Com quantas notas se faz um bom álbum?

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por Cassiano Rodka

Fiona Apple nunca foi uma artista fácil de classificar. Desde o sucesso de seu primeiro disco, “Tidal”, a cantora deixou claro que rejeita a vida de celebridade e se recusa a abrir concessões quando o assunto é a sua arte. Aliando sua atitude forte ao seu talento, a compositora tornou-se uma artista fora do convencional do que se esperaria de uma cantora considerada pop. E Fiona faz questão de navegar as ondas do mainstream indo contra a maré.

Em seu novo álbum, intitulado “The Idler Wheel Is Wiser Than the Driver of the Screw and Whipping Cords Will Serve You More Than Ropes Will Ever Do”, a cantora explora arranjos minimalistas com poucas notas de piano e muita percussão, dando destaque à sua voz. As melodias vocais são cheias de floreios, remetendo muitas vezes a cantos indígenas. A percussão explora sons de objetos comuns, como garrafas de vidro e talheres, e alguns sons menos convencionais, como crianças gritando e pés arrastando-se na areia. Os efeitos na marcação do tempo são cortesia do grande parceiro da cantora neste disco, o percussionista Charley Drayton.

A faixa que abre o álbum é o single “Every Single Night”, onde a cantora discursa sobre os prazeres e as dores do processo de criação. Desde o início, podemos perceber que o piano da compositora aparece mais esparso, ainda que sempre presente, dando espaço ao silêncio.

A estrutura das canções não é evidente logo nas primeiras ouvidas, despertando aquela vontade de escutar cada vez mais as músicas e ir descobrindo aos poucos os detalhes de faixas como “Daredevil” e “Left Alone”. A ótima “Periphery” mostra a eficiência da composição minimalista de Apple, criando uma bela canção baseada em um riff repetitivo de piano acompanhado apenas por uma percussão feita com os pés e a linda melodia de voz entoada pela cantora.

A balada “Regret” me lembra um pouco “Mother”, música do primeiro disco solo de John Lennon, com acordes de piano tocados de forma bastante simples, apenas criando as paredes por onde corre a melodia da voz, que vai do sussurro ao grito primal. “Anything We Want” traz uma bela melodia de voz costurada por uma percussão metálica e é o mais perto de uma canção convencional que o disco chega – um provável single. O fechamento desse excelente trabalho fica ao encargo do lindo arranjo de vozes construído para “Hot Knife”, remetendo um pouco ao trabalho de vocais da banda Dirty Projectors.

“The Idler Wheel” certamente não é um disco para agradar todos os ouvidos, mas é definitivamente um verdadeiro achado para quem gosta de embarcar em uma inebriante jornada sonora.

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