Reflexo

reflexo
imagem: Thiana Sehn

por Clarice Casado

Não há nada mais narcísico do que ter filhos. Será que alguém já analisou esse assunto sob esta ótica? Em tempos de Facebook e Twitter, quero em poucas linhas desenvolver este meu raciocínio, porque hoje em dia, raro é alguém que pare para ler mais de vinte linhas, a não ser que seja obrigado a fazê-lo: trabalho ou estudo.

Assim, sigo em frente, porque se eu continuasse o parágrafo anterior, estava arriscando a perder metade de meus leitores…!

Por que temos filhos? Basicamente, primeiro, porque é, de regra, a ordem natural das coisas, depois que encontramos o parceiro que julgamos o certo. Segundo, porque queremos formar uma família, perpetuar a espécie, blá, blá, blá. Afora isso tudo, motivos aparentemente óbvios, penso que ter filhos é uma forma de fazer um “mini você” para ser amado para sempre. Um carinha que é uma mistura sua e do seu parceiro, podendo pender a parecença mais para um ou para outro. Se não for semelhante fisicamente com o pai ou com a mãe, o será nas atitudes, no modo de falar, no andar, sei lá, algo naquela criaturinha você pode ter certeza que vai encontrar que lembra muito alguém que você conhece muito bem: você mesmo!

Não estou aqui querendo dizer que temos filhos com o intuito consciente de fazer “mini-nós”. Não, a coisa é inconsciente. Porém, quando aquela coisinha entrar em sua vida, começar a tomar forma, e desenvolver jeitos e trejeitos, não tem solução: quando menos você esperar, vai estar incondicionalmente apaixonado… Por você mesmo! Em versão revisada, atualizada, melhorada, 2.0, com teto solar, ar e direção automática!

É a natureza te mostrando que pode fazer mais, e sempre melhor. E é você tendo que admitir que é um narcisista incurável, em todos os momentos que o diminuto indivíduo fará você babar, ou até chorar, sem perceber: quando ele balbuciar a primeira palavra ou der o primeiro sorriso, quando sair correndo pela casa, meio trôpego, pela primeira vez; toda vez que cantar e dançar nas apresentações da escola, quando tocar Let It Be no piano dentro de uma sala lotada, quando rir às gargalhadas de algo sem graça que você fez, quando disser que você está lindo mesmo nos dias em que você está se achando um lixo, quando te mostrar um desenho que ele levou duas horas para fazer, quando se emocionar no show do Paul McCartney, quando soltar frases de admiração ao ver quadros de Monet, quando disser que te ama mais que o infinito, quando pedalar com você na beira da praia até cansar, quando te sussurrar no ouvido uma canção de amor no dia em que você voltar do funeral de sua avó, quando te der um presente feito por ele mesmo, quando mostrar a você que já sabe se virar sozinho, quando te falar que nada é mais forte que você do que você mesmo, enfim, quando te mostrar que você se tornou absolutamente dispensável em sua vida, e, ainda assim, vir te dar um beijo de boa noite.

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