O início do fim

por Pedro Cunha

Christopher Nolan assumiu a franquia do homem morcego em um bom momento para fazê-lo. Os anos 90 não foram bacanas para o defensor de Gotham nas mãos de Joel Schumacher. O que dizer de um filme pelo qual o diretor teve de pedir desculpas aos fãs? (e isso pode ser visto aqui: http://www.youtube.com/watch?v=r6epsGrcuTs) E se alguém não lembra ou não viu “Batman & Robin” (1997), divirta-se (ou não) com esse “Top 15” dos momentos mais embaraçosos do filme: http://www.youtube.com/watch?v=Jj2KcFj1jbE.

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Sim, você não está vendo errado: o Batman de Clooney/Schumacher tinha MAMILOS na armadura. Pois é. 

Vamos combinar: depois disso era muito difícil fazer algo pior. E Nolan, em 2005, lançou “Batman Begins”. O título deixava muito claro a ideia de reboot, por mais que o termo ainda não fosse utilizado pela indústria cinematográfica. Vamos recomeçar do zero. Vamos esquecer os sofríveis filmes de Schumacher e os polêmicos filmes de Burton. Eu até gosto dos filmes do Burton, mas eles acabam sendo mais filmes do Burton do que filmes do Batman…

Batman Begins

Chris Nolan em 2005 era um nome em ascensão, vindo do cinema alternativo inglês. Tinha conseguido notoriedade com dois excelentes filmes, “Amnésia” (Memento, 2000) e “Insônia” (Insomnia, 2002). Ambos os filmes foram thrillers muito bem conduzidos e davam pistas da linha que Nolan adotaria para o seu Batman. Um Batman ultrarrealista como até então não tinha-se visto, para o qual Nolan escalou um excelente ator que também surgia naquele momento, Christian Bale, cujo trabalho mais conhecido era a ótima atuação em “Psicopata Americano” (American Psycho, Mary Harron, 2000). Bale conseguiu dar ao Batman uma profundidade e uma solidez que Michael Keaton, Val Kilmer e George Clooney não tinham conseguido nas décadas anteriores. Seu Bruce Wayne era ótimo e seu Batman, bastante convincente. Foi um dos pontos fundamentais sobre os quais Nolan começou a construir sua mitologia. Outro grande acerto de Nolan foi a escolha dos coadjuvantes. Para o mordomo Alfred, Michael Caine. Para o Comissário (então detetive) Gordon, Gary Oldman. Para Lucius Fox, Morgan Freeman. Caine, Oldman e Freeman são bons e experimentados atores, não requerem apresentação. Nolan entendeu que, para o Batman funcionar, o “entorno” era bastante importante.

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Lian Neeson é Ducard, um dos mentores do Batman 

Outra novidade do filme de Nolan foi a preocupação em mostrar a origem e o treinamento do Batman. Nesse sentido a história lembra, em muitos pontos, o excelente “Batman: Ano Um” de Frank Miller. Os anos ausentes de Batman, o treinamento, a prisão e a busca por sentido na vida do herói são mostrados a todo momento, e é ali que aparece Ducard (Lian Nesson, outra boa figurinha carimbada), que se tornaria o mentor do Batman e o introduziria na Liga das Sombras, controlada pelo misterioso Ra’s al Ghul. Junte-se a isso um vilão que ainda não havia aparecido nos filmes (o Espantalho de Cillian Murphy) e ao interesse romântico de Batman (Katie Holmes, a única escolha questionável de Nolan…) e temos um bom filme. Um roteiro sólido com suas viradas e surpresas, cenas de ação bem dosadas e a tentativa constante de aprofundar os personagens, fugindo da bidimensionalidade tão comum nos filmes de heróis. “Batman Begins” introduz um universo ultrarrealista construído sem pressa e com cuidado pelo diretor, que coroa o processo com a excelente trilha sonora de Hans Zimmer e James Newton Howard. Conforme o título do filme, é um começo. O começo de uma grande ópera em três atos que modificaria a forma como o mundo via os filmes de super-heróis e, principalmente, o começo de um Batman tratado com dignidade e respeito como não havia sido feito até então.

O Cavaleiro das Trevas

 

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Nolan, em 2008, já era um diretor mais afirmado, em função do próprio “Batman Begins” e também de “O Grande Truque”, seu ótimo filme de 2006 onde ele repetiu a parceria com Bale e teve críticas excelentes para ambos. Mas o que mostrar nesse filme? “Batman: O Cavaleiro das Trevas” seria mais do mesmo? Nolan apostou em manter o que funcionara no primeiro filme: Bale, principalmente. Mas fundamentalmente também Oldman, Caine e Freeman. Dentre esses, o personagem de Oldman, o Comissário Gordon, ganha mais destaque (e background, o que é sempre bacana também). A partir daí ele conta, então, outra história. As duas primeiras cenas são talvez as mais importantes do filme. Uma delas mostra o que o Batman se tornou: um herói e um ídolo, alguém que encoraja as pessoas. O que nem sempre é bom, já que ninguém tem o dinheiro, os gadgets e a preparação do senhor Wayne para ser o Batman. Os imitadores, o filme dá a entender, se tornaram uma constante e também uma preocupação para o herói. O Batman trabalha obstinadamente para que chegue o dia em que a cidade não precisará mais dele, mas esse dia não parece próximo.

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O Cavaleiro das Trevas também é sobre o Batman. Também. 

