Cavalo de Guerra (War Horse, Steven Spielberg, 2011)

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por Pedro Cunha

Poucos diretores sabem lidar com a emoção tão bem como Steven Spielberg. Talvez nenhum consiga trabalhar com ela da maneira como ele faz, expondo-a e jogando-a na nossa cara. Admitamos, oquei, que ele já foi melhor. A primeira década do século XXI não foi boa, se considerarmos de quem estamos falando. Spielberg apareceu naquela turma que salvou Hollywood no final dos anos 70 e, juntamente com George Lucas, ajudou a definir um gênero novo no cinema, o filme de ação. Seu “Tubarão” (Jaws, 1975) tornou-se uma referência  nos filmes de suspense e “Os Caçadores da Arca Perdida”, em 1981 provou para os executivos do cinema que Spielberg era uma aposta confiável para fazer multiplicar os seus milhões. “Os Caçadores…” ainda criou um herói do calibre de Indiana Jones, que não existia em livro, seriado ou vídeo game. Ele nasceu no cinema e tornou-se uma marca do cinema, coisa que hoje em dia é muito difícil de acontecer.

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Em “Caçadores da Arca Perdida” Spielberg ajudou a definir o gênero “Ação”. Poucos sabem da participação especial de Daryl Hannah nessa cena. 

Spielberg sempre foi prolífico e trabalhou (bem) as diversas possibilidades do cinema, como a ficção científica e o drama de época. De “Contatos Imediatos de Terceiro Grau” (Close Encounters of the Third Kind, 1977) até “A Cor Púrpura” (The Color Purple, 1985), os variados filmes de Spielberg tinham em comum a capacidade de mexer com as emoções do espectador. Ainda nos anos 80 acabou ganhando uma pecha de fazer filmes “para as massas”, tendo assim o seu reconhecimento pela Academia se tornado mais complicado. Essa pecha, diga-se de passagem, é verdadeira: a assinatura de Spielberg passou a ser sinônimo de cifras astronômicas e sucesso inconteste de público. Já a crítica…

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Se você viu “A Cor Púrpura”, admita: você chorou. 

1993 foi um dos anos mais importantes da carreira de Spielberg, que lançou dois projetos naquele ano: o primeiro deles, Parque dos Dinossauros (Jurassic Park), comprovou a veia fazedora de verdinhas de Spielberg e foi, durante muito tempo, a maior bilheteria da história do cinema. A aventura do diretor com os répteis também serve para mostrar uma outra faceta de Spielberg: é um diretor que está sempre na vanguarda técnica. Ele, James Cameron e alguns outros são aqueles diretores que estão sempre exigindo que a tecnologia do cinema ande mais alguns passos. Mais um motivo para saudarmos Spielberg. Ah, e o segundo projeto dele em 1993? Foi filme que ele fez para a Academia. “A Lista de Schindler” (Schindler’s List) é um dos grandes filmes dos anos 90 e finalmente com ele veio o (tardio) reconhecimento da crítica e da Academia ao talento de Spielberg. É o melhor filme dele? Para mim, não está nem entre os cinco melhores. Mas foi com ele que o diretor conseguiu sair da festa da Academia com as estatuetas de Melhor Filme e Melhor Diretor. O reconhecimento da Academia rendeu-lhe mais uma estatueta de Melhor Diretor em 1998 por “O Resgate do Soldado Ryan”, que na disputa pelo Melhor Filme perdeu para um filme inferior, “Shakespeare Apaixonado” (Shakespeare in Love, John Madden).

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Spielberg e, enfim, suas estatuetas por A Lista de Schindler 

