Sereníssima (A derrubada dos mitos!)

Veneza_parte2_P2.jpg
imagem: Clarice Casado

por Clarice Casado

“Consegui meu equilíbrio cortejando a insanidade,
Tudo está perdido mas existem possibilidades.
Tínhamos a ideia, mas você mudou os planos
Tínhamos um plano, você mudou de ideia
Já passou, já passou – quem sabe outro dia.”
(“Sereníssima”, LEGIÃO URBANA)

Buongiorno, leitores! E vamos em frente com o segundo capítulo de minha crônica veneziana. Procederei com o que julguei adequado chamar de “derrubada de mitos” sobre a fantástica cidade. Como mencionei na primeira parte, cansei de ouvir da maioria das pessoas que em Veneza estiveram diversas opiniões pouco agradáveis sobre a cidade. Assim, dou-me ao luxo de discordar solenemente agora, apresentando as minhas razões. Vamos lá!

Mau cheiro – ele não existe! A Sereníssima é banhada pelas águas verde-azuladas ou azuis-esverdeadas (sim: quem não acredita, vá lá conferir!) do Mar Adriático. Durante o tempo em que lá ficamos, somente sentimos um leve cheiro de algas (claro, é mar…) um dia, mas nada que não se sinta em qualquer praia. Assim, ao contrário do que muitos imaginam, Veneza não bóia em meio a um esgoto gigante a céu aberto! Em cada cantinho da cidade, pode-se ver as límpidas águas se espalhando e banhando casas, pontes e palazzos. Belíssimo!

Pouca coisa para se fazer: uma loucura! Como já disse, cada recanto da cidade é cinematográfico, desse modo, é possível fazer diversos tipos de passeios. Caminhadas longas, passeios de gôndola, water taxi ou Vaporetto, o transporte coletivo deles. O Vaporetto é de fato um meio de transporte muito interessante. Calmamente, aquele “metrô aquático”, como o apelidamos, desliza sem pressa, sereno. Os nativos devem ter uma vida muito tranquila lá, estresse zero.

Além das belezas naturais de Veneza, a cidade tem também muitos museus e galerias de arte. Estivemos em dois que valem muito a pena: a Collezione Peggy Guggenheim, que abriga, na casa que foi da própria Peggy, sua coleção particular de arte. Peggy Guggenheim foi uma importante mecenas e colecionadora de arte do século XX, tendo sido casada com o artista Max Ernst e patrocinado a primeira exposição do pintor norte-americano Jackson Pollock (que eu adoro). Entre as obras de sua coleção, Ernst, Pollock, Picasso, Braque, Léger, Kandinsky, Chagall, Klee. Simplezinha, não? A bela casa é um palazzo localizado à beira do Canal Grande. Lugar super agradável, onde, além de apreciar a arte, pode-se tomar um vinho com prosciutto no simpático café do museu. Outro museu super legal é o Punta Della Dogana. Localizado na antiga aduana de Veneza, o prédio do museu, que teve recentemente seu interior totalmente reformado pelo aclamado arquiteto Tadao Ando, abriga exposições de arte contemporânea. A loja do museu é ótima, com objetos de decoração, livros de arte e muito material para desenho e pintura. Vale tomar um legítimo espresso italiano no Dogana Café.

Caminhar por Veneza é uma verdadeira delícia. Há muito lugar bonito para se ver e fotografar. Nada como “ver a vida passar” quando se viaja, apenas sentar em um café e curtir o dolce far niente italiano… Acreditem, Veneza se encaixa perfeitamente no tal conceito de “doçura do ócio” que os italianos preconizam. Para experimentá-la na sua mais pura essência, sente-se em um dos cafés da Piazza San Marco, e curtam o momento e o vai-e-vem de turistas e locais. O Grand Caffé Quadri, aberto em 1638, é uma excelente escolha. Diversos tipos de café, drinks e sanduíches diferentes. Peça um legítimo capuccino italiano (que não leva chantilly, canela ou outras invenções brasileiras para a bebida) e um tramezzino Nonno Vitorio (feito com bacallà mantecato, uma deliciosa especialidade vêneta, com anchovas, alface, manjericão, tomate e cebolas ao vinagre balsâmico) ou um simples e gostoso toast quadri (presunto, queijo Emmental e molho Quadri, feito com manteiga e queijo parmiggiano). Na parte superior, funciona o Ristoranti Quadri, que possui uma estrela no aclamado guia Michelin.

