A quem interessar possa

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imagem: Cassiano Rodka

por Clarice Casado

Um dia ouvi um poeta dizer que o caminho se faz ao caminhar. Pois eu digo que os melhores caminhos são, sem sombra de dúvidas, os que fazemos ao caminhar.

Minhas crises me dão poemas, e as historinhas cotidianas (minhas e dos outros) me dão crônicas, fazendo com que essas historinhas deixem de ser apenas “inhas” para ser histórias. Faz um bom tempo que não me dão contos, porque os contos não podem ser-me dados. Os contos não vêm assim, como quem não quer nada. Os contos nunca me vieram tranquilos. Eles moram em mim, mas ficam adormecidos a maior parte do tempo. De vez em quando, os ouço murmurar, sussurrar-me coisas que me metem medo. Escolho não escutá-los. E ali ficam, até o dia em que eu criar coragem e pedir para que eles falem mais alto.

Os poemas. Há uma categoria de poemas vem se chegando de mansinho, assim, quietinhos, e vão se instalando aos poucos, dentro de mim. Lá ficam por dias, mais dias, por vezes semanas. Aparecem em sonhos, ou nas falas dos meus filhos, ou nas canções dos Beatles, ou nos filmes do Woody Allen, ou nos livros do Erico Verissimo, do Saramago, do Mario Quintana ou da Sylvia Plath; ou nas conversas com quem me rodeia, ou nas cartas de meu pai. E vão aos poucos pro papel, e ali se deitam da maneira que acharem mais confortável. E então eu lhes cutuco os versos, mexo-lhes nas letras e palavras. Alguns reclamam, mas eu não ligo. Sopro-lhes o desnecessário. Por vezes, coloco mais que o necessário. Contemplo o resultado, deixo-os dormir. Quando acordam, faço tudo de novo. Há alguns que dormem por dias. Há os que sei que ficaram prontos. E há aqueles que nunca ficarão. Ainda assim, resolvo que podem ir pro mundo.

Há outros, porém, que vêm violentos, batendo portas e janelas, me sacudindo com força por dentro. São esses os meus preferidos. Escrevo-os como que tomada por um transe quase mediúnico. Não pedem muita licença para sair. Saem, apenas, desavergonhados, sem rótulos ou pudores. Não esperam e não me perguntam se estão “bonitos”. Precisam sair, e o fazem, de qualquer jeito. Estes, em geral, são os melhores. Podem não ser os mais bem talhados, esculpidos, trabalhados. São, entretanto, os mais verdadeiros.

Meus melhores caminhos, como eu dizia, são os que eu construo a cada passo, à medida em que ando. Os mais planejados são, de longe, os mais monótonos. A estrada menos percorrida acaba sempre sendo a melhor opção, porque invariavelmente traz fantásticas descobertas e desafios. E é por tudo isso que sigo caminhando, de preferência, sem rumo algum.

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