Cinco Ideias Descartáveis de Hollywood

por Pedro Cunha

Tentei por várias vezes começar a escrever uma análise mais séria sobre Prometheus (Prometheus, Ridley Scott, 2012). Comecei, não gostei, recomecei, voltei a não gostar e tornei a recomeçar. Não deu. O texto acabou virando uma longa análise sobre a franquia Alien, os personagens e seus universos, que tem em Prometheus um adendo nem tão lá interessante assim. E cada parágrafo que eu tentava escrever sobre o mais recente longa de Ridley Scott fazia com que eu me repetisse a pergunta: “Por que fazer esse filme? Esse filme era necessário?”. Esse questionamento me levou, então, a passar por várias outras ideias desnecessárias, entre sequências, reboots e inovações técnicas. Não estou dizendo que toda sequência é inválida ou que nenhum reboot vale a pena. Longe disso. Existem ótimas boas ideias que vieram de continuações (e isso acabou de me dar ideia para uma nova lista…). Mas existem algumas que são (uso a palavra pela terceira vez, desculpem-me) desnecessárias. Vamos lembrar de cinco delas?

5) Refilmar Psicose (Gus van Sant, 1998)
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Psicose (Psycho, Alfred Hitchcock, 1960), é um marco da história do cinema. O filme foi uma coleção de ousadias de Hitchcock: escalar uma estrela (e pagar muito bem a ela) para aparecer 15 minutos no filme? Novidade. Mais ainda: Hitchcock proibiu os cinemas de permitirem a entrada das pessoas durante a sessão, o que era comum na época. E gravou um vídeo, exibido no fim do filme, onde ele pessoalmente pedia para as pessoas que, se haviam gostado do filme, não contassem para as outras o final. Tudo isso foi genial e inovador e o filme é MARAVILHOSO, do início ao fim, no que se propunha. Se a meticulosa direção do gordinho britânico não fosse suficiente, a atuação de Anthony Perkins é histórica. Poucas vezes um personagem foi encarnado com a mesma força que o seu Norman Bates. Perfeito, enfim. E aí, em 1998, o ótimo diretor Gus van Sant resolve refilmar Psicose. Um diretor excelente. Com um elenco muito bom (Vince Vaughn, Juliane Moore, Viggo Mortensen). Refilmando o clássico de Hitchcock sequência por sequência. Quadro a quadro. Frame a frame. Um clone. Um filme FIELMENTE IGUAL. O filme de van Sant é… morno. Requentado, seria melhor dito. A sensação, vendo-o, é de déja-vu. E aí vem a pergunta: se é para ser IGUAL, quadro a quadro, por quê?

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Janet Leigh em 1960. Anne Heche em 1998. Precisava?

4) Relançar Titanic em 3D (James Cameron, 2011)

James Cameron é um dos grandes realizadores da atualidade. Além disso é um dos peritos na inovação técnica, sendo um daqueles cineastas que puxam os avanços tecnológicos da indústria cinematográfica. Quem duvida que assista aos filmes dele e pense-os na sua época: “Aliens – O Resgate” (Aliens, 1986), “O Segredo do Abismo” (The Abyss, 1989), “O Exterminador do Futuro 2” (Terminator 2: Judgement Day, 1991), o próprio “Titanic” (1997) e, sobremaneira, “Avatar” (2009). Mas sobre relançamentos em 3D, vamos ver o que disse em entrevista um dos maiores especialistas em cinema 3D do mundo: “É um bom momento para Hollywood se dar conta de que eles tem que trabalhar mais duro para manter a ideia de que o 3D é uma experiência prêmium. Não podemos pegar o caminho mais fácil para oferecer títulos 3D no mercado. Eu não sou um grande fã de conversão para 3D porque eu acho que isso produz o que eu chamo de “2D e meia”. Não há a profundidade que há no 3D nativo, realmente filmado em 3D. A conversão posterior tende a ser mais agressiva aos olhos e não lhe dá uma boa ideia de profundidade. O público está reagindo e eles estão dizendo “Só um pouquinho, estou paganho um ingresso mais caro e não estou recebendo o que eu quero de um 3D”. Sábias palavras, não? Quem disse isso? James Cameron. Caramba, se ele mesmo diz isso, como argumentar a favor da conversão de Titanic para 3D? Desnecessário, completamente desnecessário.

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Caramba, nem em 3D o motorista enxergou o iceberg??

