O poder da infância

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imagem: Cassiano Rodka; balão feito por Vito Dall’Agnol Casado

por Clarice Casado

Para Vito e Angelina, e seus fantásticos superpoderes.

Tenho lido muito, aqui e acolá, sobre a reinante “ditadura infantil”. De como as crianças andam dominando os pais a ponto de inverterem os tradicionais papéis. Tenho lido, e tenho também visto essa infância onipotente, mimada e cheia de vontades a ditar suas regrinhas por aí, como se pequenos Mussolinis e Hitlers fossem. Gritam com os pais e batem neles em público, dão chiliques em shoppings e supermercados, respondem para e desrespeitam os professores, não ouvem os adultos, mentem; enfim, um rol assustador de falta de educação e histeria coletiva!

Pois então eu, mãe de dois filhos, um menino de treze e uma menina de sete anos, resolvi vir a público para dizer, sim, de fato, nossa infância é ditadora. Porém, cheguei à conclusão de que não me incluo nesse grupo de pais total e completamente dominados por sua prole. E nele também não se inclui meu marido e companheiro de jornada. Sim, hoje posso dizer, sem medo de parecer convencida, “mãe coruja” ou cega para os problemas de seus filhos: somos pais diferentes, “ganhamos os filhos bons” (expressão que ouvi dia desses em uma série americana de TV: uma mãe orgulhosa suspira baixinho e, feliz, diz, “I got the good kid!”).

Somos certamente parte de uma porção privilegiada de pais que não foi dominada pelos filhos. Digo e reafirmo isso porque todas as pessoas ao nosso redor só têm elogios rasgados aos meus filhos: professores (na escola, nas aulas extra de inglês, tênis, natação, artes, não canso de ouvir o quão especiais eles são – outro dia, a professora de inglês do meu filho mais velho me parabenizou pelo nosso “trabalho” com ele como pais!), amigos (temos um casal de amigos que diz a todos que somos, para eles, modelos como pais), médicos especializados na infância e adolescência, família (meus pais, sogros, tios, irmãos e primos ficam sempre impressionados com a maturidade dos dois frente a vários assuntos).

Assim, resolvi deixar a modéstia de lado e comecei a me perguntar, e também ao meu marido, após tanto ouvir elogios: “o que será que fizemos e fazemos de diferente dos outros pais, os “dominados”?”. A resposta nos veio fácil: demos poderes aos nossos filhos, sim, mas outros poderes, que não incluem o “poder ruim”, o poder autoritário. Demos aos nossos filhos o poder de serem eles mesmos, o poder de participar nas discussões da família, quaisquer sejam; o poder de perguntar, o poder de manifestar suas vontades religiosas, políticas e sociais livremente; o poder de serem crianças felizes, o poder de nos dizer o que lhes incomoda, o poder de nos contar o que lhes parece errado na sociedade e nos atos alheios; o poder de serem eles mesmos; o poder, principalmente, de contarem sempre conosco, não como “amiguinhos”, mas como pais de verdade, como protetores e guias. Desde o princípio, tratamos nossos filhos como se iguais à nós fossem; nunca os tratamos como bobinhos, nunca os subestimamos como seres pensantes e nunca conversamos com eles usando “linguagem de bebê” ou como se pudessem entender pouco do que dizíamos, mesmo porque é o contrário: a criança, desde cedo, entende muito mais do que o adulto pode imaginar. Esses poderes, caros leitores, nunca os tornarão ditadores: pelo contrário, os tornarão (já tornam), indivíduos com liberdade de expressão, indivíduos inteligentes, informados e honestos, indivíduos tranquilos e com a auto-estima elevada, porque sabem que terão sempre nosso apoio incondicional.

Todos esses poderes, no entanto, não teriam sido bem utilizados se as crianças não soubessem que atos errados precisam ser punidos. O equívoco dos pais dominados, creio eu, é não punir de maneira adequada e nos momentos certos. A criança precisa ter a certeza da punição, para que possa corrigir seus comportamentos inadequados. E essa punição, obviamente, não deve nunca se constituir em covardes violências físicas ou morais, que ainda ocorrem neste século, inacreditavelmente. Punir corretamente é saber impor limites. Sem limites, a criança fica perdida, e sente-se no direito de tentar dominar os pais, avós, professores, parentes, e quem mais estiver ao seu redor.

Hoje, com os poderes maravilhosos que nossos filhos têm, nos dão o prazer diário de ouvir suas mais profundas, iluminadas e inteligentes discussões (sim, todas elas muito melhores argumentadas do que as de muitos adultos, acreditem!), sobre política (meu filho quis outro dia ficar assistindo o debate presidencial norte-americano até o fim, enquanto a pequena chamou uma das revistas semanais brasileiras de “mentirosa”!); sobre religião (são capazes de argumentar um tempão sobre a existência ou não de Deus); sobre música (essa, uma das minhas preferidas – discutem acirradamente sobre o que é bom e o que não é hoje em dia, como se estivessem defendendo sua própria vida! O último debate se centrou na seguinte questão: a Diana Krall cantando e tocando músicas de Natal é jazz ou não?).

É… Enquanto alguns ficam com os choros e manhas, eu e meu marido ficamos com a inocente e bela erudição infantil! Este, para mim, é o verdadeiro poder da infância: a capacidade de debater com um adulto de igual para igual, com respeito e consideração.

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