Os desamores e a solidão de Chico Buarque

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imagem: Cassiano Rodka

por Cassiano Rodka

“Quem me vê, vê nem bagaço/Do que viu quem me enfrentou/Campeão do mundo/Em queda de braço/Vida veio e me levou”. Com a letra desiludida de “O Velho Francisco”, Chico Buarque deu início ao segundo show da turnê do disco “Chico” em Porto Alegre, dando as direções do tema dessa apresentação: desamores e solidão. Assim como na turnê anterior, do disco “Carioca”, o compositor decidiu o setlist baseado no clima das canções do novo álbum. Sendo assim, o show tomou um rumo calmo e intimista com muitos desencontros amorosos nas letras.

Mas os desencontros não surgiram apenas nas palavras de Chico. Alguns problemas técnicos atrapalharam a apresentação na primeira meia hora. Logo no primeiro acorde da música de abertura, uma queda de luz pegou de surpresa tanto a plateia quanto os músicos. O apagão aconteceu novamente no começo de outra canção, criando uma certa tensão durante o início do show. Os problemas acabaram interferindo nas caixas de retorno dos músicos, fazendo com que Chico interrompesse uma música para arrumarem o som. Talvez tenha sido esse clima tenso que fez o cantor entrar antecipadamente em “Choro Bandido”:

Passada a turbulência, a banda foi pegando ritmo ajudada pela emoção do público, que não deixou os problemas técnicos nem chegarem perto daquela conexão mágica com o belo cancioneiro do cantor. E isso que Chico não abriu concessões em suas escolhas musicais para o setlist do novo show, incluindo diversas canções mais obscuras, como “A Violeira” e “Sob Medida”, ambas feitas para filmes de Miguel Faria Jr. Dos seus discos mais antigos, Chico trouxe “Desalento” e “Sonho de um Carnaval”, garantindo a felicidade de muita gente. Os sucessos “Anos Dourados” e “Bastidores” garantiram chuvas de aplausos e uma cantoria baixinha acompanhando o músico.

Da peça de teatro Calabar, o compositor entoou a letra de “Ana de Amsterdam” com um sabor especial de vitória sobre a ditadura já que, na época do lançamento da música, a censura proibiu o texto do cantor, forçando Chico a incluir a canção no disco em versão instrumental. Da Ópera do Malandro, o cantor pescou três preciosidades: “O Meu Amor”, “Teresinha” e “Geni e o Zepelim”, que ganhou um arranjo espanholado insuperável. Chegou a ser injusto com a bossinha “Barafunda”, que foi escolhida para seguir a música e passou quietinha, com medo de ser cuspida.

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imagem: Cassiano Rodka

Para dividir os vocais em “Sou eu” e “Tereza da Praia”, Chico chamou seu baterista e parceiro musical de décadas, Wilson das Neves. Sempre simpático e sorridente, o sambista conquistou facilmente os seus merecidos aplausos. Quebrando um pouco a calmaria da apresentação, o compositor interpretou o baião/rock de “Baioque” para minha surpresa e grande alegria. Apesar de gostar da inclusão da música, confesso que achei que ela ficou devendo um pouco em termos de energia. Chico ainda arriscou um rap onde conta como conheceu o músico paulistano sensação do momento Criolo. No fim da música, ele canta o refrão alterado de “Cálice” que ficou conhecido na voz do rapper seguido do seu refrão original.

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imagem: Cassiano Rodka

Depois de terminar o show cantando os versos tristes de “A Felicidade” de Tom Jobim, o compositor voltou para o bis com as duas únicas músicas do setlist que haviam sido tocadas na turnê anterior: “Futuros Amantes” e “Na Carreira”. E a sensação que se tinha na plateia era exatamente aquela cantada por Chico no palco: “Hora de ir embora/Quando o corpo quer ficar”.

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