Os Mercenários 2 e Tropicália

por Pedro Cunha

A Sylvester Stallone deve ser dado o mérito de ter tido a ideia. Quando a ideia de “Os Mercenários” (The Expendables, Sylvester Stallone, 2010) apareceu todos a acharam interessante: juntar todos os atores de ação dos filmes dos anos 80 e 90 em um único filme? “Caça níqueis!!”, gritavam alguns. Claro que sim. Mas isso não necessariamente seria ruim.

Bom, no caso de “Os Mercenários”, foi. O roteiro e a direção de Stallone tentaram fazer um filme sério demais e fracassaram. O filme não funciona como filme sério. Quando apareceu a ideia de “Os Mercenários 2” eu só me animei a ir ao cinema em função da troca de roteirista e diretor. E, admito, pela reforçada no elenco. Sylvester Stallone. Arnold Schwarzenegger. Bruce Willys. Jean-Claude Van Damme. Jason Stathan. Dolph Lundgreen. Jet Li. O campeão do UFC Randy Couture. E ele, é claro: Chuck Norris. Difícil surpreender-se com esse cast. Todo mundo sabe o que esperar deles. E o grande mérito de Simon West é entregar exatamente o que se espera.

The Expendables 2
Schwarzza, Sly e Bruce Willys com metralhadoras. Alguém esperava algo diferente?

“Os Mercenários 2” não é um filme de ação. É uma paródia de filmes de ação. O filme celebra o cinema e brinca com as piadas do gênero. O que me veio a cabeça muitas vezes durante o filme foi “Pânico”, de Wes Craven, brincando abertamente com os filmes de terror. “Os Mercenários 2” tem um roteiro absolutamente RETO. E os filmes clássicos de ação, aqueles que passavam no “Domingo Maior” (ainda existe??), não tinham? Jean-Claude van Damme encarna um vilão unidimensional chamado… “Villain”(!!) É quase ousado. E funciona. Há tiros e explosões para todos os gostos. Há os herois atirando, em pé, com todos tipos de pistolas, metralhadoras, lança-foguetes e tudo mais que você conseguir imaginar. E, boa sacada, há espaço para os protagonistas serem Rambo, Exterminador, Braddock e todos os seus personagens clássicos. O cinema vem abaixo quando o governador da Califórnia olha para seus companheiros e diz “I’LL BE BACK”. Arriscado foi fazer o próprio Chuck Norris enunciar alguns dos “Chuck Norris facts”, aquelas listas intermináveis que estão na internet. Mas o eterno McQuade, Lobo Solitário, é tão canastrão que faz com que fique divertido. Divertido, aliás, é a grande palavra para o filme. No momento em que o diretor decidiu que não ia levar o filme a sério demais, o longa fluiu. Quer dizer, não sei você, mas eu não fui ao cinema esperando o roteiro mais inteligente da temporada ou uma atuação shakesperiana do velho Stallone ou do eterno canastrão Lundgreen. E “Os Mercenários 2” é um filme que, honestamente, entrega o que promete. Nem mais, nem menos.

Tropicália, de Marcelo Machado, é (mais) um documentário sobre a ebulição cultural dos anos 60 no Brasil. Ainda há o que dizer sobre o tropicalismo que ainda não tenha sido dito? Foi a pergunta que me fiz antes de entrar no cinema. Marcelo faz escolhas muito claras para o seu filme. Depoimentos atuais (muitos) e de época (nem tantos) sobre imagens de época. Alguns números musicais, quase nenhum deles completo. E dentre tantos personagens, escolhe como eixos da condução do seu filme Caetano Veloso e Gilberto Gil. Há ótimos depoimentos deles, como também de Rita Lee, Rogério Duprat, Arnaldo Baptista, Sérgio Dias, Gal Costa e uma série de outras pessoas do cenário da época. Há um depoimento-show-happening fantástico de Tom Zé, que valeria pelo filme todo. E há uma colagem e um ótimo trabalho de montagem no filme que tem por objetivo torná-lo, também, um tanto quanto tropicalista.

Os Mercenários 2 e Tropicália 02.png
Caetano, Gil e Rita Lee. Não são só eles: você também envelheceu… 

O autor divide a Tropicália em três atos, sendo cada um um ano entre 1967, 1968 e 1969. Mostra as influências das demais artes, como o Cinema Novo de Glauber Rocha que estava explodindo naquele momento. Ponteia o AI-5 e o exílio de Caetano e Gil como o fim do movimento tropicalista. Fala sobre a confusão no meio daquela ebulição toda e mais uma vez Gil não consegue explicar o que fazia numa passeata de “xiitas” da MPB que protestavam contra… o uso da guitarra elétrica (!!). Cada vez que eu vejo Gil se justificar a respeito ele diz algo diferente, como se devesse essa satisfação… cá para nós, acho que a história do Ministro é grande o suficiente para que ele possa simplesmente admitir embaraçado esse equívoco, e não mais tentar explicá-lo ou justificá-lo…

Talvez o filme visto por um gringo ou por alguém de menos de 20 anos fique um pouco confuso, pela falta de maiores explicações e contextualizações a respeito do conturbado período dos anos 1960 no Brasil. Se a pretensão de Machado era dar uma carreira internacional ao seu filme ele deveria ter pensado mais seriamente nessa questão. A maior das contextualizações é apresentada por Tom Zé, mas de uma maneira… não ortodoxa, por assim dizer. O famoso discurso de Caetano no Festival de 68 também está lá, e ao meu ver também está faltando alguma contextualização, já que ninguém tem bem certeza, assistindo o filme, contra o quê Caetano está discursando.

No mais o que pode ser dito é que o filme é bom. Tentando responder a pergunta que eu mesmo lancei, o filme é necessário? Tenho a impressão que não. A cultura brasileira é muito rica e essa monomania com o Tropicalismo, pelo menos para mim, já deu o que tinha que dar.

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