Nosso tempo

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por Marcella Marx

Intrigantes são aquelas memórias que nos perseguem por toda a vida, se estamos aqui ou ali, elas são nossa luz e sombra. Interessante também é o momento em que elas reaparecem, como se fossem chamadas. Ontem uma dessas me interrompeu no jantar, inspirada por um restaurante cheio de objetos antigos, dentre eles, moedores de carne. Lembrei da vovó na cozinha do sítio moendo a carne num daqueles e eu ajudando a encher as linguiças, muito entretida com o varal armado para secar as tripas. Um tempo outro, tão diferente que é até difícil de acreditar que um dia aconteceu. À tardinha no sítio, vovô chegava com uma lata de mangas, sentávamos todos na sacada em frente ao pé de caju e ele descascava uma a uma e ia nos passando. As mangas não eram cortadas, nós chupávamos até o caroço. Terminávamos e íamos direto pro chuveiro. Havia dias em que combinávamos de acordar bem cedinho, ainda escuro. Vovô levava o Nescau, nós descíamos juntos para ver o novo bezerro, e aproveitávamos para beber o leite espumante que o Sr. Olímpio tirava na hora. Nossas brincadeiras eram simplesmente subir nas jabuticabeiras, fingir que tirávamos água do poço, andar a cavalo, ir até o lago pegar argila, criar esculturas e nos lambuzar inteiros, colher abacate, laranja, limão, cheirar o fedido do jatobá (não sem antes olhar bem para o chão, pois o vovô sempre dizia que as cobras adoravam essa árvore). Também adorávamos brincar com os pintinhos da granja e colher penas coloridas para dar de presente para mamãe. Lá começaram as maiores aventuras de nossas vidas, quando, numa noite, vovó acendeu o fogo e a casa foi tomada por abelhas que haviam feito sua colmeia dentro de nosso fogão à lenha. Lá, também conhecemos nossos primeiros grandes heróis, vovô e vovó, que corajosamente lutaram contra as abelhas durante toda a noite para retomar nosso território. De tempos em tempos, para nossa alegria de sentir medo, aparecia uma cobra e elas inspiravam as histórias de terror contadas pelo vovô à noite, ao som dos morcegos que habitavam nosso telhado. Lá, nessa casinha vermelha e branca, de chão vermelho, envernizado pela vovó, com forro de madeira e banheiro cheio de pererecas é que um dia fomos crianças.

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