Madonna, uma piriguete em Porto Alegre

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imagem: Cassiano Rodka

por Cassiano Rodka

No domingo do dia 9 de dezembro, Madonna esteve em Porto Alegre apresentando o show da turnê mundial de divulgação de seu novo álbum, “MDNA”. Em sua primeira visita à cidade, a cantora trouxe um espetáculo de música, dança e tecnologia dividido em quatro atos: Transgression, Prophecy, Masculine/Feminine e Celebration.

Aparentemente algumas pessoas esperavam um show de hits de toda a carreira, algo que nunca foi prometido. Como toda turnê que procura divulgar um novo disco, a MDNA Tour se propõe a apresentar as novas canções salpicadas com alguns hits escolhidos a dedo por Madonna.

O show, marcado para às 19:30, acabou tendo um cansativo atraso de três horas e meia, aplacado apenas pela aparição da cantora e seus bailarinos para uma passagem de som que divertiu quem já estava na espera desde cedo. Pior do que o atraso em si, foi a inclusão de dois inadequados sets de DJs antes do espetáculo. O que deveria ser uma abertura para aquecer para o show de Madonna transformou-se em um pesadelo audiofônico de duas horas (!?).

Pelas 23h, as luzes se apagaram e o espetáculo começou. O início do show é um tanto dark, com monges balançando um enorme turíbulo por cima da galera do gargarejo em um cenário de igreja gótica. Ao som de sinos e cantos gregorianos, alguns bailarinos surgem ao fundo vestidos de gárgulas. Madonna aparece dentro de um confessionário e começa a entoar os versos do single “Girl Gone Wild”. As músicas que seguem são “Revolver” e “Gang Bang”, durante as quais a cantora empunha um revólver que eventualmente usa para “matar” alguns dançarinos. No telão, gigantescas manchas de sangue surgem a cada tiro. O efeito é bacana, mas um tanto violento para o começo do show.

Os acordes de teclado de “Papa Don’t Preach” soam e amaciam um pouco o clima, botando todo mundo para cantar. Em seguida, Madonna é arrastada por alguns bailarinos para o centro do palco onde longos elásticos estão esticados. Equilibrando-se por entre eles, a cantora e os dançarinos apresentam o hit “Hung Up”. Na sequência, os monges surgem novamente para cantar a faixa hip hop “I Don’t Give a” com Madonna tocando um acorde que outro na guitarra. A nova música, um dueto com Nicki Minaj (que surge no telão vestida de freira) funciona muito bem ao vivo e encerra o primeiro ato do espetáculo.

Depois de um interlúdio de dança ao som de um remix de “Best Friend” com “Heartbeat”, o segundo ato do show tem início. Ao som de “Express Yourself”, Madonna reaparece com seus bailarinos vestidos de soldadinhos. O apelo visual é impressionante, com uma coreografia divertida utilizando estruturas que sobem e descem, soldados suspensos tocando tambor e ilustrações a la Lichtenstein pipocando no telão. No final da música, a cantora encaixa o refrão de “Born This Way” da Lady Gaga, debochando da perceptível semelhança entre as duas canções. Não bastando isso, a cantora alfineta Gaga cantando um trecho de “She’s Not Me”. Um rufar de tambores faz a transição para a próxima música, o primeiro single de “MDNA”, “Give Me All Your Luvin'”. Um interlúdio segue, mostrando no telão imagens das várias fases de Madonna ao som de trechos de seus hits, como se alguém estivesse sintonizando uma rádio. Uma apropriada introdução para o single mais recente da cantora, “Turn Up the Radio”. Das músicas novas, essa foi certamente a mais bem recebida pela galera, que cantou em peso a letra.

Chamando ao palco o trio basco Kalakan, Madonna cantou um arranjo percussivo minimalista bem bacana da clássica “Open Your Heart”, terminando em um trecho da canção “Sagarra Jo!” do próprio Kalakan. A performance contou também com uma aparição de Rocco, filho da cantora, que surgiu no palco fazendo passos de street dance. Dando uma pausa, Madonna interagiu com o público declarando que estava feliz por aquele ser o primeiro show dela no Brasil em que não estava chovendo. Contou que estava gripada devido à chuva que pegou nas outras cidades e confessou que não estava se sentindo bem para fazer o show em Porto Alegre, mas que decidiu fazê-lo depois de ver as carinhas sorridentes dos fãs. Arrã… Meio blablablá para justificar o atraso, né? Feito o mea culpa, falou alguns palavrões em português (“caralho”, “safada”, “piriguete”) e negou os pedidos dos fãs por “Holiday”, declarando que preferia tocar uma música em que pudesse sentar um pouco. A canção tocada foi a balada ganhadora do Globo de Ouro de Melhor Canção Original, “Masterpiece”, trilha do filme “W.E.”, escrito e dirigido pela cantora, mais uma vez com o ótimo acompanhamento do Kalakan.

O terceiro ato teve início com mais um interlúdio, dessa vez com os bailarinos vestidos de mímicos e dançando ao som de “Justify My Love”. O grande hit “Vogue” trouxe a cantora de volta ao palco em clima de fashion week. Acompanhada dos dançarinos, a cantora desfilou pelas passarelas e escadas em looks estilosos em preto e branco. “Candy Shop” e “Human Nature” vieram na sequência, com enormes espelhos deslizando pelo palco. Durante a música, a cantora foi fazendo um strip, revelando, ao final, uma palavra escrita nas costas: Safadinha. Madonna fez um discurso agradecendo a todas as mulheres que se sacrificam diariamente para defender seus direitos.

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imagem: Cassiano Rodka

Abrindo o quarto e último ato, mais um interlúdio. Eu sei que eles são necessários para a troca de roupas e cenários, mas podiam ter tentado fazer menos, eles quebram um pouco o ritmo do show. Ao som de “Nobody Knows Me”, vários rostos se misturavam no telão enquanto dançarinos vestidos de policiais e presidiários pulavam nos mesmos elásticos usados em “Hung Up”. Duas faixas dançantes do novo disco seguiram, o electro house “I’m Addicted”, com uma coreografia inspirada em kung fu, e “I’m a Sinner”, trazendo mais uma vez o trio Kalakan ao palco acompanhando Madonna na guitarra. Na sequência, um coro gospel começa a cantar a introdução de “Like a Prayer” e, talvez pela primeira vez, o estádio inteiro acompanha a cantoria em uma performance emocionante. No final da música, a cantora pegou da plateia uma bandeira do Brasil e girou com ela pelo palco. Depois agarrou uma camiseta verde e amarela e vestiu. Sinos de igreja soaram novamente, deixando claro que o ciclo do show estava se fechando. A última música do setlist foi “Celebration”, single retirado da coletânea homônima da cantora e que havia sido tocada na passagem de som previamente. No telão, vários cubos coloridos pulsavam, causando uma ilusão de ótica bem bacana enquanto Madonna e seus bailarinos dançavam com headphones coloridos pelas estruturas que subiam e desciam no palco.

No fim das contas, o show da MDNA Tour me pareceu menos interessante que o da turnê anterior. Tem pontos altos que te deixam boquiaberto, mas também possui alguns momentos que dão uma esfriada nos ânimos. A experiência em assistir um megashow da Madonna foi algo inédito para mim e posso afirmar que valeu a jornada. É um espetáculo audiovisual meticulosamente estruturado, que consegue unir diferentes formas de expressão artística para nos fazer viajar no universo pop muito particular desse inegável ícone da música.

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imagem: Cassiano Rodka

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