A culinária vêneta é um espetáculo à parte. Quero destacar um restaurante em especial, também com uma estrela no Michelin, que é o Osteria da Fiore. Localizado no lindo bairro de San Polo, ao lado de uma graça de ponte pequenina, tem salão de jantar minúsculo, com não mais que quinze mesas, impecavelmente arrumadas em um ambiente super aconchegante. O atendimento é nota mil, o que faz jus à fama hospitaleira dos italianos. Com carta de vinhos impecável, decidimos pedir uma Don Perignon, já que era uma comemoração! Provamos como entrada o baccalà mantecato alla veneziana dos caras. Mantecato, amanteigado, pode sugerir algo gordo e enjoativo, mas, nada disso, o tal bacalhau é verdadeira iguaria, de sabor suave e delicado. Chamam-no também de baccalà alla vicentina. Experimentamos ainda o bigoli in salsa, uma massa integral longa e seca, parecida com spaghetti, com molho de sarde (sardinha) e cebolas, super típica e com um sabor muito peculiar. Para fechar com chave de ouro, provamos, como secondo piatto, a frittura de moleche con insalata d’arance e rucola. O moleche é uma espécie de mini caranguejo do Veneto, e neste prato ele é servido frito, acompanhado de uma saladinha de laranja vermelha e rúcola. Inesquecíveis iguarias! Gostamos tanto do Osteria da Fiore, que voltamos lá dois dias depois para almoçar. Compramos lá mesmo o livro de receitas de Mara, Maurizio e Damiano Martin, proprietários do local. O livro é ótimo, porque, além de trazer as receitas do restaurante ao lado de lindas fotos, também oferece uma panorama detalhado da história do Osteria, da região do Veneto e da culinária local.

Outro restaurante digno de nota, que havíamos visto no programa de TV do chef Anthony Bourdain, é o Al Covo. Fomos até lá somente para provar o fritto misto di verdure di stagione, uma seleção de legumes empanadinhos e fritos que é uma verdadeira maravilha. Um colosso, como dizia minha querida avó Zenyra!

A culinária do Veneto é caracterizada por ser autóctone, ou seja, utiliza frutos do mar, verduras, legumes e cogumelos da própria região. Seus pratos são totalmente diferentes das comidas italianas que estamos acostumados a degustar em restaurantes italianos no Brasil, que, em geral, servem pratos da Lombardia e Toscana. São típicos da culinária vêneta os risotos, como o de radicchio rosso, as polentas, que podem ser acompanhadas de cogumelos, bacalhau e coelho, e os frutos do mar.

Agora, passamos às comprinhas! O que não falta em Veneza são lojinhas de artesanato que vendem a arte local conhecida mundo afora: os artigos esculpidos em vidro de Murano, uma das ilhas próximas à Sereníssima. Vale a pena entrar em várias dessas lojinhas, para comparar preços e principalmente a qualidade das peças. Compramos copinhos e jarras muito bonitos na loja de um artesão de sobrenome Schiavon, que eram visivelmente de melhor qualidade, em meio às diversas outras lojas.

Além do artesanato local, em Veneza pode-se encontrar, para quem se interessa por moda, todas os grandes marcas, não só italianas, como também de outros países, dentre elas, Prada, Gucci, Armani, Dolce&Gabana, Fendi, Miu Miu, Chanel, Dior, Stella McCartney, Louis Vuitton, Hermès e por aí afora!

O que faltou, desta vez, para nós: Murano, Burano e Torcello. O que derruba o último mito, de que dois dias em Veneza são suficientes: não são! Lá ficamos por três dias, e não conseguimos visitar as três ilhas que cercam Veneza. Assim, não vimos os vidros sendo soprados pelos artesãos em Murano, e não comemos o famoso risoto de goh (um peixe da região) em Burano (que havia sido sugerido também pelo chef Bourdain em seu programa sobre Veneza). Fica para a próxima, porque, certamente, em breve voltaremos! De Veneza, seguimos para Gardone Riviera, pequena cidade localizada às margens do Lago di Garda, o maior da Itália. Um lugar maravilhoso, de onde se pode avistar as magníficas Dolomiti, os Alpes italianos, onde se localiza Fastro di Arsiè, povoado de origem dos meus antepassados italianos por parte de pai. Mas isto já é assunto para outra crônica…!

Para terminar, quero confessar aos leitores que não resisti e fui ao Dr. Google pesquisar sobre a alcunha de “Sereníssima” dada à Veneza e mencionada por Renato Russo em seu show. Pois bem, digníssimos que me leem, de fato, a “Sereníssima República de Veneza” (em dialeto vêneto, Serenìssima Repùblica Vèneta e em italiano, Serenissima Repubblica di Venezia) foi um Estado no nordeste da Itália, com capital na cidade de Veneza. Existiu do século IX ao século XVIII. É muitas vezes referida apenas como a Sereníssima. Assim, não exatamente a cidade, mas o dito estado que tinha Veneza como sua capital era daquele modo chamada.

Conversando com meu pai, que leu a primeira parte desta crônica, descobri que “sereníssimo” era título conferido a membros da realeza italiana. Buscando o termo em um dicionário italiano, encontrei o seguinte significado: “serenìssimo: titolo che si dava ai sovrani e ai principi di sangue reale”. E em um dicionário de língua portuguesa, “título que se dava a algumas altas personalidades e a certos Estados: Sereníssima Alteza; a Sereníssima República de Veneza”. Não era o que eu imaginava, ou seja, nada a ver com a palavra “serena” em português, mas o significado é belo mesmo assim, e também se molda totalmente à magnitude de Veneza. Ainda assim, vou ficar para sempre com a imagem da cidade tranquila e serena , e toda vez que eu voltar lá ou alguém mencionar Veneza, me lembrarei disso. Serena e doce lembrança.

veneza-grande-canal_edit

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s