Woody Allen visita Roma e os romanos

por Pedro Cunha

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Pôster minimalista norte-americano, na minha opinião mais bonito que a escolha do pôster nacional…

Cada vez que eu começo a escrever sobre um filme de Woody Allen eu me obrigo a ser repetitivo: eu sou fã de Woody Allen. Acho honesto dizer isso, até porque o narigudo nova-iorquino tem quase tantos haters quanto fãs espalhados por aí, então é bom que eu diga e repita: Allen é o meu cineasta favorito. Não é o melhor, na minha opinião (esse, para mim, é Kubrick), mas o que eu mais gosto, o que são coisas bem diferentes. Feito o esclarecimento de costume, vamos ao texto.

A grande virada de Allen está fazendo já quase dez anos. Em 2005 o diretor vinha de uma série de filmes irregulares e parecidos e já era acusado, por alguns detratores de senilidade e de ter se esgotado. E aí ele marcou seu “Match Point” (desculpem pelo trocadilho, foi inevitável). Desde “O Que Há, Tigresa?” (What’s Up, Tiger Lily, 1966) Allen já tinha dirigido 39 filmes. E por mais que alguns deles como “Bananas” (1971) e “A Última Noite de Bóris Grushenko” (Love and Death, 1975) se passassem em outras locações, todos os filmes de Woody haviam sido rodados em Nova Iorque. A esmagadora maioria deles se passava em Nova Iorque e tinha a cidade como uma protagonista ou cúmplice do cineasta. E em 2005, aos 70 anos, Woody Allen foi filmar fora de Nova Iorque. Atravessou o oceano para gravar “Match Point” (2005) em Londres e fazer aqueles que muitos (inclusive ele próprio) consideram o ponto mais alto da sua filmografia. Londres deu ao cineasta um gás novo e uma nova musa (Scarlett Johansson). A partir daí Londres passou a ser uma nova casa para o cineasta, que já gravou mais três filmes lá: Scoop – O Grande Furo (Scoop, 2006), O Sonho de Cassandra (Cassandra’s Dream, 2007) e Você vai Conhecer o Homem dos Seus Sonhos (You Will Meet a Tall Dark Stranger, 2010). Talvez o último deles não seja genial, mas nesse meio tempo, livre das suas amarras nova-iorquinas, Allen pode ir à Barcelona fazer um filme que é, no mínimo, plasticamente lindo (Vicky Cristina Barcelona, 2008) e à Paris produzir um de seus raros sucessos de crítica e público, “Meia Noite em Paris” (Midnight in Paris, 2011), que embasbacou meio mundo com cenas nada óbvias de Paris e com a surpresa de que Owen Wilson pode ser um bom ator. Nesse meio tempo Allen inclusive voltou a Nova Iorque renovado, para fazer o no mínimo divertidíssimo “Tudo Pode Dar Certo” (Whatever Works, 2009), que para mim é um dos mais subestimados filmes do cineasta. Enfim, Allen nos mostrou que ainda tinha recados para nos dar no século XXI.

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Alison Pill vive o seu amor turístico romano com Flavio Parenti 

Allen chegou a Roma com convite e financiamento do governo da cidade, como havia sido em Barcelona. “Para Roma, Com Amor”, no entanto, é menos preso à essa obrigação de propaganda. Ela só aparece, na verdade, na última fala do filme, que escancara essa propaganda e é desnecessária mesmo. Mas fora isso, “Para Roma, Com Amor” é um filme que busca contar histórias sobre Roma, brincando com os estereótipos romanos. Nesse sentido o título original do filme (que eu imagino que tenha sido trocado por razões comerciais), “Bop Decameron” talvez fosse mais adequado: o Decameron é uma coletânea de contos de Giovani Bocaccio que fazem um retrato da Itália renascentista, da mesma forma que Allen tenta fazer com a Itália contemporânea. Há de tudo no filme: os paparazzi, as prostitutas de luxo, o estudante idealista, o romance na fontana di trevi, a tradicional família católica, os sindicatos e o movimento trabalhista, o cinema italiano, o camponês do interior tentando a vida na cidade grande, os cantores de ópera… enfim, tudo está no filme. Allen escolheu um clima leve e conduz as suas diversas histórias, que não se cruzam, com um humor de quem, aos 77 anos, parece estar de muito bem com a vida. Num elenco homogêneo, é difícil destacar atuações. Jesse Eissemberg (A Rede Social, 2010) como jovem estudante sonhador de arquitetura, fazendo par com Ellen Page (Juno, de 2007 e A Origem, de 2010) que é a jovem atriz deslumbrada e vivendo a vida em alta velocidade tem química desde o início. Um inspirado Alec Baldwin faz o papel de Grilo Falante, mostrando para Eisemberg (e para o público) o quão cheia de cliché aquela história de amor romana pode ser. Alison Pill faz mais um estereótipo, a turista americana vivendo uma história de amor em Roma, em mais um bom par com o ator italiano Flavio Parenti. Penélope Cruz é deliciosa no papel de prostituta de luxo e faz um par muito engraçado com o jovem ator italiano Alessandro Tiberi. Já Alessandra Mastronardi é a jovem italiana do interior que se encanta e literalmente se perde na Cidade Eterna, levada pelos embalos e os sonhos do cinema italiano, uma verdadeira paixão nacional nas terras da pizza. Woody Allen no papel de Woody Allen, para mim, é sempre bom de ver. Mas a grande surpresa positiva, para mim, foi Roberto Benigni. Naquela que é minha história preferida do longa, ele é um homem normal, de classe média, com um emprego comum. Que de repente, do nada, torna-se famoso e alvo dos paparazzi. Aí entra uma crítica bastante forte (e bem humorada) de Allen à atual indústria do entretenimento, criticando os famosos que tornam-se famosos simplesmente… por serem famosos.

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Eisemberg e Page se entregam ao amor romântico da viagem e Alec Baldwin observa: “eu avisei!”  Alessandra Mastronardi é a jovem do interior encantada pelas estrelas do cinema italiano.

Allen usa as locações históricas com moderação. O Coliseu aparece de relance. As termas aparecem durante a noite, mal iluminadas. A Fontana di Trevi, nunca em plano principal. Allen parece ter eleito como seu ponto principal, onde ele abre e fecha o filme, a Piazza di Spagna, que não deixa de ser o coração pulsante de Roma. A praça não é nada se lá não estiverem as pessoas. E as pessoas são o centro do filme.

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Roberto Begnini, surpreendentemente bem como “famoso” e Alessandro Tiberi, seduzido por Penélope Cruz 

“Para Roma, Com Amor” é Allen puro. Não é o melhor filme do diretor. E com certeza “o filme de Roma” é inferior, cinematograficamente falando, ao “filme de Paris”. Mas é divertido, inteligente e leve. É um passeio por Roma. E – por que não? – um convite, como se propõe.

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