Por Asgard! Thor (Kenneth Branagh, 2011)

por Pedro Cunha

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Aquele que erguer o martelo, se for digno, receberá o poder de Thor

Quando os Estúdios Marvel anunciaram Kenneth Branagh como diretor de “Thor” eu me inclui entre os muitos que acharam a escolha acertada, porém inusual. Branagh se tornou célebre como diretor de adaptações de Shakespeare para o cinema, como “Henrique V” (Henry V, 1989), Muito Barulho Por Nada (Much Ado About Nothing, 1993) ou Hamlet (1995). Além dos filmes shakesperianos Branagh também se notabilizou por uma série de filmes “sérios”, digamos assim. Eu ainda acho “Voltar a Morrer” (Dead Again, 1991) o melhor trabalho do diretor. Nada melhor, diziam muitos, do que um diretor de clássicos shakesperianos para fazer um filme sobre mitologia nórdica. A grande questão que me incomodava era outra, porém: “Thor” seria um filme sobre mitologia nórdica ou um filme sobre quadrinhos? E sendo um filme sobre quadrinhos, conectado, conforme já sabíamos, com as franquias do Homem de Ferro e do Hulk, será que Branagh ia: 1) entender isso? E 2) dar conta do recado?

Tendo finalmente visto o filme, posso responder as perguntas. A primeira eu respondo com um categórico “sim”, ele entendeu isso. “Thor” funciona em harmonia com os dois “Homens de Ferro” e com o segundo “Hulk”, os filmes dos Estúdios Marvel. Já a segunda pergunta… bom, não tenho tanta certeza assim.

O roteiro de “Thor” é a clássica história de redenção: um deus, um príncipe arrogante prestes a se tornar rei. Banido do seu reino e desprovido de poder em função da ira de seu pai e de tramoias ardilosas do irmão invejoso ele parte numa jornada de purgação onde deve mostrar-se novamente digno de usar seu título, suas armas e suas insígnias. Jogado na Terra, onde vai passar pelo seu “Caminho de Santiago”, Thor conhece pessoas, faz amigos e começa a entender a vida dos mortais, inclusive construindo uma relação com a pesquisadora Jane Foster. Simples, você diria. Pois é, eu concordo. Quase um clichê. Com algumas coisas funcionando melhor e outras pior…

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Thor tenta resgatar o martelo Mjolnir no início do filme: ainda não, filhinho. Tem mais duas horas de filme antes disso… 

Falando, primeiro, do que eu acho que funcionou: Os atores principais. Anthony Hopkins provou ser uma escolha acertadíssima para Odin, o Pai de Todos. Aliás fazia tempo que eu não via o Hopkins tão bem em um papel. Ele me lembrou Marlon Brando em “Superman – O Filme” (Superman, Richard Donner, 1978). Tom Hiddleston, um ator de 30 anos sem muitos filmes no currículo foi uma aposta feliz de Branagh para viver Loki, o Deus da Trapaça e o irmão invejoso de Thor. Disse o ator que buscou muita inspiração na trama de Hamleth, um escandinavo e shakesperiano ponto de encontro entre a história de Thor e os filmes do diretor. Mas mesmo que esses dois coadjuvantes fossem bem, nada funcionaria se Thor não convencesse. E Chris Hemsworth, o Capitão Kirk da nova série Star Trek (Star Trek, JJ Abrams, 2009), convence como Thor. Além de ter o “physique du rôle” Hemsworth pegou a essência do personagem. Ainda temos Renée Russo, uma atriz da qual eu gosto muito (Máquina Mortífera 3 e 4, Be Cool – O Nome do Jogo), que infelizmente teve seu papel de Frigga (esposa de Odin e mãe de Thor) bastante secundarizado no filme. E ainda tem a Jane Foster de Natalie Portman. Quer dizer, né. Depois de “Cisne Negro” (Black Swan, Darren Aronofsky, 2010) cada vez que eu enxergar a Portman na minha frente vou esperar uma atuação naquele nível. Mas em Thor… bom, nas palavras dela própria, ela fez o filme para desestressar, para desanuviar a cabeça. E é bem a impressão que passa. Seu desempenho não compromete, mas não é nada extraordinário.

