de despedida, a projetou no cenário musical mundial, tendo sido interpretada por grandes nomes como Mercedes Sosa, Joan Baez e Elis Regina. A aclamada melodia de Violeta permanece até hoje como a canção latinoamericana mais interpretada mundo afora.

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