O fim do Batman

por Pedro Cunha

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Montagem que circulou pela net com os posters dos três filmes de Nolan.

O que fazer quando seu filme é considerado um dos melhores de todos os tempos no seu gênero (e, para muitos, o melhor) e arrecada mais de um bilhão de dólares na bilheteria? E quando você criou uma versão de um personagem clássico considerada, por muitos, como a definitiva? E quando, nesse filme, um dos seus atores “comete” talvez a maior atuação do século XXI que causou tanta comoção que fez com que a conservadoríssima Academia concedesse, pela primeira vez, um Oscar póstumo? Essas perguntas todas devem ter passado pela cabeça de Chris Nolan depois do sucesso estrondoso de “Batman – O Cavaleiro das Trevas” (Batman: The Dark Knight, Christopher Nolan, 2008). E depois de ver “Batman – O Cavaleiro das Trevas Ressurge” (Batman: The Dark Knight Rises) eu consigo imaginar perfeitamente Nolan respondendo: “Continuamos com o plano. Sem nenhum desvio de rota”.

Essa é a impressão que fica, pelo menos, ao assistirmos o fechamento da trilogia de Nolan. O que teve início com “Batman Begins” (2005) e embasbacou o mundo com “Batman: O Cavaleiro das Trevas” (2008) chega ao seu final com “O Cavaleiro das Trevas Ressurge” (2012). A primeira impressão, logo após o filme, é que ele já estava pensado há bastante tempo. O roteiro (do próprio Nolan e de seu irmão e parceiro, Jonathan Nolan) retoma uma série de elementos e pontas soltas dos dois primeiros filmes, tentando resolvê-los e fechar a trilogia. A história começa oito anos depois do fim do filme anterior e a primeira coisa que descobrimos é que o sacrifício moral do Batman, assumindo as culpas do Duas-Caras e deixando que a memória de Harvey Dent continuasse imaculada e ele continuasse sendo o “Cavaleiro Branco” sem máscara do qual Gotham precisava. A vitória contra o crime foi construída em cima de uma mentira, o que faz com que o Comissário Gordon fique amargurado e envergonhado por saber que todos os mafiosos e criminosos presos em função da “Lei Dent” estão na prisão por causa de uma mentira.

Gordon é vivido pela terceira vez por Gary Oldman, que sente-se à vontade no papel assim como Michael Caine, pela terceira vez encarnando o mordomo Alfred. A relação de Alfred com Bruce Wayne, por sinal, é um dos pontos dramáticos em cima dos quais se apoia o filme. Alfred sempre serviu a Wayne na sua loucura doentia de ser o Batman porque Bruce afirmava que quando o Batman não fosse mais necessário ele aposentaria a capa e enfim poderia viver a sua vida. Não é Alfred, o mordomo, mas sim Alfred, o praticamente pai de Bruce Wayne que se torna cético e magoado quando Wayne enfim aposenta a capa. Mas não vive sua vida. Torna-se um ermitão recluso na Mansão Wayne reconstruída, isolado do mundo e simplesmente esperando o tempo passar. O conflito entre o mordomo/pai que não aceita mais os caprichos do filho mimado proporcionam alguns dos melhores momentos do filme.

Oldman como Gordon, Caine como Alfred. Morgan Freeman (numa participação menor do que nos filmes anteriores) como Lucius Fox e Christian Bale como Bruce Wayne/Batman. São os elementos que se repetem dos três filmes anteriores em função de terem funcionado muito bem. “O Cavaleiro das Trevas Ressurge” é o melhor das três participações de Bale. Fundamentalmente, talvez, porque esse filme, diferente do anterior, é um filme sobre o Batman. Percorrer o caminho da queda à redenção é difícil e Bale dá credibilidade para a tortuosa via percorrida por Wayne.

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Batman, quebrado. Em todos os sentidos. 