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Hemsworth, Hopkins e Hiddlestrom estão bem no filme. Mas o tapa-olho podia ser menos photoshop, não?

Ainda na linha das coisas que eu gostei no filme: as alusões aos quadrinhos. Certas coisas que passam batidas para quem não acompanha as HQ’s estão lá só para homenagear esses fãs, como a Manopla do Infinito que aparece em Asgard no início do filme e a participação de Clint Barton, o Gavião Arqueiro, em determinado momento (com um visual bem ultimate, diga-se de passagem. Quem lê os quadrinhos entende o que eu quero dizer). Gostei também dos Três Guerreiros, Fandral (Josh Dallas), Hogun (Tadanobu Asamu) e Volstagg (Ray Stevenson). Heidmall, o guardião da ponte do arco-íris, talvez seja o meu personagem preferido do filme. O fato de terem escolhido um ator negro (Idris Elba) para interpretá-lo (assim como um asiático para fazer Hogun) foi uma ousadia interessante do diretor, e teve resultados bem legais.

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Hogun, Fandral e Volstagg: os Três Guerreiros em sua versão de cinema e…


… na versão em quadrinhos. 

Mudando um pouco de assunto, vamos agora falar um pouco daquilo que eu não achei tão legal assim. A começar, as caracterizações visuais de Asgard e dos asgardianos. Tudo bem que Asgard é conhecida como a “Cidade Dourada”, mas precisava ser tão… brega? Achei que a charada da representação de guerreiros medievais tinha sido morta por Peter Jackson na trilogia “O Senhor dos Anéis”, com aquele visual meio “sujo” e irregular… mas Branagh optou por um visual “Cavaleiros do Zodíaco”. Com exceção do próprio Thor, parece tudo um grande desfile de Carnaval…

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Sala do trono de Asgard. Mas bem que alguém podia gritar “Mê dê sua força Pégasooooooo…” 

Além disso, o roteiro anda rápido demais. É o mesmo problema que eu senti em “Homem de Ferro 2” (Iron Man 2, Jon Favreau, 2010). Thor desce à Terra para uma jornada de redenção, em busca de voltar a “ser digno”. E essa jornada dura… três dias! Parece tudo muito raso, simples e pueril. Para o meu gosto, videoclipe demais e filme de menos. Mas enfim, tem muito fã que está gostando bastante, pelo que tenho lido na net. Falando em fãs, o que a maioria não gostou (e eu me incluo aí) foi da luta do Thor com o Destruidor. A reclamação principal é que foi muito fácil derrotar o monstro/guardião asgardiano. E de fato, nos quadrinhos o Destruidor é bem mais difícil de ser parado do que foi no filme.

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Thor encara o Destruidor: nem destruiu tanto assim… 

Thor funciona perfeitamente como filme de diversão, apesar de ser mais raso do que “Homem de Ferro 1” e “O Incrível Hulk”. Tem muito mais o tom de “Homem de Ferro 2”, o que eu acho bem uma pena, mas enfim. Nos deixa com um time respeitável de Vingadores para o filme de 2012: temos o Homem de Ferro (Homem de Ferro 1 e 2), o Hulk (O Incrível Hulk), o Máquina de Combate (Homem de Ferro 2), a Viúva Negra (Homem de Ferro 2), Thor (Thor) e o Gavião Arqueiro (Thor). Além desses ainda chega o Capitão América, provável líder da equipe, e a supervisão dos agentes Coulson (o ex-marido da Old Christine) e Nick Fury (Samuel L. Jackson). Confesso que tenho muito medo de “Vingadores” (previsto para 2012) ser uma bomba. Mas, quem viver verá…

PS 1: Não assista “Thor” em 3D. É completamente dispensável.

PS2: Se quiser saber mais sobre filmes de heróis e dos Estúdios Marvel, tem aqui, ó: http://paginadois.com.br/blog/?id=3&com=posts&pagina=detalhe&idPost=35

PS3: Dia cinco de maio agora fez um ano que eu estou publicando textos aqui no PáginaDois! Gostaria de agradecer, novamente, ao Rodka, à Clarice e a todo mundo que faz parte da turma. É ótimo estar com vocês!

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