John Zorn: o mestre da música experimental vem ao Brasil

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por Cassiano Rodka

Descobri o som do John Zorn lá por 92, quando o Mike Patton participou de um disco dele chamado “Elegy”. Eu já conhecia o trabalho do cara como produtor, pois ele havia assinado a produção do disco de estreia do Mr. Bungle. Mas o som do Zorn, eu não tinha ideia do que era. E continuei não tendo ideia quando escutei “Elegy” pela primeira vez. Um som esparso, com barulhos e efeitos sonoros mesclados a belas linhas musicais. Era puro experimentalismo. E eu fiquei fascinado com aquilo. As melodias não eram assobiáveis, as músicas não ficavam na cabeça, mas tinha algo de intrigante naquele som que me fazia querer revisitá-lo diversas vezes. A partir dali, mergulhei no vasto universo musical do John Zorn, me aventurando em algumas das mais vertiginosas viagens musicais que já fiz.

Dentre os vários projetos do cara, um se destacou e foi ganhando espaço cada vez maior no meu gramofone. Tratava-se de um quarteto que mesclava jazz com música judaica. O nome da banda era Masada. Em uma epifania, John Zorn criou diversas músicas que compuseram o primeiro songbook do Masada, dando vida a algo que ele considerou como a nova música judaica. Essas canções foram sendo lançadas aos poucos, de 1994 a 1997, em 10 discos de estúdio com a formação clássica da banda: Joey Baron na bateria, Greg Cohen no baixo acústico, Dave Douglas no trompete e o próprio Zorn no saxofone. Com um segundo songbook composto, John Zorn resolveu lançar as novas músicas também aos poucos. Mas, dessa vez, decidiu que cada disco seria interpretado por uma banda diferente. Esse segundo conjunto de canções, intitulado Book of Angels, já está em sua 18º volume e surpreende a cada novo disco.

Qual não foi minha surpresa quando descobri que o cara estaria vindo para o Brasil com o Masada para um show no Cine Joia em São Paulo. O local é pequeno, perfeito para um show desses. A plateia ficava de pé, o que talvez não fosse o ideal, mas funcionou bem. Acho que colaborou com o clima de show de jazz dos anos 40, com as pessoas gritando e entrando em transe. A exaltação às vezes era desmedida, prejudicando os momentos mais silenciosos. Mas é difícil dar atenção a isso quando John Zorn está palco fazendo seu sax conversar eloquentemente com o trompete de Dave Douglas. A conexão entre os dois é inebriante. Joey Baron na bateria é um show à parte. O domínio que ele tem do instrumento é impressionante, e a alegria com que ele toca contagia. Para completar o quarteto, Greg Cohen no baixo é um show de habilidade. Todo projeto do Zorn em que ele toca, eu vou atrás sem pestanejar. Acho ele muito bom e, ao vivo, me deixou realmente boquiaberto. John Zorn, além de tocar seu saxofone, coordena a banda como um maestro. Aponta para um, aponta para outro, faz códigos que com as mãos para que os músicos parem, toquem mais forte, entrem numa parte ou outra da música. É muito bacana ver ele maestrando e acredito que seja o que sustenta a incrível sinergia entre o quarteto. O som do Cine Joia também ajudou muito, dava para escutar cada nota produzida pela banda, mesmo as mais sutis. Depois de uma hora de som, o quarteto ainda voltou para mais dois bis – coisa rara, eles normalmente fazem um só! Show terminado, alma lavada. John Zorn não só passou pelo Brasil, mas deixou sua marca. Quem estava lá não esquecerá.

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imagem: Cassiano Rodka

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