Crônicas de uma ponte aérea: Bochechuda, eu?

cronicas
imagem: Cassiano Rodka

por Marcella Marx

CRÔNICAS DE UMA PONTE AÉREA
“Na vida tudo passa, na vida tudo é passageiro”.

Capítulo de hoje: “Bochechuda, eu?”
Mais um longo dia chegava ao fim na Ponte Aérea Rio – São Paulo de nossa querida e extinta “Varig, Varig, Varig”. O relógio do saguão marcava cinco minutos para às vinte e duas horas. Porém, aqueles dez últimos minutos deixavam mais do que clara a relatividade do tempo.
Todas nós, as atendentes de check-in, começávamos a nos desmontar, arrancando as chiquinhas do cabelo, descendo do salto, desabotoando os primeiros botões do colarinho e tirando a gravata. Apesar de exaustas, estávamos serenas, mais um dia de dever cumprido. Do último voo, aquele que deveria sair às 22 horas, restava apenas um último assento. Eis então que as duas portas do saguão se abrem ao mesmo tempo e delas surgem dois homens, um alto e magro, portando apenas uma maleta executiva e outro mais gordo, cabelos brancos, com uma mala de rodinhas. O páreo estava bem acirrado, mas o senhor esguio movia-se mais ligeiro e alcançou o balcão alguns segundos antes de seu oponente. Só restava agora eu e mais três colegas no balcão. Desprevenidas, nos locomovemos de uma extremidade à outra como baratas tontas, tentando, não ser a caça, tentando nos esquivar de nossos predadores… Quando vi que seria eu a presa, tive o instinto de me esconder em baixo do balcão, mas a sanidade humana me impediu. Nessas horas, a ignorância poderia salvar vidas!
Decido então jogar o jogo do contente; com sorriso de melancia por fora, enquanto por dentro, grito: “Já são cinco pras deeeeeeeeez!”
O senhor de cabelos brancos já chega dizendo:
– Janela, frente.
Eu, com toda a calma que gostaria de ter herdado, respondo:
– Boa noite, senhor.
E ele, ríspido solta um rápido:
– Boa noite!
Que mais parecia:
– Vamos logo ao assunto, menina!
Como estou jogando o jogo do contente, e nele tudo é perfeito, esqueço que resta apenas um assento no meio, e tropeço:
– O senhor gostaria de janela ou corre…dor?
Oops, mesmo tentando engolir a palavra “corredor”, enquanto olho a tela do monitor e lembro do único lugar vago, ela sai. Instintivamente levo minha mão ao mouse, e tudo ao meu redor passa a acontecer em câ-me-ra le-n-ta e sem foco. O senhor agora escolhe o número do assento de sua preferência e discorre sobre não gostar de se sentar próximo à saída de emergência. Naquela minha luta com o mouse, clico mas, neste exato momento, ele fica vermelho – sinal de ocupado. O que era aquilo? Uma conspiração para transformar meu pacato dia num filme de Hitchcock? O sistema sofre uma pane, os computadores se apagam e minhas preces são para que tudo continue apagado e que todos vão para suas casas dormir. Mas, poucos segundos depois, ouço a maquininha de impressão ligando. Estaria eu salva? Olho minha colega ao lado sorrindo aliviada para mim e entregando o bilhete de embarque com o último assento ao senhor esguio.
– E aí, minha janela na frente…
– Desculpe senhor, mas o voo está lotado.
– Como o voo está lotado?
– O último assento acabou de ser ocupado por aquele senhor e aponto na direção do agora saltitante senhor, cujo corpo ia quase levitando para o salão de embarque.
– Ah vai, me dá uma janela… pode ser qualquer uma, não precisa mais ser na frente.
Achei espantoso o fato de ele acreditar que tirando a opção “frente” seu pedido se tornaria facilmente realizado e mais espantoso ainda quando continuou:
– Está bem, pode ser um corredor!
– Senhor, não há mais assentos disponíveis.
– Está bem vai, pode ser no meio, em qualquer lugar do avião; pode ser até na saída de emergência!
Ele parecia…, não, ele realmente não compreendia o que eu falava e, portanto, precisava ser mais clara. Foi o que fiz:
– Hoje o senhor vai ter que dormir em São Paulo!
Dizer essas palavras para um carioca numa sexta-feira à noite pode ser fatal.
– Tá bom, vai menina, me arranja qualquer lugar aí, vai logo!
– Senhor, me desculpe, mas à essa hora o último voo para o Rio de Janeiro já está taxiando na pista, de maneira que o senhor não vai voar nele!
E com isto posto, esgotei minhas possibilidades dentro da língua portuguesa.
– Menina, me vê logo o meu lugar, se não eu vou dar uma mordida nessa sua bochecha.
– O senhor que experimente!
Respondi, sentindo minha sanidade sair pelos pés e descobrindo que não havia herdado serenidade suficiente.
Quando você não está preparado, uma força maior pode vir em sua salvação:
– Senhor, tente ir até o portão de embarque, quem sabe o senhor consegue (um lugar especial em uma das rodas).
Diz minha amável colega e eu completo em pensamentos impuros.
Sem titubear, ele parte, com seus cabelos brancos esvoaçantes saguão vazio adentro.

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