3) O reboot da franquia “A Pantera Cor de Rosa”
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O genial Peter Sellers como o impagável Clouseau 

Existem filmes que se bastam. E existem filmes que são o personagem. Determinados atores dão vida a alguns personagens de uma forma que o filme não faria o menor sentido se não fosse por eles. Peter Sellers é considerado por alguns o maior comediante do cinema de todos os tempos (sim, na mesma categoria de nomes como Chaplin, Buster Keaton e Jerry Lewys). E um dos motivos foi a sua encarnação fantástica do Inspetor Clouseau em “A Pantera Cor de Rosa” (The Pink Panther, Blake Edwards, 1963), “Um Tiro no Escuro” (A Shot in the Dark, Blake Edwards, 1964), “A Volta da Pantera Cor de Rosa” (The Return of the Pink Panther, Blake Edwards, 1975), “A Nova Transa da Pantera Cor de Rosa (The Pink Panther Strikes Again, Blake Edwards, 1976) e “A Vingança da Pantera Cor de Rosa (The Revenge of the Pink Panther, Blake Edwards, 1978). Os cinco filmes são daqueles de rir até a barriga doer, rir até as lágrimas correrem, rir até ter que pausar o filme para ir ao banheiro fazer xixi. E o Clouseau de Sellers… bom, é a definição de um gênero. Some-se isso ao maior diretor de comédias da história de Hollywood, Blake Edwards, e nos temos uma série antológica e completa. Tão completa que a primeira tentativa de sequência, “O Filho da Pantera Cor de Rosa” (The Son of the Pink Panther, 1993), apesar de contar ainda com o gênio de Edwards na direção, não emplacou. Roberto Benigni, italiano vencedor do Oscar (é, Academia, se eu escrevo isso A CULPA É SUA), não convenceu como filho do Inspetor Clouseau. A franquia ficou arquivada.

… até que algum executivo teve a ideia “genial” de recomeçá-la. O diretor Shawn Levy (Uma Noite no Museu 1 e 2, Gigantes de Aço) foi escolhido para ocupar o lugar de Blake Edwards, enquanto para encarnar Clouseau, escolheram Steve Martin. Martin é um grande comediante, mas não é Peter Sellers. Ninguém é. Tanto que até Blake Edwards, quando fez “O Filho da Pantera Cor de Rosa”, optou por matar Clouseau e tentar criar um personagem novo. É inevitável comparar os Clouseaus. E aí, coitadinho do Steve Martin. “A Pantera Cor de Rosa” (The Pink Panter, Shawn Levy, 2006) e “Pantera Cor de Rosa 2” (The Pink Panter 2, Harald Zwart, 2009) são pálidos em comparação com os originais. As piadas se repetem, mas tem a mesma graça… que piadas repetidas, enfim. Fica a questão: era necessário?

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Não, né? Eu também acho. Martin não convence como Clouseau

2) Indiana Jones e o Reino da Caveira de Cristal (Indiana Jones and the Kingdom of The Crystal Skull, Steven Spielberg, 2008)

“Caçadores da Arca Perdida” (Raiders of The Lost Ark, Steven Spielberg, 1981), roteiro de Lucas e direção de Spielberg foi um filme que lançou um herói e ajudou a definir, ali no final dos 70 e início dos 80, o cinema como ele é hoje, para o bem e para o mal. “Indiana Jones e o Templo da Perdição” (Indiana Jones and the Temple of Doom, Spielberg, 1984) foi uma prequel antes que o termo fosse inventado e nos deu momentos mágicos e emocionantes, reforçando a lenda. “Indiana Jones e a Última Cruzada” (Indiana Jones and the Last Crusade, Spielberg, 1989) fecha a trilogia com o melhor dos três filmes, belíssimas locações, um segundo personagem inesquecível (o pai de Indy)e um fim dignissimamente amarrado para tudo. Terminava a década de 80, e com ela também a história do arqueólogo que inspirou uma geração (a minha). Durante muito tempo os boatos de que Harisson Ford poderia voltar a usar o chicote e o chapéu tão característicos do personagem da sua vida surgiam e iam sendo desmentidos, até que, já no século XXI, confirmaram-se: a série teria um quarto episódio, produzido por Lucas e dirigido por Spielberg. Nos quase 20 anos que separam o terceiro do quarto filme zilhões de possíveis roteiros do quarto filme apareceram, e eram um pior que o outro. O roteiro que foi filmado é, na verdade, uma colcha de retalhos de alguns desses roteiros. Não há como salvar o filme. Se nos filmes anteriores o fantástico (arca mágica, sacrifícios rituais com magia, o cálice sagrado) é regrado e acaba sendo palatável e crível dentro do seu próprio universo, no quarto filme, não. Desde a sobrevivência de Indy a uma explosão nuclear (dentro de uma geladeira!!!) até a presença, enfim, dos ETs, quase tudo é forçado, passando pelo ataque meio ridículo das formigas. Os efeitos são melhores, mas o filme é pior. O filme sai daquele ambiente aventuresco pré-II Guerra dos anos 30 e nos joga no meio da Guerra Fria, o que parece meio sem sentido em pleno século XXI. Não temos Sean Connery, que roubou o terceiro filme. Em compensação tempos um Shia LaBeuff que não convence, com um “segredo” que manjamos aos cinco minutos de filme. O terceiro filme tinha encerrado a série de uma maneira linda e poética. Esse quarto a reabre a força e fecha mal. O final é óbvio, piegas e absolutamente… desnecessário.

