Drive

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por Pedro Cunha

Alguns filmes são retratos dos tempos nos quais foram feitos. E geralmente não o são por tentarem sê-lo. A ideia de um filme como representação de uma época em na maioria das vezes  é posterior à própria época e reveste-se de idealização e reverência. “Grease, Nos Tempos da Brilhantina” (Grease, Randal Kleiser, 1978) não é um retrato dos anos 50: é uma visão do final dos anos 70 sobre os anos 50. Assim como Hair (Hair, Milos Forman, 1979) mostra muito mais sobre o fim da década de 70 do que sobre os anos 60, e Across the Universe (Julie Taymor, 2007) é um filme que diz mais sobre o século XXI (e como ele idealiza os anos 60) do sobre a própria década dos Beatles.

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Sandy e Danny: Nos tempos da brilhantina ou nos embalos de sábado à noite? 

Mas eu falava sobre filmes que são retrato do seu tempo, e não o contrário. Aí dá para citar Sem Destino (Easy Rider, Dennis Hopper, 1969). Ali está a desilusão do fim dos anos 60 que vai desaguar nos mais agressivos anos 70. Juventude Transviada (Rebel Without a Case, Nicholas Ray, 1955) é a cara dos anos 1950 nos EUA, talvez muito mais do que Grease. E as vezes a coisa é quase conceitual. A década de 1990 é retratada, para mim, em Clube da Luta (Fight Club, David Fincher, 1999) melhor do que em qualquer documentário. O zeitgeist, o espírito da época está ali. Assim como a síntese dos anos 80 está em Curtindo a Vida Adoidado (Ferris Bueller’s Day Off, John Huges, 1986).

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Cameron, Sloane e Ferris não imitam os anos 80. Esse figurino (incluindo a jaqueta com franjas e a bermuda “centro ao peito” de Sloane e o coletinho de Ferris) era sério. Em 1985, enfim.  

Tudo isso para começar a falar sobre Drive (Drive, Nicolas Winding Refn, 2011). Drive é um dos hypes do início de 2012. Apesar da recepção extremamente positiva o filme foi monumentalmente esnobado pelas grandes premiações. Uma única indicação ao Oscar (numa categoria secundária, Edição de Som) e também uma indicação ao Globo de Ouro (ator coadjuvante para Albert Brooks). George Clooney, indicado ao Oscar de melhor ator por Os Descendentes (The Descendents, Alexander Payne, 2011), disse que a não indicação de Ryan Gosling para o Oscar de Melhor Ator era talvez a maior injustiça da história da premiação. Por mais que Clooney tenha exagerado (nenhuma injustiça será maior do que Kevin Costner ter sido indicado – e vencido – por Dança com Lobos, enfim) dá para dizer sim que a Academia comeu mosca.

Drive é uma adaptação do livro homônimo do americano James Sallis, de 2005. Não tive chance de ler o livro, mas me disseram que a adaptação de Hossein Amini acabou criando uma história melhor do que a do livro, o que é raro. Drive é uma história simples: um dublê de segunda categoria de Hollywood (Ryan Gosling) ganha a vida fazendo bicos como mecânico e, à noite, torna-se motorista contratado por criminosos para evadi-los da cena do crime. Sua extrema frieza e habilidade no volante faz com que o dono da oficina onde ele trabalha como mecânico, que tem amizades com mafiosos locais, planeje colocá-lo para correr na Nascar, uma das categorias mais importantes do automobilismo norte-americano. Paralelamente a isso o Motorista (o personagem de Gosling não tem nome) começa a entrar na vida de Irene, sua vizinha, e Benício, o filho dela, que vivem sós a espera do marido de Irene e pai de Benício, Standard, que está na cadeia prestes a ser libertado.

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Com suas luvas e sua jaqueta acetinada o Motorista sabe quem é, qual o seu lugar e o que deve fazer. 

