De bicicleta

Debicicleta_P2.jpg
imagem: Cassiano Rodka

por Clarice Casado

Ela veio um dia pra mim e disse,
Prima, tenho umas angústias guardadas,
umas palavras não ditas, uns gestos não feitos…
Eu disse, não podem mais morar em ti, ou começam a te corroer,
criar mofos indizíveis que se transformam em monstros
que atormentam a gente pro resto da vida…
Ela disse, o que eu faço, então?
E eu, transforma em palavras escritas, em música, em desenhos ou pinceladas;
dá vida externa à tua tormenta interna: faz chover arte.
Ela começou a fazer.
Acanhada, no início. Fez chover um temporal.
Me inundou com palavras aflitas, muitas doídas, outras de alívio.
Aos poucos, a tempestade se acalmou.
Olhei para as nuvens das palavras dela,
e pude começar a ver aquela linha de prata tranquila,
que aparece depois das grandes tempestades.
Desabrocharam nela palavras seguras – ainda doloridas –
mas se assim não fossem, nunca poderia ser artista.
Soltei-lhe o apoio, ela pedalou firme,
e foi sumindo aos pouquinhos no infinito das palavras.

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