O equilibrista

Equilibrista.jpg
imagem: Cassiano Rodka

por Marcella Marx

O equilibrista calça os sapatos e uma linda calça azul com flores vermelhas. Arruma a gola amarela de sua camisa. Passa as mãos pelo pote de gel e despeja uma camada generosa sobre os cabelos ainda molhados. Dá uma última conferida nos sapatos e aperta os cadarços. Está pronto para sair mais uma vez do chão. Ele começa se equilibrando no ônibus, preso à porta entreaberta, depois se joga com um pulo certeiro e alcança a guia. Sobre a mesma avança, com um rebolado típico desse passo elevado. Pula as poças d’água com grande elegância, mas não sem se molhar. Sobe as escadas de três em três degraus, mesmo assim a maioria não o vê: aprendeu a ser discreto desde pequeno. Sua mãe lhe ensinou a arte da delicadeza sem nem saber que essa seria mesmo a base para sua profissão. O equilibrista se esgueira por entre as máquinas da cidade e, às vezes, teima em não acreditar que elas são regidas por pessoas, como ele. Finalmente chega ao seu destino: centro da cidade. Estica seu fio, amarrando-o em dois postes. Gruda-se nele, braços, pernas e tronco. Ergue-se o homem sobre o fio e, lá de cima, ele sente medo.

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