A grande sacada de Nolan foi que “O Cavaleiro das Trevas” não é um filme sobre o Batman. O protagonista desse filme é outro, como fica evidente logo no início. A primeira cena do filme, o assalto ao banco de Gotham, é uma construção primorosa e uma apresentação de personagem como poucas vezes já vimos. Ali ficamos sabendo que o protagonista do filme não é o Batman: é o Coringa. Assista a cena: http://www.youtube.com/watch?v=0OYBEquZ_j0. Os próprios personagens apresentam o Coringa: “dizem que ele usa maquiagem”, um comenta. “Dizem que ele é louco”, outro diz. E assim vamos tentando conhecê-lo. Se essa é a cena que o mostra como um meticuloso planejador, a sua cena seguinte, quando ele próprio se apresenta para os gângsters de Gotham: http://www.youtube.com/watch?v=QehZjjwb7-I. Dessa vez ele fala. Ele é objetivo, direto e quase cartesiano em sua loucura, na medida em que isso é possível. Como conquistar o respeito de mafiosos brutais? Deixando muito claro que se é bem mais brutal do que eles, quando necessário. E deixando claro também que ele não têm o que perder. Um homem sem esperança, sem ter o que perder é muito perigoso.

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Poucas vezes ombros foram tão ameaçadores 

Nolan e o seu roteirista (Jonathan Nolan, que é também seu irmão) acertaram integralmente numa aposta no mínimo arriscada: não se preocuparam nem por um momento em explicar o Coringa. Ele não tem origem, não tem história, não tem pais. Cada vez que fala do seu passado conta uma história diferente. Pode alguma delas ser real? Um pouco de cada, talvez? Pode. Mas a impressão que dá é que nem ele sabe. E isso pouco importa. Nesse sentido o próprio Coringa se define como uma força da natureza, fazendo as coisas acontecerem. A concepção do Coringa de Nolan é bastante diferente (e melhor) do que o Coringa de Burton em “Batman” (1989). O interessante é que a versão idealizada por Burton no final dos anos 80 foi muito bem recebida e magistralmente interpretada por nada menos que Jack Nicholson, um monstro sagrado do cinema que ficou milionário ao fazer um contrato diferenciado para aquele filme, recebendo porcentagem. Como fugir de uma inevitável comparação? Não fazendo parecido. E o psicótico Coringa de Nolan não é nada parecido com o gângster “palhaço do crime” de Burton. Além disso, claro, tivemos Heath Ledger. Ledger era um ator australiano em ascensão depois de uma atuação elogiadíssima em “O Segredo de Brokeback Mountain” (Brokeback Mountain, Ang Lee, 2005). O Coringa de Ledger talvez seja a maior autação da década de 00 no cinema e uma das maiores de todos os tempos. Ledger conseguiu compor o personagem louco sem ser histriônico ou gritão. Prestou atenção em cada detalhe e em cada tique nervoso. Compôs um psicótico cheio de manias como torcer a boca, lamber um lábio, virar o pescoço ou piscar um olho. Antes de ser cômico seu Coringa é assustador, como Nolan o concebeu. Heath Ledger recebeu um ótimo personagem em um roteiro maravilhoso e conseguiu transformá-lo, com sua atuação, em um personagem melhor ainda. O seu bordão “Why so serious?” foi imediatamente incorporado ao imaginário dos bordões do cinema ao lado de clássicos como “Hasta la vista, baby”, “Luke, I am your father”, “Dadinho o c******, meu nome é Zé Pequeno, p****!” e “Frankly, my dear, I don’t give a damn”. O Oscar póstumo de Melhor Ator Coadjuvante foi o reconhecimento da academia a uma atuação irretocável de um excelente ator que morreu aos 29 anos antes de ver o filme estrear. O filme foi, obviamente, dedicado a ele.

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Eu realmente não sei qual o melhor pôster do Coringa… 

O filme foi roubado por Ledger e seu Coringa, o psicopata de quem todos amamos ter medo, mas ainda assim há mais um personagem interessante e central: Harvey Dent, o promotor de justiça de Gotham. Idealista, ambicioso e honesto, ele reúne as características para ser um “Cavaleiro Branco”, um herói sem máscara que poderia tomar o lugar de Batman e permitir a Bruce Wayne viver a sua vida em paz. Pelo menos assim pensaram o Batman e seu aliado, o Comissário Gordon. A queda e corrupção de Dent, que torna-se o maníaco Duas-Caras, é mais uma vitória do Coringa. Provando que pode corromper até o mais puro dos mocinhos do filme, o palhaço estaria mostrando que lá no fundo todos são como ele. A queda de Dent é orquestrada pelo Coringa, que tem o controle das situações do filme mesmo quando parece não ter. Da sua deliberada prisão ao seu interrogatório conduzido pelo Batman, tudo estava planejado por ele. Ao final o Coringa só não consegue ser 100% vitorioso em função do altruísmo do Batman e da cumplicidade do Comissário Gordon: para evitar a desmoralização pública de Dent eles sacrificam a imagem do próprio Batman, que termina o filme caçado pela polícia como se fosse apenas mais um bandido.

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“Batman: O Cavaleiro das Trevas” foi um daqueles raríssimos casos em que o sucesso (avassalador) das bilheterias coincidiu com as críticas quase que unanimemente positivas. Nolan provava que era possível fazer um blockbuster arrecadar mais de 1 bilhão de dólares nos cinemas sem abrir mão de fazer um filme de qualidade, sempre com um capricho primoroso na fotografia e com as ótimas trilhas sonoras de Hans Zimmer. “Batman: O Cavaleiro das Trevas” tornou-se um paradigma: é assim que os filmes de herói e de ação devem ser. E tornou-se também um desafio: será que Nolan conseguiria fechar a sua trilogia dignamente? Será que ele ainda tinha algo sobre o Batman para nos contar? Só saberíamos quatro anos depois, em “Batman: O Cavaleiro das Trevas Ressurge”, que será nosso assunto na próxima quinta-feira.

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