Hiato

por Pedro Cunha

Deixa eu passar um pano úmido por aqui. Aliás, vou varrer também. Esse espaço estava todo abandonado e jogado às traças… Desculpem-me, por favor! Uma série de questões pessoais acabou fazendo com que eu não conseguisse cumprir meus compromissos com o Página Dois. Agora, com tudo resolvido, espero conseguir voltar à minha velha regularidade de postar todas as quintas-feiras. Sinto-me na obrigação de, nessa retomada, falar um pouco dos filmes que andei assistindo por esses tempos.

Eu vi “X-Men: Primeira Classe” (X-Men: First Class, Matthew Vaughn, 2011). O filme deixa de lado a trilogia cinematográfica já existente (o primeiro filme (bom) de Bryan Singer, o Segundo (ótimo) também dele e o terceiro (confuso) de Brett Ratner) e o filme avulso de Wolverine (X-Men Origins: Wolverine) e trabalha com coisas que teriam acontecido antes do primeiro filme, sem, entretanto, afirmar se há ou não uma conexão entre eles. Deixando de lado a confusa cronologia dos 50 anos de história dos X-Men o filme investe numa trama própria, redefinindo e reapresentando alguns personagens. Se o roteiro tem alguns furos o filme se sustenta numa produção caprichada e em duas excelentes atuações: James McAvoy e Michael Fassbender representam os protagonistas, os jovens Charles Xavier e Magneto, respectivamente. Se ambos conseguiram fazer valer os papeis Fassbender faz valer o filme. Isso que a missão dele era ingrata, viver na juventude um personagem que, em idade mais adulta, já foi interpretado por nada mais, nada menos que Sir Ian “Gandalf” McKellen. O ator alemão (que  já tinha sito ótimo em “Bastardos Inglórios) deu conta do recado e nos deixa, ao fim do filme, com vontade de quero mais. Não sei se haverá “X-Men: Segunda Classe” (até porque, vamos combinar, esse título não ajudaria…), mas ele teria que começar obrigatoriamente por Michael Fassbender.

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“Meia Noite em Paris” (Midnight in Paris, 2011) é um filme de Woody Allen. Só essa frase já seria suficiente para saber a minha opinião sobre ele. Eu sou um fãzoca confesso do narigudo mais antissocial de Nova Iorque, então você sempre tem que levar isso em conta quando ler a minha opinião sobre ele ou qualquer filme dele. Tirando fora meus arroubos de fã, “Meia Noite em Paris” foi elogiadíssimo. E com razão. Allen saiu-se muito bem em fugir da armadilha cinematográfica que Paris representa mostrando a cidade e todos os seus pontos clássicos no primeiro minuto do filme, algo do tipo “oquei, aí está o que vocês queriam, agora me deixem contar a minha história”. O filme se passa em Paris mas não tem a Torre, o Arco e o Rio o tempo inteiro. Quando aparecem, é como pano de fundo mesmo. O discurso do filme volta a uma ideia que vem sendo recorrente nesses filmes da “terceira idade” de Allen: aproveite a vida, o aqui e o agora. Viva o hoje, não o amanhã e muito menos o ontem. Seja feliz. Pode parecer simples, mas os dilemas de Allen e de sua persona surpreendentemente bem encarnada por Owen Wilson nos fazem rir e pensar em situações e momentos vividos por nós mesmos. E, se não bastasse tudo isso, ainda tem a Carla Bruni. Já estou ansioso pelo próximo trabalho de Allen, uma homenagem a Fellini filmada na Itália. Espero que seja ótimo como “Meia Noite em Paris” ou “Tudo Pode dar Certo” (Whatever Works, 2009) e não meia-boca como “Você Vai Conhecer o Homem dos Seus Sonhos” (You Will Meet a Tall Dark Stranger, 2010), de longe o piorzinho dele desde a “guinada europeia” dele.

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Saindo fora um pouco do esquema “cinemão”, assisti um argentino chamado “Chuva” (Lluvia, Paula Hernández, 2008). Os argentinos e uruguaios, recentemente, andam com filmes excelentes. Já falei sobre isso, aliás, em alguns posts. Esse não foge à regra. “Chuva” é a história de uma mulher que busca fugir de si mesma e, no caminho, cruza com um homem que tenta desesperadamente se encontrar. É um filme sobre silêncios, sobre olhares e sobre pessoas. É um filme triste, e um filme bonito. E passa-se em Buenos Aires, que é uma bela moldura também.

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Outro bom filme (e muito triste também) que eu vi nesses tempos foi “A Vênus Negra” (Vénus Noire,  Abdellatif Kechiche, 2010). O diretor e roteirista, um tunisiano que vive na França, conta a história real de Saartje Baartman, uma sul-africana que, no início do século XIX foi para a Europa tentar ser uma estrela e acabou como estrela de um freak show como uma “selvagem” capturada na África. O filme tem cenas fortíssimas e abre portas para reflexões num momento em que discursos racistas e xenófobos cada vez mais ganham curso na Europa. A atriz cubana Yahima Torres está brilhante no papel principal, em sua estreia no cinema. É um filme imperdível. Mas não tenha nada de muito animado para fazer depois de assisti-lo.

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Ah, e eu também assisti “A Árvore da Vida” (The Tree of Life, Terrence Malick, 2011). O que dizer sobre o filme? Bom, é grandioso, pretensioso e beira a megalomania. Eu desisti de tentar entendê-lo. Mas gostei, e muito. E de quebra ele ainda tem Brad Pitt, que cada vez mais se afirma como o Marlon Brando da sua geração. Veja “A Árvore da Vida”. Mas não tente entendê-lo. Os debates entre fé e razão, graça e providência, evolucionismo e criacionismo, destino e niilismo estão todos ali. Malick é um diretor que não faz concessões. Deixe-se levar pela plasticidade das imagens, já que o diretor em alguns momentos chega nos limites do abstracionismo. Sinta o filme, sinestesicamente, e tenha certeza que ele vale pela experiência sensorial, no mínimo. Para mim valeu bem mais que isso. Mas, por favor, não me pergunte o porquê.

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