Já aviso de antemão: por mais que eu tenha tentado, acabei não conseguindo fugir dos spoilers. Há vários no texto abaixo e se você se importa com isso (como eu) deveria parar de ler agora. Bom, eu avisei. A condução de Refn (premiada em Cannes, talvez o único grande prêmio que se rendeu a Drive) é precisa e meticulosa. Os silêncios do filme (em especial os do motorista) são tão ou mais significativas que os diálogos. É preciso ousadia para fazer um filme onde muito do que é dito de fato não é dito, mas subentendido em olhares, gestos e pausas. O Motorista nos é apresentado numa primeira cena de prender o fôlego, uma perseguição automobilística pelas ruas de Los Angeles que culmina num jogo dos Lakers. A sequência é fantástica e poderia estar em qualquer filme da série Velozes e Furiosos. O Motorista é caracterizado ali sem dizer uma única palavra, além das que disse no telefone antes de calçar suas luvas, vestir sua breguíssima jaqueta “de motorista” e entrar no carro, onde ele se transforma. Diversas analogias podem ser feitas. Eu pensei no mundo virtual, onde muita gente tímida troca de nome e “veste-se” com um avatar qualquer tornando-se arrojado e corajoso. O que se percebe é que essa vida noturna, cheia de confiança e riscos, cada vez mais tornou-se, para o Motorista, a sua vida principal. A sua vida diária é quase que só um intervalo entre as noites, com obrigações (trabalho, sono, comida) que são cumpridas burocraticamente. Ryan Gosling, com a representação que fez, ganhou meu respeito (não que ele se importe muito com isso…). Um personagem cuja profundidade não é compreendida nem por ele próprio, um homem que não tem nome e que se expressa pelo olhar, pela imobilidade e pela ausência de palavras é um papel muito, mas muito complicado mesmo. E Gosling cumpre a missão com louvor.

A grande virada do filme é a entrada da vizinha Irene (Carey Mulligan, sempre lindinha) na vida dele. Não fica claro se eles eram vizinhos há muito tempo ou se o Motorista havia se mudado há pouco para o prédio. Uma das marcas do mundo de hoje é o quanto conseguimos estar absurdamente longe mesmo estando muito perto, enfim. O Motorista sente-se atraído por Irene e pelo seu filho Benício (Kaden Leos), mas nunca fica claro se o interesse dele é sexual ou se simplesmente é uma carência muito grande, uma gigantesca falta de afeto na vida. Essa confusão sobre o vínculo que começa a surgir entre Motorista e Irene não é apenas dos espectadores. A impressão que temos é que os personagens também estão perdidos e não sabem o que querem e o que esperam um do outro. A cena mais bonita do filme acontece quando Motorista leva Irene para um passeio noturno de carro. Ali, no seu ambiente de segurança, usando suas luvas de motorista, ele sente-se seguro. E naquele momento ele tem alguém com quem dividir isso. Nada acontece entre eles. Ou melhor, algo acontece sim: em meio a um silêncio denso e quente, um silêncio que não é constrangedor, mas sim um silêncio de cumplicidade, a mão enluvada dele pega a mão dela sem uma troca de olhar sequer e as duas se agarram, e apenas isso. É um carinho. É testemunhal. É estar juntos vivendo aquele momento. É puro, etéreo e lindo. Mesmo quando há o contato físico, há algo estranho, porque não era para ser aquilo. Enfim, certas cenas, como a do elevador, só assistindo para (tentar) entender. As necessidades emocionais (e não sexuais ou fisiológicas) do Motorista são externadas quando vemos a sua relação com Benicio, o filho de Irene. Ao contrário do que se poderia pensar num primeiro momento não vemos o personagem se aproximar da criança apenas para aproximar-se da mãe. Ele realmente torna-se amigo de Benício, dividindo com ele coisas banais como um doce ou algumas horas no sofá. Se em algum momento pairam dúvidas sobre a intenção do motorista junto a Irene e Benício, elas se desfazem quando Standard (Oscar Isaac), o marido de Irene e pai de Benício sai da cadeia. E é quando começa o terceiro (e mais incrível) ato do filme, onde temos uma série de reviravoltas que encaminham o filme para o final, que não poderia ser diferente. Os destinos de cada um dos personagens parecem condicionados pelos seus nomes: Benício, a criança, é uma imagem do bem. Todos que se relacionam com ele tem como retorno momentos bons. É a relação segura e pura, da qual sabemos exatamente o que esperar, sejamos a mãe, o pai ou o amigo. Irene tem que ser forte. Ela é mãe solteira, apesar de ser casada. Ela tem uma criança para cuidar e todas as preocupações de quem tem um marido presidiário. Para mim seu nome é uma corruptela de iron, que significa ferro em inglês. Standard, o marido de Irene, é um homem comum. Para sobreviver na cadeia fez promessas e contraiu dívidas, como a maioria das pessoas faz. Ele não é um herói, mas também não é um vilão. Ele sinceramente quer fazer as coisas certas, mas a vida muitas vezes não deixa que façamos só o que queremos. E aí há o Motorista. Ele não tem nome. Como muita gente hoje em dia, ele não tem identidade. Ele é um trabalhando nos estúdios. É outro trabalhando nas garagens. É um terceiro quando é motorista de fugas. E quem ele é quando se relaciona com as pessoas? Nem ele sabe. Isso é um problema? Não sei. É?