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Harisson Ford e Daryl Hannah numa das cenas mais icônicas de Caçadores da Arca Perdida

1) A “Nova” Trilogia Star Wars (1999)

Viram? A confusão já começa no nome. A nova é nova porque é feita depois, porque na verdade se passa antes. O primeiro episódio a ser filmado, em 1977, é o IV, que não se chamava IV, passou a se chamar só depois. Aí anos depois do lançamento do VI fizeram o I, para poder lançar o II e então o III. Aí o primeiro deixou de ser o primeiro e não se chama mais “Guerra nas Estrelas”, mas sim “Guerra nas Estrelas: Episódio IV: Uma Nova Esperança”. Então o primeiro é o IV, porque o quarto passou a ser o I. Entendeu? Pois é.

“Guerra nas Estrelas” (Star Wars, George Lucas, 1977) foi um marco na história do cinema feito com um elenco desconhecido e um orçamento de 8 milhões de dólares. Ainda que “O Império Contra-Ataca” (The Empire Strikes Back, Irving Kershner, 1980) seja definitivamente o melhor filme da série toda, “O Retorno de Jedi” (The Return of The Jedi, Richard Marquand, 1984) fechava a trilogia. Os três filmes eram uma história com começo, meio e fim. Sabia-se, desde sempre, que havia outras histórias. Algumas se passavam antes, outras depois. Outras, ainda, DURANTE e ENTRE os filmes da trilogia. Algumas dessas histórias foram contadas em livros e quadrinhos do chamado “universo expandido” de Star Wars, que sempre deu muito dinheiro para Lucas. Mas ele teve o cuidado de nunca mexer na galinha dos ovos de ouro, os filmes. Quer dizer, teve, até 1999. Reza a lenda que a culpa é de Spielberg. Que Lucas assistiu no cinema a “Parque dos Dinossauros” (Jurassic Park, Spielberg, 1993) e achou que já existia a tecnologia para ele fazer o que queria fazer. E fez.

Os três filmes (episódios I, II e III) da segunda trilogia são muito, mais muito inferiores aos primeiros. Alguém maldoso diria que são piores porque são dirigidos por Lucas, que teria “dado sorte” no primeiro filme, mas eu acho muita maldade. Há, durante toda a nova trilogia, uma tentativa forçadíssima de criar links com a antiga, como a inclusão descabida de personagens como R2-D2, C-3PO e Chewbacca. Anakin Skywalker, nos dois primeiros filmes, é um personagem INSUPORTÁVEL. E ele deve ser o herói da hexalogia. Hayden Christensen, que faz o personagem nos episódios II e III, é insosso. Incluí-lo digitalmente e a posteriori em “O Retorno de Jedi” foi um dos tantos sacrilégios de Lucas. E Jake Lloyd, o menino que interpreta o Anakin criança, é MUITO IRRITANTE! Falando em Anakin, o romance dele com a Rainha Amidala é difícil de engolir também. No episódio I ela é adulta e ele é criança. No episódio II ela continua igualmente adulta e ele cresceu. Não convence. Lucas ainda tenta, no episódio I, dar alguma explicação científica para a Força, o conceito zen que estava maravilhosamente bem sem ser explicado DESDE 1977. A ideia dos tais “midi-chlorians” é tão estúpida e tão idiota que o próprio Lucas a abandonou nos outros dois filmes. Há quem reclame dos ewoks em “O Retorno de Jedi”. Eu respondo com três palavras: Jar Jar Binks. Esse personagem, quase central em “A Ameaça Fantasma”, é tão, mas tão ruim que foi devidamente engavetado nos episódios II e III. Os melhores momentos da nova trilogia estão no episódio III, e ainda assim são bons porque explicitamente tem ligação com o surgimento de um dos personagens mais icônicos da história do cinema, que é Darth Vader. Desnecessário. Tão desnecessário que nem um elenco com Lian Neeson, Natalie Portman e Ewan McGregor salva a bomba. O Episódio I é infantil. O II é HORRÍVEL. E o III é o menos ruim. Mas ainda assim o que há de bom no III vale pela reminiscência da trilogia original. Quer dizer, Lucas conseguiu trincar sua marca Star Wars com esses três filmes. Não em termos comerciais, claro. Nunca ele ganhou tanto dinheiro, diga-se de passagem. Mas em termos de qualidade cinematográfica, nossa…

 

PS: essa é a MINHA lista. Há muitas e muitas ideias desnecessárias em Hollywood. Rambo IV. Rocky VI. Exterminador do Futuro III (e IV). Refilmar “Abra los Ojos” com Tom Cruise. Filmar qualquer coisa com Tom Cruise. Enfim, a lista é longa. Mas essa, nessa ordem, é a MINHA lista…

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