Os elementos novos foram, os três, muito bem acertados. Jonathan Gordon-Levitt ((500) Dias Com Ela, A Origem) é um dos jovens atores em ascensão em Hollywood e lhe caiu como uma luva o papel de ser o espelho de Batman, de lembrá-lo do que ele era e do que ele deveria ser. O final do personagem é um tanto nebuloso, com duas possibilidades em aberto, mas acho que a intenção de Nolan era essa mesma. Anne Hathaway (O Diabo Veste Prada) encarna a ladra Selina Kyle, uma exímia acrobata que está, também, em busca de redenção. O personagem de Kyle em nenhum momento do filme é chamado de Mulher-Gato, dentro da lógica do realismo que Nolan construiu com sucesso no seu Bat-Universo. Quando foi anunciado que Hathaway iria “reviver” a personagem que havia sido consagrada por Michelle Pfeiffer em “Batman: O Retorno” (Batman Returns, 1992, Tim Burton), houve muxoxos e murmúrios. As primeiras imagens divulgadas de Hathaway no papel também fizeram muitos fãs de quadrinhos torcerem o nariz. Mas o personagem dela funcionou. É uma Mulher-Gato (sem ter o nome de Mulher-Gato) que apresenta com riqueza muitos dos detalhes dos quadrinhos dos quais os fãs tanto gostam, como o fato de Kyle ser uma ladra ao estilo Robin Hood e tomar conta de meninas abandonadas.

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As costas de Selina Kyle. Costas. Bane. Batman. Hmmm… 

E, falando das novidades, há o Bane de Tom Hardy. Eu não vou falar do Bane do filme de Schumacher porque não há o que falar sobre ele. Tom Hardy (A Origem) é um ótimo ator que foi escolhido a dedo por Nolan para representar um vilão cuja expressão facial é fundamental mesmo que tenha mais da metade do rosto coberta durante todo o filme. Bane tem um plano e sabe o que quer. É o contraponto de um Batman que está, no início do filme, perdido. Bane sabe o que quer, por que o quer e quando o quer. O primeiro (e brutal) encontro dele com Batman recria uma das cenas mais clássicas dos quadrinhos dos anos 90 e consegue impressionar até quem já sabia que aquilo ia acontecer. O Espantalho de Cillian Murphy, em Batman Begins, era amedrontador. O Coringa de Heath Ledger, em “O Cavaleiro das Trevas”, era imprevisivelmente louco. O Bane de Tom Hardy é brutal. E metódico. E quando ele fala no tom metálico de sua voz (um trabalho de ator muito meticuloso de Hardy) faz com que paremos de respirar para ouvir o que ele vai dizer. E quem não fica com medo fica, no mínimo, bastante incomodado.

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Bane. Tenha medo 

Marion Cotillard (Piaf, A Origem) é uma das engrenagens que fazem o filme andar. Falar muito sobre o personagem dela pode comprometer toda a história e principalmente o último ato, onde Nolan faz aquilo que tem feito melhor, que é nos deixar sem fôlego e grudados na cadeira sem conseguir respirar por meia hora ou mais. Nesse sentido, Nolan amadureceu bastante tanto com a série toda do Batman quanto com “A Origem” (Inception, 2009). As cenas de ação de “O Cavaleiro das Trevas Ressurge” são as melhores da série. E falar da trilha sonora de Hans Zimmer é repetitivo, já que a trilha complementa as geniais trilhas que ele compôs para os outros filmes.

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Eu sabia que vinha. Ainda assim chocou… 

O fim da série coroou um trabalho de sete anos de Nolan e conseguiu terminar sem deixar a bola cair. “O Cavaleiro das Trevas Ressurge” não é um marco histórico como o filme anterior, mas também não arranhou o brilho da série como tantas outras vezes já vimos (CHUPA SAM RAIMI!!). Começar um trabalho e ter a certeza de onde se quer chegar é definitivamente um bom começo.

Fala-se em um novo reboot do Batman a partir de agora. Eu não queria estar na pele de quem vai assumi-lo…

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