A história é embelezada pela belíssima paleta de cores de Newton Thomas Sigel. Sigel tem como seus principais trabalhos uma longeva parceria com Bryan Singer (Os Suspeitos, 1995; X-Men: O Filme, 2000; X-Men 2, 2003 e Superman: O Retorno). Também trabalhou em “Três Reis” (Three Kings, David Russell, 2000) e foi o diretor de fotografia do piloto de “House”, em 2004. O próprio diretor de fotografia explica que a inspiração visual do filme foram filmes da década de 70. As cores estão muitas vezes supersaturadas e as frequentes explosões de luz exploram bem o sistema digital. Drive, para minha surpresa, não foi filmado em película e sim só com câmeras digitais, com o que Sigel nos dá um atestado da maturidade do cinema digital e sua capacidade de ir muito além da ficção científica e das megasuperproduções. Sigel trabalhou com um sistema chamado ALEXA e fez a correção das cores, ora vejam, com o Hipstamatic, um aplicativo de iPhone. Segundo o próprio, o aplicativo ajudou principalmente a testar de maneira muito rápida que tipos de filmes e lentes eles deveriam utilizar para criar a sua Los Angeles noturna. O resultado são cenas noturnas belíssimas, em especial as cenas com o carro. A lembrança que vem a mente é das cenas viagens espaciais da Millenium Falcom, uma lembrança… dos anos 70. Sobre a fotografia do filme e o trabalho de Sigel há uma entrevista bem interessante e técnica (em inglês) em http://www.hdvideopro.com/display/features/a-boy-and-his-car.html?start=1.

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Não é o que você está pensando. Quer dizer, talvez seja, um pouco. Ou não…

Ryan Gosling e Carey Mulligan, segundo Refn e Sigel, são a razão de ser do filme. E nenhum dos dois decepciona. Mulligan é uma atriz britânica que vem crescendo. Apareceu pela primeira vez com 20 anos em 2005 em “Orgulho e Preconceito” (Pride & Prejudice, Joe Wright) como Kitty Bennet, uma das irmãs mais novas de Keira Knightley. Foi excelentemente bem em “Educação” (An Education, Lone Scherfig, 2009), um filme muito bonito com um roteiro nem tão bacana e convenceu como filha de Michael Douglas no bom “Wall Street: O Dinheiro Nunca Dorme” (Wall Street: Money Never Sleeps, Oliver Stone, 2010). Todos esses são bons trabalhos, mas em Drive é que Carey dá um salto. Dessa vez ela não é menina, ela é mãe quase solteira e esposa de um presidiário. A química com Gosling faz com que torçamos pela personagem, apesar do dilema moral no qual ela se encontra a partir de determinado momento.

E aí chegamos em Gosling. Ele começou a chamar a atenção (pelo menos a minha, enfim) em 2011 com “Tudo Pelo Poder” (The Ides of March, George Clooney, 2011). O ótimo filme de Clooney já havia colocado Gosling em evidência, mas foi Drive que criou um megahype em cima dele. Fazia tempo que eu não sentia (porque é muito mais que ver) uma atuação como a dele. Um protagonista que não fala, mas que olha. Que mexe as mãos. E que é extremamente expressivo. Tenho dificuldade de falar do trabalho do Gosling sem cair em clichês. Enfim, não vou fazê-lo, então.

Como se não bastasse tudo isso ganhamos de presente a trilha sonora de Cliff Martinez. Uma trilha que, de novo, para mim, é a cara da nossa época: feita nessa época, mas não queria estar aqui. Idealizando algum lugar entre os anos 70 e os 80, quando as coisas eram melhores, mesmo que quem ache isso não tenha vivido esse tempo. A trilha é uma moldura linda para um filme extremamente sensível.

Drive, enfim, é um filme sobre carência afetiva. Sobre pessoas rodeadas por pessoas e ainda assim sós, terrivelmente sós. Drive é o espírito da segunda década do século XXI, onde ainda não voamos pelo espaço sideral mas já estamos encapsulados, com nossos sentimentos e sensações presos e ansiando por contato humano. Assistam Drive. Quer dizer, SINTAM Drive. O filme merece.

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