Depois do surgimento, nos anos 70, da afirmação, nos anos 80 e do reconhecimento, nos anos 90, veio talvez (não, com certeza) a pior década de Spielberg como diretor. Em 2001 Spielberg retomou um projeto do falecido Stanley Kubrick. “AI – Inteligência Artificial” (A.I., 2001) reconta, de certa maneira, a fábula do Pinocchio. O resultado final, para mim, é hediondamente desastroso. O final de AI é um dos 5 piores finais de filmes da história do cinema. Em 2002 Spielberg lançou “Minority Report – A Nova Lei” (Minority Report), thriller de ficção científica que teve uma recepção… xoxa. Estaria ele perdendo a mão? Se essa era uma especulação, começou a ficar mais forte com a desproposital refilmagem de “A Guerra dos Mundos” (War of the Worlds, 2005), onde Tom Cruise salvava o mundo em mais um filme desnecessário da biografia do diretor. Desnecessário, aliás, é a palavra que o acompanha nesses tempos. Qual outro adjetivo podemos usar para “Indiana Jones e o Reino da Caveira de Cristal” (Indiana Jones and The Kingdom of The Cristal Skull, 2008) que não seja “desnecessário”? E isso está vindo de quem é fã de carteirinha do arqueólogo americano… Da filmografia de Spielberg nos anos 2000 salva-se, na minha opinião, “Prenda-me Se For Capaz” (Catch Me If You Can, 2002), e ainda assim principalmente pelas fantásticas atuações dos dois protagonistas, Tom Hanks e Leonardo DiCaprio.

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Precisava mesmo disso?

O que será de Spielberg nessa nova década? O diretor começa a tentar nos mostrar com Cavalo de Guerra (War Horse) que ainda não perdeu a mão. Cavalo de Guerra é um filme antigo de Spielberg. Ou ao menos se parece com um. A trajetória de um cavalo durante a Primeira Guerra Mundial, passando pelas mãos de ingleses, franceses e alemães é contada sob o ponto de vista do próprio cavalo. Os personagens “humanos”, em sua maioria, são passageiros no filme. Entram e saem, enquanto o cavalo fica. Spielberg acerta a mão no filme de guerra, como já havia feito em Império do Sol (Empire of the Sun, 1987). A Primeira Guerra mostrada por Spielberg deixou esse professor de história que vos vala encantado: a cena na qual a carga de cavalaria do exército britânico cai sobre o acampamento alemão é primorosa e linda: a cavalaria no trigal, a incidência da luz… tudo contribui ali para a criação de um espetáculo plástico. E o desfecho da cena mostra bem o significado da Primeira Guerra Mundial: o ocaso da guerra romântica, da guerra clássica e o surgimento de um novo tipo de guerra, marcado pelo aço, pela industrialização e pela máquina.

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Albert Narracott assiste o nascimento do cavalo Joey como um cineasta que enquadra uma cena

Dentre as atuações humanas do filme temos vários bons atores fazendo bons trabalhos. Jeremy Irvine faz Albert Narracott o “dono” do cavalo no início do filme, é convincente no seu papel de jovem do interior da Inglaterra no início do século XX. Mas ele ali representa, ainda o romantismo e o passado, o século XIX. Tom Hiddleston,  o Loki de “Thor”, encarna um capitão da cavalaria inglesa que representa, também, a hombridade e a fibra moral de um soldado do século XIX. Emily Watson e Peter Mullan fazem os pais do jovem Albert e Mullan, especialmente, está muito bem no papel de velho amargurado.

Spielberg torna o filme ainda maior quando opta, acertadamente, por não escolher um lado na Primeira Guerra. Não há bonzinhos e malvados, há uma guerra onde todos são cruéis e todos perdem, como diz um soldado francês em determinado momento do filme. A cena na qual um soldado britânico e um soldado alemão arriscam-se na terra de ninguém entre as trincheiras para tirar o cavalo do meio dos arames farpados emociona é já é uma das grandes cenas do cinema em 2012.

Cavalo de Guerra entra com força na disputa pelo Oscar de melhor filme e ainda disputa mais cinco categorias: Direção de Arte, Mixagem de Som, Edição de Som, Fotografia e Trilha Sonora. Aí cabe um parêntese: a indicação de John Williams pela trilha de Cavalo de Guerra é a sua QUADRAGÉSIMA SÉTIMA indicação para a categoria. Não, você não leu errado. Em 2011 Williams compete com dois filmes, inclusive: além de Cavalo de Guerra, sua trilha sonora de Tintin e O Segredo do Unicorne também disputa o prêmio. Isso não é novidade para Williams, parceiro de longa data de Spielberg que já concorreu com dois filmes 10 vezes, tendo concorrido com TRÊS filmes em 1973 e 1995.

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