Cinquenta anos de Bond. James Bond.

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por Pedro Cunha

                Em 1962, há 50 anos, entrou em cartaz “007 Contra o Satânico Dr. No” (Dr. No, Terence Young). Duvido que os produtores, diretores e todos os demais envolvidos soubessem que estavam lançando mais do que um filme, mas uma marca e até, podemos dizer, um novo gênero: “filme de James Bond”. Passaram-se 50 anos desde que Sean Connery viu Ursula Andress sair do mar cantando “Underneath the Mango Tree” e Joseph Wiseman sentava-se com o gato no colo contando todos os detalhes de seu plano vilanesco, sem perceberem que estavam fazendo história do cinema. De lá para cá são 23 filmes oficiais (existem alguns “extraoficiais”…) com o mais charmoso e conhecido agente secreto do cinema tendo sido interpretado seis vezes pelo escocês Sean Connery (entre 1962 e 1971), uma pelo australiano George Lazemby (em 1969), sete pelo inglês Roger Moore (entre 1971 e 1985), duas pelo inglês Timothy Dalton (entre 1987 e 1989), quatro pelo irlandês Pierce Brosnan (entre 1995 e 2002) e três pelo inglês Daniel Craig (entre 2006 e 2012). Todos eles já pediram seu Martini “batido, não mexido”. Todos eles já deram em cima de Miss Moneypenny. Todos já pegaram bugigangas com Q. Todos receberam ordens de M. E, é claro, todos já se apresentaram: “Bond. James Bond”.

Quando a MGM – Columbia decidiu fazer o vigésimo-terceiro filme “007 – Operação Skyfall” (Skyfall, 2012, Sam Mendes), decidiu também que ele seria uma grande homenagem aos 50 anos da série. Nesse sentido eu acho que houve com esse filme um cuidado, um capricho muito grande por parte de todos os envolvidos. Ao invés de fazer o que tradicionalmente é feito, convidar um diretor de segunda linha para o filme, foi chamado o ganhador do Oscar Sam Mendes (Beleza Americana, Foi Apenas um Sonho), conhecido não por filmes de ação e sim por filmes de uma grande densidade emocional. O roteiro ficou nas mãos de Neal Purvis e Robert Wade, que fazem os roteiros de Bond desde “007: O Mundo Não É O Bastante” (The World Is Not Enough, 1999, Michael Apted). Juntou-se a eles o reforço de peso de John Logan, responsável pelos roteiros de “Gladiador” (Gladiator, Ridley Scott, 2000), “O Aviador” (The Aviator, 2004, Martin Scorsese), “Sweeney Todd” (Tim Burton, 2007) e “A Invenção de Hugo Cabret” (Hugo, 2011, Martin Scorsese). Para compor e cantar a trilha sonora foi escolhida Adelle, a queridinha do momento. Tudo, enfim, demonstra o carinho com o qual o cinquentenário do personagem foi tratado. O Bond da vez, Craig, já estava escolhido pelo estrondoso sucesso financeiro dos filmes anteriores.

Tenho que admitir: eu não gostei de Daniel Craig como James Bond. Especialmente em Casino Royale (2006) mas também em Quantum of Solace (2008) eu achei que o personagem ficou um tanto quanto descaracterizado, transformado mais num herói de ação do que no clássico, charmoso e fleumático James Bond com o qual eu estava acostumado. James Bond estava mais para Jason Bourne. Pelo menos para mim. E o povo, em geral, deve gostar, já que a arrecadação dos dois primeiros filmes com Craig no papel de Bond foi estupenda.

O que eu posso dizer? Fui surpreendido. Muito, mas muito positivamente surpreendido. Não sei se foi o roteiro, não sei se foi o diretor, não sei se foram os produtores, mas o filme deu uma limpada nas sequências de ação. Não é que elas não estejam lá (e veja bem, eu sei que essa é uma das marcas da série também…), mas elas foram postas em segundo plano. A primeira cena do filme, como tem que ser, tem uma sequência alucinante em Istambul (quem assistiu ao médio “Busca Implacável 2” recentemente vai reconhecer os cenários…), com direito a automóveis, motos, trem, país exótico, ponte, túnel, trator e cachoeira. A cena da ilha, quando Bond desarma seus captores e passa rapidamente de prisioneiro a captor, também é cheia de ação. Mas essas cenas não tomaram conta do filme. Há espaço para o Bond irônico, fleumático e querido de todos. Há, sobretudo, uma trama compreensível e fácil de acompanhar (o que nem sempre acontece nos filmes de 007). O roteiro permite que se destaque o papel de M, que recebe uma importância que nunca teve em nenhum filme da série até então. M é interpretada pela sempre ótima Judi Dench desde os tempos de Pierce Brosnam (em 1995 pareceu muito transgressor que M fosse uma mulher…) e em Operação Skyfall ela tem a chance de mostrar todo o seu talento num papel que é mais que uma mera ponta. O filme preocupa-se também em resgatar elementos clássicos da série que não haviam aparecido até então com Craig, como Q e Miss Moneypenny (ambos muito bem representados por Bem Whishaw e Naomie Harris, respectivamente). Quando começa a tocar uma das trilhas sonoras mais tradicionais (e geniais) da história do cinema e Bond está dirigindo o seu clássico Aston Martin… enfim, os fãs da série sentem-se contemplados. O próprio Craig, que é bom ator, parece sentir-se mais à vontade no papel. E isso faz com que seu Bond fique mais convincente.

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Judi Dench é “M” e Ben Whishaw é “Q”: sem M e Q não há 007, convenhamos…

E, é claro, há um vilão. A galeria de Bond é ampla, mas o “Silva” de Javier Barden pega o melhor de vários deles. Só eu vi uma homenagem a “Jaws”, um dos inimigos mais clássicos de Bond? O plano maquiavélico de Silva pode tranquilamente colocá-lo ao lado de Goldfinger ou do “satânico” Dr. No como um dos grandes vilões de 007. Claro, a temática do antigo-espião-sentindo-se-traído-e-buscando-vingança já foi tratada antes, mas se não for um pouco clichê… também não é James Bond!

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Um bom ator fazendo um bom vilão. E a loirice não é a única surpresa de Barden… 

“007: Operação Skyfall” está sendo considerado por alguns como “o melhor” filme dos vinte e três da série. Não sei se é o melhor. Sei que é o melhor em muito tempo, com certeza. E sei que, como nunca, houve um cuidado com a mitologia da série, revitalizando e resgatando elementos clássicos que apontam para uma ainda muito longa carreira do nosso preferido espião britânico, a serviço de sua majestade e com permissão para matar.

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