Adult Themes for Voice: os temas adultos (e incompreendidos) de Mike Patton

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por Cassiano Rodka

Quando foi anunciado que Mike Patton lançaria um disco solo, os fãs ficaram afoitos com o que viria pela frente. Choveram possibilidades de como o álbum soaria. Familiarizados com a imprevisibilidade do cantor, os fãs sentiam que estavam prontos para tudo. Mas ninguém estava preparado para o que veio.

Lançado em 1996, “Adult Themes for Voice” foi o primeiro disco solo de Mike Patton. O álbum conta com 34 faixas gravadas apenas com voz e microfone. As faixas não possuem estruturas bem definidas e são construídas com os mais diversos sons que a voz pode criar: sussurros, gritos, tosses, risos, etc. A gravação foi feita em um mesa de 4 canais em diversos quartos de hotel enquanto Patton estava em turnê com o Faith No More em 1995 (o quarto 602 do Maksoud, em São Paulo, é um deles).

Logo que saiu, o álbum gerou polêmica. As opiniões divergiam radicalmente. Alguns fãs viam o disco como um trabalho experimental, outros achavam o cúmulo algo assim ter sido lançado e muitos acreditavam que Patton estivesse apenas tirando um sarro. Mas a verdade é que a sua maneira de cantar nunca mais foi a mesma depois desse disco. E afirmo isso da maneira mais positiva possível. Eu creio que o álbum foi um divisor de águas na carreira do cantor.

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Em “Adult Themes for Voice”, Mike Patton fez um experimento consigo mesmo. Testou sua voz de diversas maneiras, aprendendo a lidar com o seu instrumento. Explorou os diferentes sons que podia produzir e descobriu os limites da sua voz. Na faixa “Guinea Pig 4”, por exemplo, ele berra em uma progressão que leva os seus agudos ao máximo que consegue até perder a voz. É um som agradável aos ouvidos? Não. É um estudo. Um experimento que foi documentado e é isso que escutamos nas faixas de “Adult Themes”. O disco é incompreendido justamente por não apresentar canções estruturadas de forma convencional. As faixas são essencialmente vinhetas, que funcionam como rascunhos produzidos por Patton para descobrir o que ele poderia criar com a sua voz.

O que ele aprendeu com esse estudo, ele implementou nos trabalhos que seguiram. “Disco Volante”, do Mr. Bungle, foi gravado logo depois e é fácil de perceber vários dos sons que Patton descobriu que podia fazer aplicados em músicas como “Chemical Marriage”, “The Bends” e “Ma Meeshka Mow Skwoz”. Em 1998, ele lançou o primeiro disco do Fantômas, um projeto que eu creio que não existiria se ele não tivesse passado pelos experimentos de “Adult Themes”. Essencialmente, o vocal do Fantômas é o trabalho desenvolvido naquele álbum aplicado em músicas, dessa vez, estruturadas com guitarra, baixo e bateria. Com “Adult Themes”, Patton criou um jeito só seu de cantar.

É uma audição para todo mundo? Não. É um disco para ouvir no carro indo pro trabalho? Definitivamente não. “Adult Themes for Voice” é uma incursão à mente subversiva de Mike Patton, onde podemos escutar o registro de um estudo com a voz sem pretensões acadêmicas e acompanhar o nascimento e a evolução das ideias de um cantor nada convencional.

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