Uma rosa para a bisa

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imagem: Cassiano Rodka

por Clarice Casado

“- Mamãe, você pede para o vovô levar uma rosa cor-de-rosa para a bisa?
– Claro que peço.
– E como é que ela vai saber que fui eu quem mandei?
– Ela vai saber.”

As flores deixadas para os mortos em seus túmulos sempre foram para mim um grande mistério. Isso me intriga desde pequenininha.

O diálogo que transcrevi logo acima foi travado entre mim e minha filha Angelina, de cinco anos, há pouco menos de um mês. A “bisa” de quem ela fala é a minha avó, Zenyra, que perdemos há quase um ano, em 21 de julho de 2010.

Angelina queria mandar uma flor para a bisa, o que é perfeitamente normal, levando-se em conta que adorava a minha avó. O problema foi saber o que responder quando ela me perguntou como a bisa saberia que foi ela quem mandou a flor. Levar flores para os mortos é um hábito comum na cultura ocidental. É uma homenagem aos que se foram. O porquê das flores? Não saberia dizer. E não estou querendo pesquisar no Google agora, não. É tarde. Mas desde pequena eu ficava pensando, “Como é que os mortos vão saber que seus entes queridos estão lhe levando flores, se eles estão mortos? Se estão embaixo da terra, dentro de um caixão?”. Claro que sempre havia a hipótese, na minha cabecinha infantil, de os mortos estarem vendo aquele gesto bonito lá do Céu. Será que eu de fato acreditava no Céu? Não sei. E até hoje não sei se existe algo depois daqui. Ninguém sabe, afinal.

Mas eu precisava muito escrever hoje isto, porque há exatamente um ano, minha avó estava doente e já desenganada no hospital, e aquele foi o período mais sofrido para mim, até hoje. Fiquei cara a cara com a iminência da morte pela primeira vez em minha vida adulta, e a sensação não foi nada boa. Aqueles dias que antecederam a morte de minha avó foram extremamente angustiantes e geraram em mim momentos de lembranças, questionamentos e resoluções sobre a vida, de um jeito tal, que depois de tudo passado, nunca mais fui a mesma.

Quando a morte veio, soberana e ditatorial, anunciando-se, toda metida a besta, por meio de um telefonema, eu tive a certeza de que minha vida tinha mudado para sempre. Nos dias que se seguiram, um turbilhão de sentimentos invadiu-me de maneira violenta, sacudindo-me no âmago, naqueles cantinhos do ser que não gostamos muito de limpar e nem de revolver. Quando dei por mim novamente, eu era uma outra Clarice, uma outra mulher: eu era uma mulher que minha avó gostaria por certo de ter conhecido, ela que foi sempre tão serena de si e de suas decisões. Eu era alguém tocada pelo dedo tolo e pelo sopro desaforado da morte: eu era alguém mais forte e decidida. Depois disso, só me restava seguir a viver, mais intensamente do que nunca, com a certeza de que qualquer preocupação à toa seria um simples desatino. O hoje é sempre o que importa, e o amanhã é apenas um mero detalhe.

Dorme bem, vó. Bons sonhos.

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